Títulos dos EUA aspiram capital global, enfraquecendo bolsa e renda fixa no Brasil

Títulos dos EUA aspiram capital global, enfraquecendo bolsa e renda fixa no Brasil

Títulos dos EUA aspiram capital global, enfraquecendo bolsa e renda fixa no Brasil

Saldo do Dia: Pela lógica do mercado, a reabertura de Ormuz liberaria apetite por risco. Acontece que o cessar-fogo chegou tarde demais - e um novo horizonte para os juros já está formado

Reaberto o Estreito de Ormuz, com navios voltando a cruzar o Golfo Pérsico e liberando a carga parada nos portos, o petróleo despencou ao menor valor em quatro meses. O quadro desta semana concretizou o que os investidores esperavam há mais de 100 dias. Pela lógica dos mercados, o alívio global acionaria o apetite por risco, mas a realidade refletiu o inverso: um estrangulamento dos fluxos nas bolsas.

- O Ibovespa encerrou o dia em queda de 0,44%, nos 170.507 pontos. Na semana, a carteira teórica ainda acumula alta de 1,3% e, com isso, reduziu as perdas acumuladas em junho até aqui estão em 1,9%. No ano, a valorização acumulada pela carteira está em 5,8%.

O dinheiro global também não está indo para bolsas em Nova York. Também não foi para outros mercados emergentes - que não o Brasil. Não teve como destino também as criptomoedas. Nada disso. A sessão desta quarta (24) reforça a retomada dos fluxos massivos de recursos para os títulos do governo dos Estados Unidos - os papéis mais conservadores do planeta.

- Na carona desse fluxo renovado para a renda fixa americana, o dólar à vista se fortaleceu no mundo todo. Por aqui, a cotação avançou 0,3%, a R$ 5,20 no fechamento. Na máxima de hoje, chegou a tocar R$ 5,22, o maior nível desde 31 de março. Na semana, sobe 0,7% e, no mês, acumula alta de 3,16% contra o real. No ano, o quadro se inverte: o dólar recua 5,23% no mercado de câmbio local.

Enquanto a guerra entre EUA e Irã parecia não ter fim, gestores no mundo inteiro operavam sob a premissa de que o petróleo caro era o maior problema da economia global. Sustentava inflação aquecida, impunha mais custos às empresas e, consequentemente, distorcia preços nas prateleiras.

O fim do conflito resolveria isso. E de fato resolveu, porém só até certo ponto. A pacificação das relações entre EUA e Irã revelou outro problema: o petróleo mais caro foi apenas pressão adicional a um quadro que já era preocupante. Por trás da cortina de fumaça da guerra, a inflação americana já estava retomando uma trajetória altista - independentemente do petróleo.

As tarifas de importação impostas pelo governo Donald Trump, um mercado de trabalho aquecido e um setor de serviços que resiste a desacelerar mantiveram os preços subindo nos EUA mesmo sod a camada inflacionária do petróleo mais caro.

O cenário não passou batido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) no entanto. Sem a guerra para justificar a postura paciente, o novo presidente do banco central americano, Kevin Warsh, agravou o discurso.

Na semana passada, em sua primeira coletiva à frente do Fed, Warsh repetiu a expressão "estabilidade de preços" uma dúzia de vezes. Não mencionou corte de juros uma única vez. Pelo contrário. No horizonte da maioria dos diretores do banco central americano, as taxas sobem neste ano.

O cenário incendiou o mercado. Na segunda, o Bank of America (BofA) revisou sua previsão, sacudindo os mercados de juros, trabalhando agora com três aumentos de juros nos EUA ainda em 2026 (para as decisões em setembro, outubro e dezembro). "O problema de inflação do Fed ficou inequivocamente pior", escreveu o economista Aditya Bhave no relatório do banco.

Quando as projeções indicam que os juros do maior mercado do mundo vão subir, seus títulos de renda fixa passam a pagar mais. O eventos desta semana então se desencadearam como se os EUA tivessem ligado um aspirador. De recursos globais, neste caso.

