
Tesouro Prefixado ou IPCA+? Especialistas apontam qual é a melhor aposta na renda fixa
Com títulos prefixados perto de 15% ao ano e papéis IPCA+ pagando mais de 8% acima da inflação, analistas explicam quando cada estratégia faz mais sentido e onde enxergam as melhores oportunidades
A renda fixa segue como “a menina dos olhos" dos investidores brasileiros em um ambiente de juros elevados. Agora, com títulos prefixados pagando perto de 15% ao ano e papéis atrelados à inflação oferecendo mais de 8% acima do IPCA, o desafio passou a ser escolher qual estratégia faz mais sentido no cenário atual.
Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Valor Investe, os títulos indexados à inflação saem na frente nessa disputa. Além de oferecerem uma remuneração real considerada bastante atrativa para padrões históricos, esses papéis funcionam como uma proteção adicional caso a inflação permaneça elevada ou volte a surpreender nos próximos anos.
Para João Abdouni, analista de renda fixa da EQI Research, esse conjunto de fatores favorece os papéis atrelados ao IPCA. "Com a inflação ainda acima do teto da meta e as expectativas permanecendo cercadas de incerteza, enxergamos mais valor nos títulos IPCA+", afirma.
Segundo ele, os juros reais (o retorno acima da inflação) disponíveis atualmente no Tesouro Direto estão entre os mais altos observados nos últimos anos, tornando esses títulos especialmente atrativos para estratégias de médio e longo prazo.
A preferência pelos títulos atrelados à inflação não se restringe à EQI Research. Gabriel Nakaya, analista da Nord Investimentos, também considera que os papéis indexados ao IPCA oferecem uma combinação mais favorável entre proteção e retorno no cenário atual.
Na visão dele, as incertezas sobre a trajetória da inflação e dos juros aumentam a importância da proteção oferecida por esses títulos.
Por que o IPCA+ tem ganhado preferência
A diferença entre os dois títulos ajuda a explicar por que os especialistas têm demonstrado maior preferência pelos papéis atrelados à inflação.
Em geral, enquanto o Tesouro Prefixado permite ao investidor travar uma taxa conhecida no momento da aplicação, o Tesouro IPCA+ combina uma remuneração fixa com a variação da inflação oficial do país.
Na prática, quem compra um título prefixado sabe exatamente qual será seu retorno se mantiver o papel até o vencimento. Um papel que paga 15% ao ano, por exemplo, entrega essa rentabilidade independente do comportamento da inflação ao longo do período.
No caso do IPCA+, o investidor recebe a inflação acumulada mais uma taxa adicional previamente definida. Um título que paga IPCA + 8%, por exemplo, garante a reposição da inflação do período e ainda um ganho real de 8% ao ano.
Essa diferença faz com que cada papel se destaque em cenários diferentes. Os títulos prefixados costumam se beneficiar quando a inflação fica sob controle e os juros começam a cair.
Nesses momentos, além da rentabilidade contratada, o investidor pode ganhar com a valorização do título antes do vencimento, já que os papéis antigos passam a oferecer taxas mais atrativas do que as disponíveis no mercado.
"Se a inflação permanecer abaixo do que está implícito nas taxas atuais de mercado, os prefixados podem entregar um resultado superior ao dos títulos indexados à inflação", afirma Abdouni.
Nakaya acrescenta que esses papéis tendem a responder melhor quando o mercado passa a enxergar um ciclo mais consistente de cortes de juros, cenário que favorece a valorização dos títulos já emitidos.
Por enquanto, porém, esse não parece ser o cenário predominante nas avaliações dos especialistas. As expectativas para a inflação seguem acima da meta perseguida pelo Banco Central, enquanto as incertezas em torno da trajetória das contas públicas continuam pressionando os juros de longo prazo.
Nesse ambiente, defendem os especialistas, a proteção oferecida pelos títulos indexados ao IPCA ganha importância.
