Com ganho de 40% no ano, bolsa do Japão deixa os mercados globais para trás no semestre

Com ganho de 40% no ano, bolsa do Japão deixa os mercados globais para trás no semestre

Com ganho de 40% no ano, bolsa do Japão deixa os mercados globais para trás no semestre

Impulsionada pelo hardware de IA e pela fraqueza do iene, a bolsa de Tóquio foi o investimento mais rentável da primeira metade do ano, enquanto a mudança nas perspectivas para os juros americanos colocou o bitcoin e o ouro na lanterna

O primeiro semestre de 2026 operou em ritmos bem distintos nos mercados globais, mas terminou com um vencedor incontestável no topo do ranking. Embalado pelo rali da Inteligência Artificial (IA), o Nikkei-225, principal índice da bolsa do Japão, subiu 4,7% em junho e defendeu um retorno de 39% no acumulado do ano, figurando de longe a aplicação mais rentável da primeira metade do ano.

O mapa da IA e o "fio condutor" global

Como explica Christopher Galvão, analista da Nord Investimentos, o que vem ditando as regras do mercado financeiro global em 2026 não é o desempenho macroeconômico de um país isolado, mas sim o seu grau de exposição à IA.

"O grande destaque do ano é o setor de tecnologia mais ligado à inteligência artificial. Consequentemente, as bolsas que têm uma maior representatividade dessas empresas estão brilhando, como Coreia do Sul, Taiwan e o próprio Japão", pontua Galvão.

Essa composição foi o grande trunfo de Tóquio frente a Nova York.

Enquanto o Nasdaq 100 recuou 1,84% em junho, o Nikkei subiu mais de 5%. Segundo o analista da Nord, isso acontece porque as bolsas asiáticas são muito mais concentradas em empresas de hardware de IA (chips e semicondutores), justamente o segmento que continua entregando resultados operacionais explosivos.

"Na bolsa americana, embora haja forte presença de hardware, também há uma grande fatia de software, que vem sofrendo uma correção importante neste ano em meio ao crescimento de IA. Empresas como a Microsoft ilustram esse cenário. Essa correção em software puxa os índices de Nova York, mas não afeta o Japão", explica.

No entanto, o espetáculo a parte do Nikkei esconde algumas nuances importantes. Ricardo Simon, co-fundador e diretor do family office Eclipseon, joga uma luz de cautela sobre a composição deste rali.

"O Nikkei responde a uma dinâmica própria. A alta veio concentrada em poucas empresas. Cinco companhias responderam por cerca de 50% da valorização e dez por quase 80%, com destaque para semicondutores e conectividade ligada à inteligência artificial”.

Foi um movimento parecido com o que se viu antes na Coreia do Sul, e parte do fluxo que no começo do ano estava em Coreia e Taiwan migrou para o Japão.

“Vale a ressalva de que a alta do índice esconde fragilidade, já que mais de 40% das ações caíram no mês", afirma Simon. Além do fator tech, ele lembra que o setor de turismo japonês se beneficiou fortemente do iene mais barato em quase 40 anos.

O dólar e o poço dos ativos sem renda

Se as ações de tecnologia de hardware nadaram de braçada, o resto do mercado financeiro global teve de lidar com o peso de um dólar cada vez mais forte.

O dólar avançou 2,6% em junho, alimentado tanto pelos balanços robustos das empresas de tecnologia quanto por uma profunda mudança de percepção vinda do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

"Existe um fio condutor para boa parte desse movimento, e ele está na reprecificação da política monetária americana", analisa Simon. "Depois da estreia de Kevin Warsh no comando do Fed, o mercado passou a projetar altas de juros nos EUA, e não mais cortes”, lembra.

Juro alto fortalece o dólar, que vem se valorizando frente aos pares a ponto de bancos americanos já projetarem paridade com o euro perto de 1,10.

“Esse mesmo juro alto castiga tudo o que depende de juros baixos e de liquidez, e é por isso que ouro e bitcoin ficaram entre os piores desempenhos", explica o especialista.

Galvão, da Nord, concorda que o debate de juros "mais altos e por mais tempo" nos EUA funciona como um grande aspirador de liquidez global, jogando contra o ouro (que sofre com o custo de oportunidade de títulos que rendem perto de 4% ao ano sem risco em dólar) e contra as criptomoedas.

Onde monitorar no segundo semestre

Com as cartas do primeiro semestre na mesa, o mercado passa a monitorar os pontos de virada para a segunda metade do ano. Simon destaca duas variáveis geopolíticas e macro para o cenário global.

"A primeira é a continuidade da paz entre Irã e Estados Unidos. A segunda é o rumo da política monetária americana nos próximos meses. Qualquer sinalização de que a política monetária possa voltar a um ciclo de cortes tende a ser muito bem recebida pelo mercado."

Se a inflação surpreender para baixo e a conversa de corte voltar, os ativos que foram punidos, como ouro e bitcoin, são os que guardam maior espaço para reação rápida.

Por outro lado, o investimento em tecnologia exige atenção redobrada quanto aos preços de tela. Galvão conclui que o segredo dos próximos meses estará na divulgação dos balanços.

"Há companhias que subiram mais de 100% neste ano e ainda negociam a múltiplos teoricamente baratos de preço sobre lucro projetado. A grande questão é: as projeções de lucro feitas pelo mercado estão corretas? Se não estiverem, essas ações não estão tão baratas quanto parecem".

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