
Pequenos hoje, gigantes amanhã: a lição dos fundos imobiliários para os ETFs
Quase toda grande transformação do mercado financeiro começa da mesma forma: pequena demais para chamar atenção, cercada de descrença e acompanhada de grandes dúvidas
Atualizado
Quase toda grande transformação do mercado financeiro começa da mesma forma: pequena demais para chamar atenção, cercada de descrença e acompanhada de grandes dúvidas.
Anos depois, quando esses mercados já movimentam bilhões e fazem parte da vida de milhões de investidores, quase parece que sempre estiveram ali.
Foi assim com os fundos imobiliários no Brasil.
E talvez estejamos assistindo novamente ao nascimento de um desses ciclos.
Lembro das discussões quando surgiu o primeiro fundo imobiliário no país. Existiam dúvidas legítimas: haveria liquidez? O investidor brasileiro entenderia esse produto? Bancos e corretoras estariam dispostos a ofertá-lo na ponta? O mercado imobiliário caberia dentro da Bolsa?
Na época, parecia algo experimental. Hoje, os FIIs ultrapassam 3 milhões de investidores e mais de R$ 200 bilhões em patrimônio. Viraram uma das principais portas de entrada do brasileiro para o mercado de capitais.
E vale uma reflexão interessante.
Ainda bem que, lá atrás, não concluímos que seria mais simples direcionar os investidores brasileiros apenas para veículos imobiliários já existentes em outros mercados. Talvez tivéssemos dado acesso ao produto. Mas dificilmente teríamos construído uma indústria nacional com milhões de investidores, centenas de bilhões de patrimônio e um ecossistema completo de gestores, distribuidores, analistas, prestadores de serviços e uma estrutura regulatória e tributária que ajudou a transformar uma ideia promissora em uma das histórias de maior sucesso do mercado de capitais brasileiro.
O sucesso dos fundos imobiliários mostra que desenvolver mercados locais não é apenas uma questão de oferecer produtos. É uma questão de construir capacidade econômica, financeira e institucional dentro do próprio país.
Talvez estejamos vivendo novamente um desses momentos.
A indústria de fundos no Brasil já ultrapassa R$ 10 trilhões em patrimônio. Os BDRs — tema para futuras colunas — cresceram quase oito vezes em número de investidores nos últimos cinco anos. E os ETFs talvez sejam hoje um dos sinais mais claros dessa nova transformação.
O mercado brasileiro de ETFs praticamente dobrou de tamanho recentemente. O patrimônio da indústria já supera R$ 100 bilhões e o número de investidores se aproxima de 1 milhão de pessoas.
Mas a principal mudança talvez não esteja apenas nos números.
Ela está na direção para onde o mercado está caminhando.
Nos Estados Unidos, os ETFs deixaram de ser apenas instrumentos passivos. Viraram uma infraestrutura completa de construção de portfólio, reunindo estratégias de renda, gestão ativa, fatores quantitativos e exposições globais. Hoje, a indústria americana já ultrapassa US$ 13 trilhões em patrimônio.
ETF não foi apenas um novo produto. Foi uma nova interface para acessar o mercado.
E é aqui que uma teoria clássica da inovação ajuda a explicar o momento atual.
No livro Crossing the Chasm, Geoffrey Moore mostra como grandes transformações atravessam um “abismo” entre os primeiros entusiastas e a adoção em massa. No início, quase toda inovação parece pequena para importar. Depois, quase de repente, ela ganha escala.
Foi assim com a internet. Com os smartphones. E, em muitos aspectos, também foi assim com os Fundos Imobiliários no Brasil.
O investidor brasileiro naturalmente quer acessar o mundo — e isso é inexorável. Mercados fortes são mercados conectados globalmente.
Mas a história dos fundos imobiliários mostra que existe algo igualmente importante: a capacidade de construir mercados.
Construir infraestrutura. Desenvolver produtos. Formar investidores. Criar conhecimento. Desenvolver uma indústria inteira ao redor de uma inovação.
Há vinte ou trinta anos, poucos imaginavam que os fundos imobiliários se tornariam uma indústria com milhões de investidores e centenas de bilhões de reais em patrimônio. Talvez estejamos vivendo um momento parecido agora.
Os ETFs ainda representam uma pequena fração da indústria brasileira de investimentos.
Mas os fundos imobiliários também representaram um dia.
E talvez essa seja a principal lição dos grandes ciclos de transformação: eles quase sempre parecem pequenos quando começam.
Talvez, como bom mineiro, eu tenha uma sensibilidade especial para histórias sobre riqueza. Afinal, a história do Brasil conhece bem a diferença entre exportar valor e construir indústrias locais capazes de perpetuá-lo.
Talvez daqui a dez anos olhemos para os ETFs da mesma forma que hoje olhamos para os primeiros Fundos Imobiliários. Não como mais um produto financeiro.
Mas como mais uma das transformações que ajudaram a redefinir a forma como os brasileiros investem.
Felipe Paiva diretor de Relacionamento com Clientes e Pessoa Física da B3