Nas últimas semanas, as taxas dos títulos públicos atingiram patamares poucas vezes vistos nos últimos anos. Alguns prefixados chegaram a oferecer retornos próximos de 15% ao ano, enquanto títulos IPCA+ passaram a pagar mais de 8% acima da inflação.
Segundo os analistas, a alta das taxas reflete uma combinação de preocupações com o cenário fiscal, piora nas expectativas de inflação e a percepção de que os juros devem permanecer em patamar elevado por mais tempo.
O que considerar antes de investir?
A preferência dos especialistas pelos títulos indexados à inflação não significa que o investidor deva abandonar aplicações pós-fixadas.
O Tesouro Selic, cuja rentabilidade acompanha a taxa básica de juros, continua desempenhando papel importante nas carteiras, especialmente para reserva de emergência e objetivos de curto prazo.
Além disso, a própria Selic, atualmente em 14,25% ao ano, continua em um dos níveis mais altos dos últimos anos. Isso significa que, com poucas apostas em um ciclo agressivo de cortes de juros no curto prazo, os títulos pós-fixados continuam oferecendo uma combinação atrativa de rentabilidade e menor volatilidade.
"Acreditamos que uma estratégia diversificada entre pós-fixados, prefixados e títulos indexados à inflação continua sendo a alternativa mais equilibrada para a maior parte dos investidores", afirma Abdouni, da EQI.
Mas as taxas elevadas não representam apenas uma oportunidade. Elas também vieram acompanhadas de maior volatilidade nos títulos de prazo mais longo.
Tanto os prefixados quanto os papéis atrelados ao IPCA estão sujeitos à chamada “marcação a mercado", mecanismo que faz os preços dos títulos variarem diariamente conforme mudam as expectativas para juros e inflação.
Foi exatamente esse movimento que ganhou força nas últimas semanas. À medida que os investidores passaram a exigir remunerações maiores para emprestar dinheiro ao governo, as taxas dos títulos subiram e seus preços recuaram.
Ou seja, quem já possuía esses papéis na carteira viu o valor das aplicações cair, mesmo sendo títulos públicos. O efeito é ainda mais intenso nos vencimentos mais longos. Quanto maior o prazo do título, maior tende a ser a sensibilidade às oscilações dos juros e, consequentemente, à marcação a mercado.
Por essa razão, os especialistas ouvidos pelo Valor Investe recomendam esses títulos principalmente para investidores que possam manter a aplicação até o vencimento ou que estejam preparados para enfrentar oscilações ao longo do caminho.
Se a volatilidade exige cautela no curto prazo, os especialistas avaliam que o cenário atual também abriu uma oportunidade rara para investidores com horizonte mais longo.
Taxas superiores a IPCA mais 7,5% ou 8% ao ano estão entre as mais altas observadas nos últimos anos e permitem travar um ganho real interessante.
"Considerando a relação entre risco e retorno dos títulos públicos, travar uma taxa real acima de 7,5% ao ano pode ser uma excelente alternativa para quem investe visando aposentadoria ou acumulação patrimonial de longo prazo", afirma Abdouni.
Nakaya compartilha da avaliação de que os níveis atuais de remuneração são atrativos, mas faz uma ressalva. Segundo ele, a estratégia exige disciplina e funciona melhor para quem pretende carregar o título até o vencimento, sem depender desse dinheiro antes do prazo final.
De todo modo, a escolha entre Tesouro Selic, Prefixado ou IPCA+ depende principalmente dos objetivos de cada investidor.
Enquanto o Tesouro Selic continua sendo a principal alternativa para liquidez e proteção de curto prazo, os prefixados podem se beneficiar de um cenário de inflação mais controlada e queda dos juros.
Já os títulos indexados ao IPCA aparecem hoje como a opção preferida dos especialistas para quem busca proteção contra a inflação e tem horizonte de investimento maior.