Mergulho da Vale (VALE3) e dólar mais forte emperram recuperação do Ibovespa

Mergulho da Vale (VALE3) e dólar mais forte emperram recuperação do Ibovespa

Mergulho da Vale (VALE3) e dólar mais forte emperram recuperação do Ibovespa

Saldo do Dia: Índice ainda precisa subir mais 2% até alcançar um patamar neutro, de acordo com as análises técnicas, mas chegar lá pode ser mais difícil do que parece

A bolsa brasileira entrou em zona de recuperação após semanas seguidas em queda, beneficiada pelo fluxo chamado no mercado financeiro de "voo para a qualidade", que referencia o movimento do capital para ações de setores tradicionais subdimensionadas no mercado.

A combinação de eventos nesta terça (23) sugeria que o principal índice de ações do Brasil se manteria rumo a um cenário neutro de forças na bolsa. O mergulho da Vale e o dólar mais forte, no entanto, entraram no caminho.

- O Ibovespa ainda fechou a sessão em alta de 0,52%, nos 171.259 pontos. Na semana, a carteira teórica acumula alta de 1,74% e, com isso, reduziu as perdas acumuladas em junho até aqui a 1,46%. No ano, a valorização acumulada pela carteira está em 6,3%.

A rotação de recursos entre os papéis de empresas ligadas às teses de inteligência artificial (IA) libera um fluxo para empresas abundantes no mercado brasileiro: indústria pesada e gigantes do sistema financeiro.

Mesmo que a parcela de dólares que escape para o Brasil seja ínfima diante do movimento global de rotação nas carteiras de risco, é suficiente para tirar o Ibovespa da inércia da última semana.

- O giro financeiro do Ibovespa hoje ficou em R$ 16 bilhões, 13% abaixo da média diária nos últimos 12 meses, de R$ 18,4 bilhões.

Outro ponto de sustentação da carteira nesta sessão foi a correção nas taxas dos contratos futuros de juros. Engatilhada pela ata do Copom, que trouxe hoje respostas para algumas preocupações herdadas do comunicado da última semana, o comitê restaurou a sua credibilidade com um texto comprometido com a meta de inflação e que deu os devidos pesos à política fiscal e à atividade em meio às incertezas no exterior.

Por isso, mesmo com as sinalizações que inspiraram as apostas na manutenção da Selic em 14,25% ao ano na próxima reunião do Copom, o mercado investidor encontrou brechas para reduzir os prêmios na curva de juros.

- A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,22% para 14,19% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.

- No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,71% para 14,61% ao ano.

- Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,47% para 14,38% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo.

Numa reação mecânica na equação dos gestores, o quadro atenua as projeções para o endividamento corporativo e, assim, descomprime as estimativas para os lucros das companhias.

Era exatamente o que o Ibovespa precisava para sair da região abaixo dos 170 mil ponto à qual está preso desde o começo do mês. Na análise técnica do Itaú BBA, para superar essa área em que as pressões compradora e vendedora se equilibram, o índice precisa alcançar os 174.900 pontos.

Faltam 2% até o índice alcançar esse patamar neutro. Poderia faltar menos para chegar lá, não fosse a Vale, mas, mesmo perto dos 175 mil pontos, o Ibovespa não estaria com o ano garantido.

" Vale destacar, ainda, que o índice precisará superar a resistência em 179.500 pontos antes de voltar a apontar para as regiões de 188.700 e 199.300 pontos", complementa o relatório grafista do Itaú BBA, assinado pelo analista Lucas Piza.

Com o maior peso individual da carteira teórica, de 12%, a ação da Vale tem a capacidade de, sozinha, definir o rumo da sessão. Hoje, a queda de quase 2% da mineradora emperrou a recuperação do Ibovespa.

Por que Vale e pares caíram?

- Das 78 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 51 valorizaram hoje.

O preço da tonelada do minério de ferro operou abaixo de US$ 98 no mercado asiático hoje, batendo o menor patamar em quatro meses. Há uma pressão de baixa consolidada pela expectativa de aumento da oferta da commodity, puxada pelo salto produtivo no complexo de Simandou, na Guiné.

Na China, maior compradora do minério de ferro da Vale, os dados econômicos sugerem que a produção de aço local teve uma nova contração no mês de maio, acompanhada por investimentos e consumo abaixo do projetado. É sinal de menor demanda pela commodity. Concomitantemente, os estoques de minério de ferro retidos nos portos chineses atingiram volumes recordes para o período, o que reduz a urgência de compra.

As metálicas (mineradoras e siderúrgicas), que têm fatia de 14,5% da carteira teórica, caíram em bloco nesta sessão. O pessimismo com essas ações se materializa num horizonte cada vez mais fechado no setor.

A China Iron and Steel Association (CISA) classificou o cenário chinês em desaceleração prolongada. Embora descarte um colapso repentino da demanda, o consumo de aço na construção civil chinesa registra perda severa de volume, sendo parcialmente absorvido por setores como manufatura avançada, infraestrutura e transição energética. A projeção apresentada indica que, para equilibrar os fatores, cortes governamentais deverão reduzir a produção de aço do país para 900 milhões de toneladas anuais até 2030.

A Vale ainda é enredada em uma narrativa micro que, somada a um macro pessimista, eleva a pressão sobre o papel: a disputa na gestão. Ontem, o conselho de administração da mineradora recomendou formalmente aos acionistas a rejeição da proposta apresentada pela Previ (o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, maior acionista da companhia com 7,01% das ações) para destituir o atual presidente do conselho, Daniel André Stieler.

A Assembleia Geral Extraordinária que deliberará o caso está prevista para 22 de julho de 2026.

Hoje, a diretoria da Previ, que moveu a pauta para destituir o presidente do conselho da Vale, declarou publicamente que não fará indicações diretas para a sucessão de Stieler. O fundo afirmou que defende a escolha de um líder independente, com o objetivo declarado de afastar a percepção de ingerência política estatal na mineradora, mas a suspeita já foi plantada no mercado.

Dólar mais forte

- O dólar à vista avançou 0,88%, a R$ 5,19 hoje. Na semana, a moeda americana sobe 0,4% e, no mês, acumula alta de 2,86% contra o real. No ano, o quadro se inverte: o dólar recuou 5,5% no mercado de câmbio local.

O dólar segue num movimento de valorização no exterior, tendo atingido hoje seu maior nível em um ano pelo índice DXY, uma cesta com as principais divisas de economias desenvolvidas. Especialistas apontam indícios de um movimento de redução das posições de risco nas carteiras globais.

Para enfrentar a maré de apertos nos juros nos Estados Unidos - conforme indicado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na decisão da última semana - e em países da Europa, gestores reduzem sua exposição a ativos mais voláteis, que tendem a sofrer perdas e cuja liquidez pode minguar, e reforçam os fluxos para os títulos do Tesouro americano (Treasuries).

Nesse ambiente em que as Treasuries voltam a funcionar como draga da liquidez global e passam a competir com a renda fixa de outros países, sustentando as projeções de juros reais altos, o dólar volta a se fortalecer - afinal, são mais recursos entrando no mercado americano depois de um ano e meio de enfraquecimento estrutural da moeda.

No limiar, o dólar mais forte pode estreitar o corredor do Copom para movimentações na Selic, mas - se é de algum consolo - a ata de hoje tirou da mesa as discussões de novos apertos na taxa básica de juros brasileira. Ao menos por ora.

Comportamento das ações do Ibovespa em 23/6/2026

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