
O 'efeito academia' nas suas finanças pessoais
Mudar a sua saúde financeira não exige que você vire um operador da bolsa de valores ou um matemático genial. Exige constância e educação
Atualizado
Olá, pessoal! No topo da lista de dez em cada dez brasileiros, duas metas costumam reinar absolutas de tempos em tempos: "entrar na academia para perder aqueles quilinhos" e "organizar a vida financeira para finalmente começar a investir". Após iniciar com aquele gás total, é comum que com o passar do tempo, o ritmo diminua, a planilha fique esquecida em um folder qualquer e a matrícula da academia vire apenas uma doação mensal para o estabelecimento.
Por que é tão difícil manter a disciplina com o nosso dinheiro?
Como professor já de milhares de alunos e estudioso de finanças há décadas, cansei de ver pessoas procurando uma "fórmula mágica" ou o "investimento do século" para mudar de vida financeira. A verdade nua e crua que, aliás, a teoria das finanças comportamentais explica muito bem é que a nossa relação com o dinheiro tem muito mais a ver com psicologia e hábitos do que com matemática. É o que eu gosto de chamar de "O Efeito Academia".
O perigo de querer virar 'atleta' do dia para a noite
Imagine alguém que nunca correu na vida. Se essa pessoa decidir, de uma hora para a outra, correr uma maratona de 42 km amanhã, o resultado será provavelmente uma lesão e uma desistência frustrada. Nas finanças, o erro é exatamente o mesmo.
O sujeito passa anos gastando tudo o que ganha (e um pouco mais). De repente, após ler um artigo ou assistir a um vídeo, decide cortar o cafezinho, cancelar o streaming, parar de sair com os amigos e guardar 30% do salário. Sabe quanto tempo essa dieta financeira costuma durar? Três semanas.
O cérebro humano odeia a sensação de privação extrema. Quando você se impõe um regime financeiro insustentável, a sua mente acumula um "estresse de escassez". Mais cedo ou mais tarde, você terá um momento de fraqueza mental e gastará o triplo, chutando o balde com a famosa justificativa: "Eu trabalho tanto, logo eu mereço".
Construindo 'músculos financeiros' aos poucos
A boa educação financeira não serve para te transformar em um monge que não consome nada. Ela serve para te ensinar a fazer escolhas conscientes. Se na academia você começa levantando os halteres mais leves para fortalecer os músculos, nas finanças você precisa começar criando o hábito de poupar, independentemente do valor.
Se você não consegue guardar R$ 500 por mês hoje, comece guardando R$ 200 ou mesmo R$ 100 a depender da sua realidade socioeconômica. O objetivo inicial não é o montante acumulado no final do ano, mas sim o processo cerebral de entender que aquilo que você ganha precisa superar o montante que você gasta. A ideia é que você condicione o seu cérebro a "se pagar primeiro" assim que o salário cai na conta, e não esperar para ver se sobra algo no dia 30. Spoiler: nesse último caso, nunca sobra.
Uma vez consolidado o hábito de separar uma quantia todos os meses, o passo seguinte fica muito mais fluido. É aí que entra a matemática financeira: garanto a você, não morde. Com o hábito formado, você começa a entender o poder dos juros compostos. Eles são os "treinos de alta intensidade" do seu dinheiro: no começo parece que não mudam nada, mas no longo prazo o efeito acumulado é avassalador e, costumo dizer, maravilhoso.
O foco está na constância, não na velocidade
Se você encontrar alguém na academia que ficou forte em poucas semanas de treino, desconfie (provavelmente há algo perigoso e nada saudável ali). No mercado financeiro é a mesma coisa. Se alguém lhe prometer enriquecimento rápido, retornos estratosféricos e sem risco, fuja. Nas finanças clássicas, risco e retorno andam sempre de mãos dadas.
Mudar a sua saúde financeira não exige que você vire um operador da bolsa de valores ou um matemático genial. Exige constância e educação (financeira!). Exige entender que pequenos ajustes na rota de hoje criam destinos completamente diferentes daqui a dez ou vinte anos.
Portanto, o meu convite para você hoje é simples: escolha um pequeno "peso" para levantar este mês. Descubra um ralo por onde seu dinheiro está escapando sem que você perceba e comece a poupar um pouquinho que seja. Procure aumentar aos poucos até atingir uma fração adequada da sua renda. Quando você menos esperar, olhará para trás e perceberá que construiu uma carteira de investimentos robusta e saudável.
Bons treinos e ótimos investimentos!
* Carlos Heitor Campani é PhD em Finanças, CNPI, Diretor Acadêmico da iluminus – Academia de Finanças, Sócio da CHC Finance e da Four Capital, além de Pesquisador da ENS – Escola de Negócios e Seguros.