
PF faz buscas contra acionistas e ex-executivos da Americanas por fraude
Ao todo, são cumpridos nove mandados de buscas, incluindo buscas pessoais nos municípios do Rio de Janeiro e São Paulo
Por Valor — São Paulo
Atualizado
A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta quinta-feira (25), a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga fraudes contábeis e manipulação de mercado envolvendo a Americanas. Um dos alvos seria o empresário Carlos Alberto Sicupira, um dos acionistas de referência da varejista, além de ex-conselheiros e executivos de bancos.
Ao todo, são cumpridos nove mandados de buscas, incluindo buscas pessoais nos municípios do Rio de Janeiro e São Paulo. A operação foi autorizada pela Justiça Federal no Rio, que determinou o bloqueio de até R$ 54 bilhões dos investigados.
O Valor apurou que os alvos são: Carlos Alberto Sicupira (um dos acionistas de referência da Americanas); Eduardo Saggioro (ex-presidente do conselho da Americanas); Paulo Alberto Lemann (ex-integrante do conselho e filho do controlador Jorge Paulo Lemann); José Rudge (Itaú); Gustavo Balassiano (ex-Itaú); Carlos Henrique Villela Pedras (Bradesco); André Almeida (Santander) e Alexandre Abdo (Santander).
Segundo as investigações, os suspeitos teriam conhecimento de supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) supostamente contabilizados sem lastro econômico.
As apurações apontam indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e de associação criminosa.
As fraudes na Americanas vieram à tona em 11 de janeiro de 2023, quando Sérgio Rial, que havia assumido a presidência da varejista no início daquele ano, informou ao mercado a descoberta de “inconsistências contábeis” da ordem de R$ 20 bilhões na empresa. O executivo renunciou ao cargo naquele momento, assim como André Covre, que havia acabado de assumir a diretoria financeira.
Os dois eram os principais nomes de uma nova gestão que estava assumindo a Americanas, que havia sido comandada nas duas décadas anteriores por Miguel Gutierrez, executivo extremamente discreto.
À medida que as investigações da própria empresa e policiais avançaram, a PF passou a ver indícios de uma organização criminosa encabeçada por Gutierrez e que teria envolvido em torno de 60 pessoas na manipulação dos resultados da varejista em cerca de R$ 25 bilhões.
Segundo as apurações policiais, o esquema funcionava da seguinte maneira: a Americanas ocultou de suas demonstrações financeiras mais de R$ 20 bilhões em operações de risco sacado, uma modalidade de financiamento de fornecedores e, para isso, falsificou contratos de verbas de propaganda cooperada (VPC) - espécie de bonificação cobrada por empresas varejistas para promover os produtos de seus fornecedores.
Com essa combinação, a Americanas divulgava ao mercado resultados e indicadores de alavancagem bem melhores que os verdadeiros.
No fim de março de 2025, o Ministério Público Federal ofereceu denúncia de 13 executivos - Gutierrez e outros ex-integrantes da diretoria da Americanas, como Anna Saicali, José Timotheo de Barros e Márcio Cruz, que formavam o núcleo duro da administração da varejista.
A operação deflagrada nesta quinta-feira avança em direção aos bancos provedores de risco sacado para a Americanas. Há, no material colhido nos últimos anos, uma série de trocas de e-mails e mensagens com executivos dos bancos nas quais a diretoria da Americanas tentava convencê-los a não reportar o risco sacado como dívida nas cartas de circularização enviadas às firmas de auditoria.
A nova fase também coloca como alvos Sicupira e conselheiros de administração na época em que os fatos ocorreram - em uma tentativa de apurar se eles estavam a par das manipulações, coisa que sempre negaram.
Todos foram procurados.
Por meio de nota, o Bradesco disse que “acompanha e está à disposição das autoridades”.
O Itaú disse que não é investigado, mas colabora com as autoridades desde o início do caso. Leia a seguir a íntegra da nota divulgada pelo banco:
“Em relação à operação realizada hoje, o Itaú Unibanco, embora não seja investigado, esclarece que colabora ativamente com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações sobre o caso Americanas. As investigações oficiais já demonstraram que a varejista foi palco de uma das maiores fraudes corporativas do país.
“O banco, que sofreu perdas bilionárias com o episódio, já comprovou a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários por meio de documentos apresentados à Justiça. Os registros deixam claro, por exemplo, que o Itaú recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços.
“A instituição reitera que sempre atuou com rigor ético e regulatório, apoiando e confiando no trabalho das autoridades para a elucidação definitiva das irregularidades praticadas pela antiga administração da varejista”.
O Santander afirmou que “está ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes envolvendo a Americanas e segue colaborando com as autoridades competentes, como tem feito desde o início das apurações. A instituição reitera seu compromisso com a ética, a transparência e o estrito cumprimento da regulamentação em suas operações”.
A Americanas disse, também por meio de nota, que “seguirá colaborando com as investigações e é a maior interessada no esclarecimento dos fatos”.
Os acionistas de referência também divulgaram posicionamento:
“Os acionistas de referência foram surpreendidos pela operação deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta quarta-feira, 25 (Disclousure).
“As investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal ao longo dos últimos anos, inclusive com base em acordos de colaboração premiada, indicam que o Conselho de Administração e os acionistas de referência foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria da Companhia.
“Os acionistas de referência entendem que a operação integra o curso regular das apurações em andamento e reiteram seu compromisso de colaborar plenamente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos, como vêm fazendo desde 11 de janeiro de 2023, quando tiveram conhecimento das fraudes contábeis.
“Até o momento, as defesas não tiveram acesso à íntegra da decisão judicial que fundamentou a medida, razão pela qual aguardam mais informações para eventual manifestação complementar”.
Este conteúdo foi publicado originalmente no Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor Econômico.