
Inflação eleva ânimo com a bolsa e permite ao Ibovespa sonhar com a recuperação
Saldo do Dia: Com o índice a menos de 2% da região neutra nas análises técnicas, o mercado de ações beira dias melhores, mas deve enfrentar muitos obstáculos até lá
A prévia da inflação de junho criou uma brecha para o investidor de bolsa brasileira sonhar. Acompanhando o ânimo dos investidores globais com ações de setores tradicionais nesta quinta (25), o Ibovespa deu mais um passo rumo à recuperação.
Agora, falta só mais 1,7% para o índice alcançar os 174.900 pontos, o piso da região neutra no mercado de ações atualmente, segundo a análise técnica do Itaú BBA. Só que chegar lá pode não ser tão simples quanto parece.
- O Ibovespa encerrou o dia em alta de 0,87%, nos 171.990 pontos. Na semana, acumula alta de 2,17% e, com isso, reduziu as perdas acumuladas em junho até aqui a 1%. No ano, a valorização acumulada pela carteira está em 6,74%.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), conhecido como a prévia da inflação do Brasil, desacelerou em junho. O indicador, abaixo das projeções do mercado, ainda nem abrange o comportamento dos preços após a reabertura do Estreito de Ormuz e derretimento dos preços do petróleo.
Por isso mesmo, a preocupação com as pressões inflacionárias tende a ser suavizada. Pelo menos localmente. Pelo menos por ora. Foi o bastante para inflar as apostas em mais um corte na Selic na reunião do Copom em agosto.
- A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,13% para 14,09% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.
- No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,61% para 14,36% ao ano.
- Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,36% para 14,40% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo.
Para o estrangeiro, no entanto, o chamariz do mercado brasileiro não voltou a brilhar com força, então os fluxos no mercado de ações seguiram enfraquecidos.
- O giro financeiro do Ibovespa hoje ficou em R$ 15,7 bilhões, 17% abaixo da média diária nos últimos 12 meses, de R$ 18,4 bilhões.
O passo do Ibovespa em direção a um cenário técnico mais neutro importa. Neste momento em tendência de baixa a curto e médio prazo, o índice dependeria de uma virada de cenário relevante que, no que depende das sinalizações macro externas e domésticas, está longe de acontecer.
Então alcançar os 174.900 pontos, mesmo que sem tanto fôlego, pode ser o bastante para a carteira teórica entrar em uma região técnica em que as forças compradora e vendedora se equilibram no mercado de ações.
Justamente pelo momento incerto para os fundamentos, no entanto, a recuperação do Ibovespa, mesmo acima dos 175 mil pontos, tende a ser trôpega.
A principal razão para isso é o quadro nos Estados Unidos. O indicador favorito do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) para acompanhar o comportamento dos preços lá fora reforçou a visão da autoridade monetária de uma inflação descontrolada.
Nesse ambiente, não há mais dúvidas de que os juros americanos vão subir, mas sobram questões sobre qual será a magnitude dos apertos. A aposta majoritária em Wall Street, que no começo do mês esperava só uma alta até o fim do ano, já aponta para três elevações nas taxas dos Fed até dezembro.
Assim, os investidores estão deixando as carteiras de risco mais leves. Há espaço principalmente para correções nos exageros recentes em ações de tecnologia - especialmente as ligadas à inteligência artificial - e alguma migração do capital para papéis ligados a setores mais resilientes, especialmente grandes bancos e commodities.
É um movimento marginal diante do que vem acontecendo globalmente: a concentração dos recursos nos títulos do Tesouro americano (as Treasuries).
A concomitante reabertura de Ormuz nesse período escancarou ao mercado um problema mais duradouro: a inflação americana já sobe independentemente do choque de energia. Tarifaços, emprego aquecido, setor de serviço resistente - apenas o barril de petróleo mais barato não resolve esse quadro.
Quando as projeções indicam que os juros do maior mercado do mundo vão subir, seus títulos de renda fixa passam a pagar mais. E os eventos desta semana religaram o aspirador de recursos globais que é a renda fixa americana.
Uma paz perturbada
Não bastando os obstáculos já fixados pelo panorama global, o risco geopolítico não foi totalmente dissipado. A imprensa internacional reportou que um navio de carga foi vítima de um ataque ao tentar atravessar o Estreito de Ormuz próximo à costa de Omã hoje.
Com isso, Estados Unidos e Irã voltaram a trocar ameaças e consolidaram um quadro temido pelos investidores: a retirada do prêmio da guerra não é permanente e pode voltar parcialmente aos preços conforme essas relações estremecem.
- Sob um petróleo mais forte, o dólar à vista cedeu 0,5%, a R$ 5,18 no fechamento. Na semana, sobe 0,23% e, no mês, acumula alta de 2,7% contra o real. No ano, o quadro se inverte: o dólar recua 5,67% no mercado de câmbio local.
Embora o capital esteja saindo de títulos soberanos de outros mercados, de commodities e até em parte das ações ligadas à inteligência artificial para capturar o rendimento das Treasuries, um fluxo marginal tentou surfar o repique do petróleo nesta sessão.
Nessa reconfiguração dos fatores na equação do mercado, o petróleo acaba tendo um efeito colateral na bolsa brasileira. Embora o barateamento da commodity nas últimas semanas ainda alimente as perspectivas de redução de custos do frete, o que alivia a inflação por aqui, a forte queda dos preços tende a desequilibrar a balança comercial.
O Brasil é exportador de petróleo, então quando o barril fica muito mais barato, a tendência é entrarem menos dólares no país pela via comercial, o que pressiona ainda mais o câmbio.
O resultado aparece na carteira teórica.
- Das 78 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 54 desvalorizaram hoje.
De um lado, Petrobras e pares despencaram junto com o petróleo. Juntaram-se a elas outras ações que dependem do preço de commodities, como a Vale e siderúrgicas, que se enfraquecem sob um cenário pressionado para o minério de ferro e com a redução do apelo dessas teses. Juntas, essas ações representam quase um terço do Ibovespa.
De outro, os bancos poderiam tentar segurar as pontas, mas o comportamento também não é uniforme nesse bloco. Embora Itaú e BTG tenham operado no campo positivo, beneficiadas pelo alívio nos futuros de juros hoje, os outros papéis cederam.
Nenhum setor acaba passando ileso pela debandada dos estrangeiros do mercado de ações brasileiro, um movimento que já se estende por dois meses.
Comportamento das ações do Ibovespa em 25/6/2026