
‘Compre inflação de longo prazo’: a estratégia do Banco Inter para lucrar com a 'virada' na renda fixa
A recomendação da instituição se baseia na perspectiva de que as taxas não devem seguir nos níveis atuais nos próximos anos. Caso os juros realmente caiam, os títulos atrelados à inflação de longo prazo (IPCA+) surgem como a melhor opção na renda fixa atualmente
Depois de um período em que os juros bateram patamares historicamente elevados, o Banco Inter projeta o início de um novo ciclo macroeconômico, com o Copom sinalizando cortes na taxa Selic à frente. Segundo Rafael Winalda, estrategista do banco, esse tipo de virada é exatamente o momento em que as decisões de alocação em renda fixa ganham mais peso, exigindo atenção redobrada à movimentação da curva de juros.
A recomendação da instituição se baseia na perspectiva de que as taxas não devem seguir nos níveis atuais nos próximos anos. Caso os juros realmente caiam, os títulos atrelados à inflação de longo prazo (IPCA+) surgem como a melhor opção na renda fixa atualmente, diz Winalda.
Isso acontece porque os ganhos oferecidos recentemente pelos papéis de IPCA+ com vencimento entre cinco e dez anos atingiram patamares elevados raros. Enquanto a média histórica de remuneração real costuma girar próxima a 6%, as taxas praticadas no mercado chegaram a superar os 8%, um nível historicamente elevado e comparável ao visto na crise do subprime em 2008 e a crise de 2016 do governo de Dilma Rousseff.
Diante desse cenário, o investidor tem duas frentes para lucrar:
- Carregando o papel até o vencimento: garantindo o recebimento de uma remuneração real significativamente acima da média histórica, somada à variação da inflação;
- Marcação a mercado: lucrando com a valorização dos papéis, com o movimento de queda dos juros. À medida que os juros futuros caem (que é o preço que o mercado cobra para emprestar dinheiro), os títulos comprados hoje com taxas elevadas se valorizam, permitindo que o investidor venda o ativo antecipadamente com expressivo ganho de capital.
O peso do histórico
Para embasar a tese, o Inter analisou o potencial de retorno acumulado de diferentes classes de ativos. Em simulações baseadas nos últimos 25, 10 e 5 anos, um investimento com retorno de IPCA+ 8% teria superado com folga o Tesouro Selic, os títulos prefixados e o próprio Ibovespa. Na janela de 10 anos, por exemplo, o rendimento superaria os 200%, enquanto em 25, supera os 3.000%, considerando apenas a rentabilidade no vencimento (sem marcação a mercado).
E é aqui que entra o “plus”: segundo Winalda, a assimetria joga a favor de quem compra agora.
De acordo com o levantamento, se os juros caírem 2 pontos percentuais (saindo de IPCA+ 8% para IPCA+ 6% e juros semestrais), um título público com vencimento em 2051 pode entregar um retorno próximo de 62%. Por outro lado, em um cenário de estresse onde os juros sobem na mesma magnitude, a perda por marcação a mercado ficaria em cerca de 38%.
Para um papel intermediário, com vencimento em 2036, a mesma queda de 2 pontos percentuais geraria um retorno de 21,9%, enquanto uma alta de igual proporção resultaria em uma desvalorização de 18,1%. Veja as simulações:
"Para quem pode levar o papel até o vencimento, ou pelo menos esperar o ciclo de cortes se desenrolar, o título IPCA+ , de vencimento mais longo, continua sendo a aposta com melhor relação risco-retorno do menu de renda fixa hoje", destaca Winalda.
Se o investidor aportasse R$ 1 mil em um título IPCA+ 8 com juros semestrais, em 25 anos, o saldo total final seria de R$ 32,3 mil, enquanto no Ibovespa seria de R$ 12,6 mil e na Selic R$ 18 mil, quase 80% a menos. Já em cinco anos, na Selic o mesmo investimento viraria R$ 1,8 mil e, no IPCA, R$ 2,3 mil. Veja abaixo a simulação:
Aqui, vale lembrar que papéis mais longos, embora ofereçam um potencial de retorno maior na marcação à mercado, são mais sensíveis às oscilações diárias do mercado. Já para quem carrega o papel até o fim, a rentabilidade contratada permanece garantida. O cuidado é não vender em momentos de “susto” para não sair no prejuízo.
Mas e os CDBs híbridos?
Embora o cenário de queda de juros também beneficie os títulos de crédito privado que oferecem remuneração híbrida (inflação mais uma taxa prefixada), Winalda pondera que a análise nessa classe de ativos é "um pouco mais complexa". O estrategista explica que existem outras variáveis que precisam ser olhadas em CDBs como, por exemplo, a qualidade do banco emissor.
Bancos de grande porte e mais consolidados, por exemplo, costumam apresentar menor volatilidade na marcação a mercado, o que reduz o potencial de ganhos expressivos em uma eventual venda antecipada. Além disso, por embutir um risco maior do que os títulos públicos — que são ativos livres de risco —, o crédito privado deveria pagar um juro significativamente superior ao do Tesouro Nacional, e não é o que se vê hoje, segundo ele.
“A taxa média para o crédito bancário está em cerca de 8,7%, enquanto o Tesouro paga 8%. Esse spread [diferença de juros] deveria estar mais perto de 1%”, aponta o estrategista. “Se a taxa do governo cair, o rendimento do crédito bancário deveria recuar menos, mas se for um ‘bancão’, a volatilidade é menor”, diz Winalda.