
Muito além dos 90 minutos: os desafios jurídicos e patrimoniais dos jogadores de futebol
A carreira de um jogador tem características que tornam indispensável uma abordagem estruturada de planejamento patrimonial e jurídico desde muito cedo
Atualizado
Em tempos de Copa do Mundo, o entusiasmo do brasileiro vai muito além de assistir aos jogos e torcer por gols. Cresce também o interesse pela vida pessoal dos jogadores: contratos milionários, relacionamentos mais expostos e carreiras meteóricas. Mas o que raramente aparece nas manchetes de quem cobre o assunto é que, para muitos atletas, administrar a riqueza pode ser tão desafiador quanto chegar ao topo do esporte.
A carreira de um jogador tem características que tornam indispensável uma abordagem estruturada de planejamento patrimonial e jurídico desde muito cedo.
Um dos primeiros pontos de atenção está nas relações afetivas. A exposição midiática transforma namoros em relações públicas, frequentemente acompanhadas pela vigilância social. Em alguns casos, esses relacionamentos podem ser juridicamente interpretados como união estável, caracterizada por convivência pública, contínua e com intenção de constituir família. Enquanto a publicidade é praticamente inevitável no caso de atletas, a duração e o propósito da relação acabam sendo analisados caso a caso. Declarações públicas, exposição conjunta e até apoio financeiro – que são comuns nesse universo – podem ser considerados nessa avaliação.
É nesse contexto que instrumentos como contratos de namoro ou o reconhecimento formal da união estável, com definição do regime de bens, ganham relevância. Esses mecanismos não visam enfraquecer o vínculo afetivo, mas sim trazer segurança jurídica para ambas as partes. A ausência de formalização pode gerar litígios complexos e patrimonialmente relevantes no futuro, e, nesse campo, o silêncio raramente é uma estratégia prudente.
Outro eixo central é o planejamento financeiro. Diferentemente da maioria dos profissionais, que costumam atingir o auge da renda em fases mais maduras, os jogadores concentram os ganhos ainda na adolescência ou no início da vida adulta. Um estudo do UBS que ouviu artistas e atletas de elite trata justamente desse paradoxo: pessoas que alcançam seu pico de renda muito jovens e que, ao mesmo tempo, precisam tomar decisões patrimoniais complexas justamente na fase em que a maioria ainda está construindo experiência profissional e financeira. Soma-se a isso o fato de que a carreira esportiva pode ser abruptamente interrompida por lesões ou perda de desempenho físico, por exemplo. Não por acaso, em muitas modalidades, a duração média da carreira é inferior a cinco anos.
Nesse sentido, algumas perguntas são essenciais: quanto acumular ao longo dos anos de atividade? Qual padrão de vida se pretende manter após a aposentadoria? Quanto se pode gastar? Como investir? Qual nível de risco é aceitável? Fora isso, a contratação de seguros específicos, especialmente aqueles que cobrem incapacidade física, pode ser determinante para proteger a principal fonte de renda dos atletas: o corpo.
À medida que a carreira evolui, surgem novas camadas de complexidade. Convites para atuar no exterior são comuns e representam, muitas vezes, momentos decisivos. Nessa fase, a assessoria jurídica qualificada no país de destino é fundamental. O contrato esportivo internacional exige leitura atenta de direitos, deveres e obrigações.
Além do aspecto contratual, é preciso compreender como o novo país tributa rendimentos, patrimônio e investimentos, e avaliar estruturas legais que possam otimizar a carga tributária dentro dos limites da legislação. Não à toa, casos de jogadores que enfrentaram problemas fiscais ilustram o custo de uma gestão inadequada.
As questões de direito de família também não desaparecem. Regimes de bens, acordos pré ou pós-nupciais e o reconhecimento de relações afetivas passam a ser regidos por legislações diferentes. Entender as normas do novo país é indispensável para evitar surpresas jurídicas.
Por fim, em um estágio mais avançado da carreira, muitos jogadores optam por investir em projetos sociais, geralmente vinculados às comunidades onde cresceram. Aqui, novamente, a assessoria especializada faz diferença: escolher a estrutura jurídica adequada, obter certificações e viabilizar benefícios fiscais são etapas essenciais para garantir a sustentabilidade dessas iniciativas.
Olhando para o desempenho em campo, é fácil esquecer que esses jovens atletas lidam, fora dele, com decisões complexas que impactarão a sua vida e a das suas famílias. O sucesso no futebol não depende apenas de talento e disciplina esportiva, mas também de planejamento, governança e proteção patrimonial. Em um cenário de alta exposição e rápida acumulação de riqueza, o apoio técnico adequado deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade.
Yuri Freitas é chefe de Wealth Planning no Brasil da UBS Global, assessorando famílias de alto e altíssimo patrimônio