Alta do Ibovespa e queda de techs em NY sugere nova rotação do capital nas bolsas. Será?

Alta do Ibovespa e queda de techs em NY sugere nova rotação do capital nas bolsas. Será?

Alta do Ibovespa e queda de techs em NY sugere nova rotação do capital nas bolsas. Será?

Saldo do Dia: A oposição entre as ações de setores tradicionais e as ligadas à inteligência artificial movimentou os mercados nos últimos anos; agora, esses fluxos estão mais fugazes e menos previsíveis

A bolsa brasileira redescobriu nesta segunda-feira (22) o valor de ser concentrada em setores tradicionais: quando as teses de inteligência artificial tropeçam - ou apenas exaurem o apetite do investidor -, a indústria pesada e o setor financeiro se tornam uma vantagem competitiva.

Num movimento em parte técnico e parte baseado no fundamento do "voo para a qualidade", o capital estrangeiro deixou de lado as promessas da tecnologia em Nova York e pôs fim à série de seis pregões de bolsa lateralizando no Brasil.

- Com o renovado impulso comprador, o Ibovespa fechou a sessão em alta de 1,2%, nos 170.370 pontos. O índice reduziu as perdas acumuladas em junho até aqui a 2%. No ano, a valorização acumulada pela carteira está em 5,74%.

O Ibovespa herdou hoje os recursos que sangraram dos índices Nasdaq e S&P 500 com a debandada de cérebros do Google e o derretimento da SpaceX. Mesmo que essa parcela seja ínfima diante do movimento global de rotação nas carteiras de risco, qualquer brisa pode virar um tufão num mercado que foi abandonado pelo capital local e estrangeiro nos últimos dois meses.

- O giro financeiro do Ibovespa hoje ficou em R$ 17,7 bilhões, ainda um pouco da média diária nos últimos 12 meses, de R$ 18,4 bilhões.

A sessão desta segunda ainda merece ser lida com cuidado: embora retome a lógica que dominou os mercados no começo deste ano, antes de eclodir a guerra entre Estados Unidos e Irã, não há indícios (ainda) de que movimento seja sustentável.

Como o cenário macro global é mais incerto, com indicativos de apertos monetários nos mercados americano e europeus ainda neste ano, os fluxos do dinheiro se tornaram mais fugaz globalmente. A rotação, portanto, é menos volumosa e está mais ligada a oportunidades de curto prazo. É o famigerado fast money, um movimento especulativo e tático, que busca mitigar riscos de perdas imediatas e buscar ganhos de forma rápidos nos mercados de risco. Por isso, na mesma velocidade em que essas posições são montadas elas também são desfeitas.

O Ibovespa e o Nasdaq tomaram caminhos contrários quando se fortaleceu a tese do "excepcionalismo americano", que se baseia na valorização das ações em NY apesar de juros mais altos, inflação aquecida, das incertezas políticas e quaisquer outras lombadas na economia dos EUA e de outros gigantes. Essa tese se fortaleceu na era das ações de inteligência artificial e carregou os índices de Nova York e o dólar principalmente em 2024, mas vinha se enfraquecendo de 2025 até fevereiro deste ano. Em abril, ela foi retomada.

A antítese desse excepcionalismo americano é o "voo para a qualidade", quando as apostas nas gigantes de tecnologia parecem arriscadas demais, então o capital vai buscar um porto seguro em ativos de valor, mercados ligados a setores mais tradicionais e a empresas que produzem bens mais tangíveis e tradicionais (commodities, bens de consumo).

A inversão entre essas duas teses criou a mega rotação do capital nos últimos anos, descolando o desempenho de índices inflados pelas big techs, como S&P 500 e Nasdaq, do apetite por risco no resto do mundo.

Para quem olhou para o EWZ, o principal ETF (fundo negociado em bolsa que acompanha um índice) de ações brasileiras no exterior, pareceu que o capital de risco tomou um novo rumo em direção aos setores mais tradicionais. Mas esta pode não ser toda a história.

- O dólar à vista recuou 0,46%, a R$ 5,14. No mês, ainda está com alta de quase 2% contra o real. No ano até aqui, recuou 6,33% no mercado de câmbio local.

O movimento técnico nesses mercados sugere uma correção tanto lá fora quanto aqui. Desde o IPO, em 12 de junho, as ações da Spacex haviam se valorizado 35% em uma semana. Hoje, o tombo pode ser a queda de forças no mercado buscando uma média mais realista para o papel, passada a euforia com a companhia.

O cenário cabe para as ações ligadas à inteligência artificial, que vinham recebendo um fluxo anormal de recursos puxado pela empresa de Elon Musk. Era questão de tempo, portanto, para o tropeção.

O gatilho veio de uma notícia da saída de Noam Shazeer do Google. O vice-presidente de engenharia do Google DeepMind e um dos pais dos modelos Gemini trocou a empresa pela OpenAI. No mesmo dia, John Jumper, Nobel de Química de 2024 e líder do projeto AlphaFold, foi para a Anthropic.

Dois nomes que, juntos, representam o que há de mais caro na corrida da inteligência artificial: cérebro.

Os números sugeriam que a tese de que meia dúzia de empresas dominaria a corrida da IA - e que, por isso, essas empresas mereciam valer mais que o PIB de muitos países - está rachando. Quando os cientistas mais valiosos do setor trocam de time, o investidor dessas ações começa a duvidar se os trilhões de dólares alocados em determinados nomes do mundo das big techs vão virar receita ou apenas dinheiro pelo rado.

E, na dúvida, o fast money vende.

- A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,26% para 14,222% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.

- No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,90% para 14,71% ao ano.

- Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,67% para 14,47% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo.

Parte desses dólares pousou no Brasil e encontrou terreno fértil para ganhos de curto prazo por um trio de fatores que, combinados, criaram o cenário ideal para a recuperação dos ativos domésticos - que, por sua vez, vinham pressionados pelo cenário de juros

Primeiro, o petróleo. Os EUA emitiram uma licença de 60 dias autorizando a venda de petróleo cru iraniano (em dólares), resultado da primeira rodada de negociações entre Washington e Teerã na Suíça. O petróleo mais barato, neste momento, é sinônimo de combustível mais barato, que é inflação menor e juro potencialmente mais baixo.

Essa cadeia do efeito dominó beneficia diretamente quem depende de crédito, como varejistas, construtoras, bancos, justamente as ações que mais se beneficiaram hoje.

Das 78 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 61 valorizaram hoje.

Um segundo fator que deu um empurrão à bolsa do Brasil hoje foi o dólar. A moeda americana perdeu força global na esteira do mesmo raciocínio - se os EUA estão com juro provavelmente subindo neste ano, mas as big techs estão perdendo brilho, o capital não ficará parado no mercado americano.

Terceiro, a própria rotação. Com o dinheiro saindo de tecnologia e buscando valor, mercados com peso em "velha economia" viram destino natural. O Ibovespa é praticamente um ETF de banco com pitadas de mineração e consumo - exatamente o que entrou no radar de novo lá fora. Ao menos por ora.

Comportamento das ações do Ibovespa em 22/6/2026

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