
Aprovação social e autoindulgência são vieses que destroem o orçamento
O que as histórias dos políticos envolvidos na Compliance Zero podem nos ensinar sobre vieses comportamentais
Atualizado
Em suas últimas fases a Operação Compliance Zero tem alcançado os políticos, deputados, senadores e governadores que, de acordo com as investigações da polícia federal, colocaram seus mandatos a serviço de interesses particulares.
Infelizmente já estamos acostumados a assistir casos em que empresários interessados em prestar serviços, vender mercadorias ou simplesmente abocanhar um naco do dinheiro público corrompem alguns agentes públicos em troca de dinheiro vivo, joias, imóveis e outros bens de alto valor. O caso Master trouxe uma dimensão nova, ou pelo menos explicitou o luxo e as experiências que o envolvem. Um tipo de corrupção ostentação.
Diferente de outros empresários que buscaram fazer negócios escusos com o poder público, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro não era discreto. Pelo contrário, ele optou por um estilo hiperbólico, com mansões, festas, jatos e muito mais. Tudo, sempre, carregado de ostentação e, até certo ponto, de publicidade. Desde as instalações de seu ex-banco na Faria Lima, até a famosa festa de 4 dias na Itália ao custo de R$ 200 milhões. Era luxo só!
Esse seu estilo que mistura luxo, vaidade e ostentação foi utilizado como uma espécie de imã que atraia os servidores públicos, afinal políticos são exatamente isto, para esta teia de troca de favores, caso típico de tráfico de influência.
Conforme avançam as investigações da Operação Compliance Zero vamos sabendo que além dos imóveis caríssimos, as experiências de luxo também exerciam um grande fascínio. Entre estas, parece que as viagens de avião particular eram das preferidas. Diárias em hotéis de luxo são outro tipo de luxo que também agrada bastante aos parlamentares e Governadores. Shows concorridos e caros também não faltavam na lista.
Dentre estas chamadas experiências uma das que mais chamou atenção foi o caso da picanha banhada a ouro 24 quilates. Esse é um tipo de luxo que parece ter levado um ex-Governador ao delírio, ao nirvana.
Muitos dos políticos que aparecem envolvidos nestes casos são experientes, estão na vida pública há tempos, mas parece que desta vez foram descuidados, baixaram a guarda e se entregaram aos prazeres da vida.
Este não é um artigo sobre política, é sobre comportamento.
Se pessoas tão experientes, com anos de vida pública se expuseram ao risco de serem pegas de forma tão simples e constrangedora, se corromperam de maneira tão vil em troca de luxos que não podiam bancar, é porque vieses comportamentais atuaram, o emocional falou mais alto, para que as barreiras morais fossem derrubadas.
Dois vieses comportamentais, pelo menos, ajudam a explicar este comportamento típico de ostentação, são eles: aprovação social e autoindulgência.
Começando pela aprovação social. Políticos costumam conviver com empresários e executivos muito ricos e bem remunerados e acabam conhecendo e, de alguma forma convivendo, com histórias de luxos e prazeres que não lhes são acessíveis. Naturalmente eles gostariam de desfrutar destas experiências e poder conversar de igual para igual. Eles gostariam de pertencer ao grupo, gostariam de ter a sensação do pertencimento.
Embora não se possa comparar as condutas, as situações comungam da mesma raiz com, por exemplo, um pai que costuma levar ou pegar um filho na escola, no clube ou em qualquer outro ambiente onde o padrão de vida médio é muito superior e dispara aquele sentimento de deslocamento em relação ao grupo, aquela sensação de que não pertencemos a tribo. Do incômodo inicial surge a sensação de que precisamos ter o mesmo padrão de vida e o impulso por adquirir bens e frequentar ambientes que estão acima de nossas posses.
Já sobre a autoindulgência, é o famoso “eu mereço”. Todos nos vemos como pessoas que trabalham duro, que nos preparamos muito para ocupar as posições em que estamos, somos diligentes, competentes etc. Pelo menos esta é a imagem que temos de nós mesmos. Ninguém cultiva uma autoimagem ruim.
É natural que ao vermos outros com padrões de vida tão melhores, nos comparemos e pensemos “por que não posso ter estas mesmas experiências?”. Afinal, eu mereço.
No caso destes políticos envolvidos em malfeitos, estamos falando de crimes, corrupção e de ilícitos que devem ser punidos com todo o rigor da lei. Neste artigo os utilizei como exemplos hipertrofiados para abordar os vieses.
Os vieses de aprovação social e autoindulgência são grandes detratores de nosso orçamento.
Eles estão por trás de muitos daqueles gastos acima do nosso orçamento. Eles causam angústias, causam agonias e criam incômodos que nos fazem buscar um alívio, um prazer hoje, agora, que aplaque este mal-estar. Aqui já encontramos um tanto de outro viés, o do presente.
Diferentemente de políticos envolvidos em casos de corrupção, para nós, pessoas comuns, não é possível empurrar a conta para a sociedade e se esconder no manto da impunidade. Nós, quando descuidamos do autocontrole e sucumbimos a tentação, somos as maiores vítimas destes comportamentos que são grandes detratores do orçamento e da nossa vida financeira.
A melhor maneira de fugir das armadilhas destes vieses é criar objetivos e metas para gastos e poupança e ter disciplina. Esse é o caminho mais seguro.
Para nós o crime contra o orçamento não compensa.
Hudson Bessa é economista, sócio da HB Escola de Negócios e da Spot Capital Consultoria de Investimentos e professor na Administração da ESPM-SP.