Depois da euforia, a realidade das startups brasileiras

Depois da euforia, a realidade das startups brasileiras

Depois da euforia, a realidade das startups brasileiras

Quantos conseguirão sobreviver tempo suficiente para descobrir se suas soluções realmente resolvem um problema?

Atualizado

Dois anos atrás, em 2024, escrevi esta coluna diretamente do Web Summit, no Rio de Janeiro, impactado pela energia quase física dos corredores.

Naquele momento, o que mais chamava atenção não era apenas a tecnologia, nem mesmo a inteligência artificial, que já aparecia em praticamente todas as conversas. O mais marcante era ver milhares de pessoas querendo ser protagonistas do mundo ao seu redor.

Eram empreendedores de todas as idades, fazendo o “pitch” de suas “startups” em pequenas bancadas, nos corredores, nas filas e em qualquer canto onde houvesse alguém disposto a ouvir. Havia uma mistura curiosa de grandes empresas, investidores, jovens fundadores, executivos, curiosos, idealistas e gente tentando transformar uma ideia em negócio. Uma energia muito vibrante.

Chamei aquilo, na época, de uma revolução nada silenciosa das startups brasileiras.

Este ano voltei ao Web Summit com outra sensação. A revolução continua, mas parece que o romantismo passou. O evento segue cheio, movimentado, com muita gente circulando. Mas a impressão foi diferente. Vi menos estandes institucionais de grande porte, menos presença ostensiva de grandes empresas e grandes apoiadores, e mais empreendedores em estágio bastante inicial.

Havia muita empresa que passava a sensação de estarem mais crua, em estágio bastante inicial: muitas soluções ainda em desenvolvimento, e muitos fundadores tentando validar uma tese mais do que escalar um negócio.

Em tom de brincadeira, dava para dizer que uma parte relevante das “empresas” ali talvez ainda nem tivesse CNPJ. A frase é exagerada, claro, mas traduz uma percepção importante. O Web Summit deste ano pareceu refletir menos o glamour das “startups” e mais a dureza real de empreender no Brasil.

Em 2024, o que me impressionava era o entusiasmo. Agora, o que me chamou atenção foi o contraste entre a enorme democratização da tecnologia e a dificuldade concreta de transformar essa tecnologia em empresa sustentável.

Os juros altos, a escassez de capital, a seletividade maior dos investidores e o ambiente econômico mais duro vem deixando marcas. São os sintomas aparentes para mim. O empreendedor continua lá, insistente, criativo e disposto a fazer o oposto do conselho clássico de estabilidade que tantas famílias brasileiras sempre deram. Mas ele parece mais sozinho, mais pressionado e, em muitos casos, mais cru.

Do lado do capital, a temperatura também parecia diferente. Conversei com alguns investidores institucionais e não senti grande animação. Vi menos investidores anjo circulando do que em outras edições e menos conversas com aquele ar de caça à próxima grande oportunidade.

Isso não significa que o dinheiro desapareceu. Ele é bem mais escasso, e, certamente mais criterioso. A era em que bastava parecer uma “startup” promissora para despertar curiosidade ficou para trás. Hoje, o investidor quer mais substância, mais receita, mais clareza de mercado, mais eficiência no uso de capital e menos discurso genérico.

O tema dominante, sem surpresa, foi a inteligência artificial. Mas de outro jeito.

Ela estava em todos os lugares. Nos painéis, nos estandes, nos nomes das soluções, nos discursos dos fundadores, nos materiais de marketing e nas promessas de produtividade. Se em 2024 a IA já permeava excessivamente os corredores, agora ela praticamente virou idioma obrigatório.

Esse movimento tem um lado muito positivo. Nunca foi tão fácil construir um produto digital. Equipes pequenas conseguem desenvolver protótipos rapidamente, automatizar processos, criar interfaces inteligentes e testar hipóteses com uma velocidade que seria impensável poucos anos atrás. A inteligência artificial democratizou a capacidade de empreender em tecnologia.

Mas há um outro lado. Quando todo mundo diz que faz inteligência artificial, a expressão começa a perder força. Em muitos casos, parecia difícil separar quem estava, de fato, resolvendo um problema relevante de quem apenas colocava IA na embalagem de uma solução comum. Ou mesmo embalando qualquer coisa. Simplesmente organizar melhor dados que estão disponíveis em redes sociais, e sites em geral, agregar buscas ou automatizar qualquer esteira com isso não é por sí só um negócio.

