Dez anos de SDG Pioneer

Dez anos de SDG Pioneer

Dez anos de SDG Pioneer

Integrar a turma inaugural de Pioneiros para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, sendo a primeira mulher brasileira, mais do que uma honraria, é parte do meu propósito de vida

O ano era 2016. Estávamos nos familiarizando com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), lançados pela ONU em 2015, quando surgiu a chamada do Pacto Global para os SDG Pioneers, programa que iria reconhecer globalmente pessoas que se destacavam no trabalho pelo avanço dessa agenda (SDGs = Sustainable Development Goals, sigla em inglês para ODS).

O anúncio trazia a seguinte convocação: “Você é um pioneiro dos ODS? Estamos em busca de líderes empresariais que estejam impulsionando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”. Naquele ano, eu era Diretora da Bolsa e tinha entre minhas responsabilidades a área de sustentabilidade, que estruturei em 2009.

Ao tomar conhecimento da iniciativa, uma de minhas funcionárias, a talentosa e inspiradora Luiza Junqueira, me disse: “Você tem que se inscrever, So”. Entre animada e receosa, relutei.

Preferia esperar o próximo ciclo para conhecer os vencedores e seus cases. “Estaria eu sofrendo da famosa Síndrome da Impostora?” – me fizeram essa pergunta em um podcast recentemente. Acho que não. Nunca fui de subestimar meu potencial. Mesmo com dúvidas, sempre segui na carreira e na vida confiando em mim e numa força maior que me guia e protege. Nesse caso, apenas pensei que haveria no mundo – que é tão grande... – pessoas mais preparadas.

Porém, a Luiza insistiu (que bom!) e resolvi levar a ideia ao meu chefe – o então presidente da Bolsa, Edemir Pinto – propondo que ele fosse o candidato. Rapidamente, ele reagiu: “É você”. Impulsionada, assim, pelo frescor da juventude e a sapiência da maturidade, fui em frente. Para a inscrição, era necessário descrever a trajetória profissional, as realizações no tema, as atividades atuais, além da visão de futuro e aspirações.

Ao fazer essa reflexão, percebi o quanto já havia caminhado na jornada da sustentabilidade. Voltei ao tempo da implementação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que antecederam os ODS e foram lançados em 2000, durante a Cúpula do Milênio da ONU em Nova York. Eram oito objetivos, voltados para países em desenvolvimento. Naquele ano, eu era Diretora de Comunicação Interna do BankBoston e interagia intensamente com essa pauta, principalmente pela Fundação BankBoston. Os ODM vigoraram de 2000 a 2015, quando trabalhei no BankBoston, Febraban, Itaú e na BM&FBOVESPA.

Puxando pela memória, resgato esses meus passos porque, por meio deles, revejo o avanço da sustentabilidade empresarial no Brasil e no mundo. Na época do BankBoston (1998–2006), constatei o quanto as fundações e os institutos empresariais foram fundamentais para a estruturação dessa agenda. Não havia ainda áreas de sustentabilidade nas empresas, nem usávamos esse termo. O comum era “responsabilidade socioambiental” ou “responsabilidade social”. O recém-criado Instituto Ethos (1998), com seus basilares Indicadores, nos mostrava que algo muito diferente estava nascendo.

Nos anos de Itaú e Febraban (2006–2009), vivi e percebi a força do setor financeiro, seja por meio das áreas de crédito socioambiental, das campanhas de educação financeira ou dos primeiros “fundos verdes”. Como Diretora Setorial na Febraban (atuação voluntária em nome do BankBoston e, depois, do Itaú), participei das discussões do Protocolo Verde; implementamos o Projeto Cisternas no semiárido brasileiro; criamos o “Café com Sustentabilidade”, que gerou tantas discussões seminais na casa dos bancos.

De 2009 a 2019, quando atuava na Bolsa – coração do mercado de capitais –, essa estrada ganhou mais e mais vias. Passamos pelas diretrizes da GRI, PRI, CDP, pela Sustainable Stock Exchanges e seus famosos eventos Ring the Bell for Gender Equality, pelo “Relate ou Explique para Relatório de Sustentabilidade”, os anos marcantes do ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) e o lançamento do ICO2 (Índice Carbono Eficiente), entre tantas outras iniciativas.

Foi nesse período que veio o meu reconhecimento da ONU. Lembro-me como se fosse hoje de quando recebi a mensagem do Pacto Global de NY comunicando que eu havia sido escolhida entre mais de 600 pessoas de 98 países. Era feriado e eu estava em casa. Abri o e-mail no celular; li e reli o texto para ter certeza de que não estava entendendo errado. Enfim, o recado era claro: eu era uma das dez SDG Pioneers e estava sendo convidada para uma semana de celebrações em Nova York. E mais: o Brasil era o único país com dois representantes, eu e Ulisses Sabará.

Costumo dizer que aquela foi uma semana de sonho. Cada pioneiro/a teve sua caricatura produzida pelo Pacto Global estampada em painéis na Times Square. Houve cerimônia na sede da ONU, com direito a foto com o secretário-geral à época, Ban Ki-moon, e jantar de gala no tradicional restaurante Cipriani. Amigos e amigas de jornada compartilhavam generosamente desse momento, entre sorrisos e abraços.

Mas semanas de sonhos passam; o reconhecimento de pioneira, não. Por isso, ao voltar ao Brasil, comecei a refletir profundamente sobre o que significava, afinal, esse título. Ele poderia ser apenas um fato inesquecível ou algo definidor. Optei pelo segundo caminho e tenho, desde então, essa honrosa alcunha a me guiar como propósito de vida. Espero estar fazendo jus a ela.

Não poderia terminar esse artigo sem tratar dos ODS em si, e o faço com duas perguntas. A primeira, ouço frequentemente. A segunda, tenho feito:

- Vamos atingir os 17 ODS em 2030, seu prazo final? – penso que ninguém com razoável entendimento desse contexto tem a ilusão de que isso ocorrerá. Os ODS já eram desafiadores quando foram lançados, e deveriam ser assim mesmo. Mas eis que em 2020 fomos assolados pela trágica pandemia, que impactou diretamente nos mais variados indicadores. Como exemplo, a covid-19 atrasou em uma geração o tempo necessário para alcançarmos a igualdade de gênero (ODS 5 – Igualdade de Gênero): foi para 135,6 anos na medição de 2021, contra 99,5 no cálculo anterior. Hoje, a previsão é de 123 anos. Isso mesmo: mais de um século... A pandemia e tantos outros fatos, como os conflitos geopolíticos, nos levam a entender que, no caso dos ODS, o processo é quase tão importante quanto o resultado final. E seguir remando.

- O que substituirá os ODS após 2030? – Teremos novos Objetivos mundiais? Os ODS serão prorrogados? Outra opção? A ONU informou que as negociações para a Agenda Pós-2030 devem começar em setembro de 2027. Ótimo. Porque, mais do que o propósito de avançar em temas críticos do mundo, esse mecanismo provou ser uma ferramenta altamente mobilizadora, que concretiza desafios e tem uma linguagem que se adapta aos mais variados contextos, de empresas ao poder público, de escolas a meios de comunicação. Os ODS levaram três anos para nascerem. Estamos hoje praticamente na mesma janela de tempo. Vamos intensificar esse debate?

Sonia Consiglio é SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU e especialista em Sustentabilidade

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