O capital começou a migrar dos títulos de outros mercados, de commodities e até em parte das ações ligadas à inteligência artificial para capturar o rendimento as Treasuries, que além de liquidez devem entregar retornos maiores a um dos menores riscos do globo - o do Tesouro americano.

Os retornos nesses títulos, no entanto, estão caindo. De acordo com analistas, o intenso fluxo comprador está se contrapondo à correção de cenário dos juros, por isso as taxas das Treasuries lateralizaram.

Pelo comportamento desses papéis, Wall Street está trabalhando com o cenário de desaceleração lenta da economia americana. Então o Fed subirá os juros agora, mas a atividade deve seguir aquecida por mais um tempo e arrefecer só adiante. Quem compra Treasuries hoje, portanto, aceita um rendimento menor na crença de que, em alguns meses, o cenário estará pior - e ter travado as posições hoje garantiria um bom negócio.

Na prática, a paz geopolítica deu brecha para a retomada da guerra monetária.

- A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,19% para 14,13% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.

- No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,61% para 14,36% ao ano.

- Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,38% para 14,16% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo.

E o Brasil nesse cenário?

- O giro financeiro do Ibovespa hoje ficou em R$ 21,4 bilhões, 10% acima da média diária nos últimos 12 meses, de R$ 18,4 bilhões.

Para Bruno Yamashita, coordenador de alocação da Avenue, o que se viu no primeiro trimestre, com o dinheiro estrangeiro entrando em mercados emergentes, reverteu agora.

"Estamos vendo a aceleração da saída de capital estrangeiro da B3 há algum tempo, desde meados de abril para maio", diz. E ele faz uma distinção importante na carteira a partir desse cenário: a rotação de recursos que favoreceu emergentes no primeiro trimestre foi para Coreia e Taiwan, puxada por semicondutores e inteligência artificial - não tanto para o Brasil. "A outra cesta de emergentes, que é a que inclui o Brasil, acabou não performando tão bem."

Agora, com o Fed sinalizando alta de juros e o Banco Central (BC) brasileiro sustentando os alívios na Selic (que caiu de 14,50% para 14,25% na semana passada), o movimento de carry trade (estratégia de tomar dinheiro emprestado barato numa moeda e aplicar em outra que paga mais) perdeu força por aqui.

Se a renda fixa dos EUA paga mais, e o Brasil paga um pouco menos do que antes, os títulos locais já parecem menos atrativos. Some à equação o câmbio, com a desvalorização do real e o fortalecimento global do dólar, e o chamariz de capital para cá está se apagando.

"A perspectiva de novos cortes da Selic comprime o diferencial de juros e enfraquece o carry trade, ampliando a pressão sobre o câmbio", explica Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.

Nessa reconfiguração dos atores do mercado, o petróleo acaba tendo um efeito colateral no mercado. Embora ainda traga as perspectivas de redução de custos do frete, o que alivia a inflação brasileira, deve desequilibrar a balança comercial.

O Brasil é exportador de petróleo. Quando o barril fica muito mais barato, a tendência e entrarem menos dólares no país pela via comercial, o que pressiona ainda mais o câmbio. "A queda no preço do barril seria negativa, um detrator para o aquecimento de atividade econômica brasileira", pondera Yamashita. "A parte de exportação ainda compensava a importação. Com petróleo mais baixo, isso muda."

O resultado já aparece na carteira teórica.

- Das 78 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 41 desvalorizaram hoje.

De um lado, Petrobras e pares despencaram. Juntaram-se a elas outras ações que dependem do preço de commodities, como a Vale e siderúrgicas, que se enfraquecem sob um cenário pressionado para o minério de ferro e com a redução do apelo dessas teses. Juntas, essas ações representam quase um terço do Ibovespa.

De outro, os bancos poderiam tentar segurar as pontas, mas o comportamento também não é uniforme nesse bloco. Embora Itaú e BTG tenham operado no campo positivo, beneficiadas pelo alívio nos futuros de juros hoje, os outros papéis cederam.

Nenhum setor acaba passando ileso pela debandada dos estrangeiros do mercado de ações brasileiro, um movimento que já se estende por dois meses.

Comportamento das ações do Ibovespa em 24/6/2026

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