Vi muitas, muitas empresas voltadas para RH, vendas e marketing. Ferramentas para prospecção, geração de conteúdo, recrutamento, atendimento, produtividade comercial, qualificação de contatos de vendas e automação de relacionamento. São dores reais e mercados importantes. Mas a quantidade de soluções - e com baixa diferenciação - chamava atenção.

Se eu fosse empreendedor nessas áreas, ficaria preocupado. A barreira de entrada caiu, mas justamente por isso a concorrência explodiu. Usar IA deixou de ser diferencial. O diferencial agora está em distribuição, dados, integração com o dia a dia do cliente, profundidade do problema resolvido e capacidade de provar retorno.

Por outro lado, vi menos “fintechs” do que esperava e poucas “legaltechs” e “regtechs”. Isso me chamou atenção porque talvez esteja justamente aí uma das maiores oportunidades. Se tem uma coisa que a IA é boa é em organizar coisas típicas do mundo de leis e regulações em geral. Achei que haveriam mais empresas desses nixos promissores.

O Brasil é um país complexo, regulado, burocrático e intensivo em processos. Há uma quantidade enorme de rotinas jurídicas, financeiras, regulatórias e operacionais que ainda dependem de trabalho manual, análise documental, interpretação de normas, checagens, controles e evidências.

Inteligência artificial parece um prato cheio para esse tipo de problema.

Em vez de apenas produzir mais ferramentas parecidas para RH, vendas e marketing, há espaço para aplicar IA em áreas menos óbvias, mas talvez mais defensáveis: compliance, prevenção à lavagem de dinheiro, KYC, KYP, rotinas jurídicas, controles internos, auditoria, governança e relacionamento com reguladores.

São mercados mais difíceis de entender, mas justamente por isso menos sujeitos à banalização. Neles, não basta ter uma interface bonita ou um bom pitch. É preciso conhecer o problema por dentro.

Outro sinal de mudança foi o próprio clima do evento. Em outras edições, havia uma sensação mais internacional, com mais estrangeiros nos corredores e painéis majoritariamente em inglês. Neste ano, percebi mais conteúdos em português e menos presença estrangeira visível. O Web Summit pareceu mais brasileiro. Isso aproxima o evento da nossa realidade, mas também o torna um espelho mais fiel do país.

E o espelho mostra um Brasil contraditório. Temos criatividade, talento, mercado consumidor, bons empreendedores e enorme capacidade de adaptação tecnológica. Ao mesmo tempo, temos juros altos, capital caro, burocracia, insegurança, dificuldade de escala e uma cultura que ainda torna o caminho empreendedor mais duro do que deveria.

Em 2024, minha pergunta era quantos daqueles empreendedores eu veria nas capas dos jornais e revistas nos anos seguintes, como criadores das soluções que mudariam o mundo.

Hoje, minha pergunta mudou.

Quantos conseguirão sobreviver tempo suficiente para descobrir se suas soluções realmente resolvem um problema? Quantos conseguirão atravessar um ciclo de capital escasso? Quantos transformarão inteligência artificial em vantagem competitiva real, e não apenas em argumento de venda? Quantos sairão da boa idéia experimental para uma empresa?

Essa talvez seja a grande mudança do Web Summit 2024 para o de 2026.

A revolução das startups brasileiras não acabou. Ela ficou mais seletiva. Mais difícil. Mais adulta. E isso não é necessariamente ruim. O encantamento é importante, mas não sustenta empresas. O que sustenta é cliente, receita, execução, eficiência, confiança e capacidade de resolver problemas reais.

O Web Summit continua sendo uma vitrine poderosa do empreendedorismo brasileiro. Mas, neste ano, ele me pareceu menos uma celebração do futuro e mais um retrato honesto do presente. Um presente em que a inteligência artificial colocou ferramentas poderosas nas mãos de milhares de empreendedores, mas não eliminou as velhas dificuldades de se construir uma empresa no Brasil.

No fim, talvez a boa notícia seja justamente essa. Depois da euforia, vem o teste. Depois do discurso, vem a execução. Depois da revolução nada silenciosa, vem a pergunta que separa as boas ideias das boas empresas.

Quem, de fato, vai conseguir ficar de pé?

José Brazuna é sócio da Iaas!

O e-mail do José Brazuna é: jbrazuna@iaasbr.com

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