
Do rali à cautela: o semestre em que a IA e a geopolítica mudaram o rumo do gringo na bolsa do Brasil
Saldo do Dia: Depois de uma largada eufórica impulsionada pelo fluxo estrangeiro, o Ibovespa fecha a primeira metade do ano acuado pela rotação tecnológica em Wall Street e pela escalada geopolítica que ressuscitou os juros altos no mundo
Um começo de ano que parecia prometer um novo rali, quatro meses seguidos de sangria e uma disputa global pelo dinheiro que deixou o Brasil a ver navios. É assim que a bolsa brasileira encerra o primeiro semestre de 2026.
Há seis meses, o investidor estrangeiro desembarcava aos bilhões na B3, a bolsa acumulava alta de dois dígitos logo na largada e o mercado flertava com máximas históricas. O semestre termina sob o sinal inverso: calculando o tamanho da correção.
- O Ibovespa encerrou junho com um recuo de 1%, estacionado nos 172.024 pontos. Foi a quarta queda mensal da carteira teórica, que passou o mês tentando estancar a hemorragia de maio (-7,2%). No acumulado do semestre, o índice preserva uma alta de 6,76%.
Wall Street virou um aspirador de pó
No primeiro trimestre, o investidor global operava na lógica da alocação marginal: em vez de concentrar todas as fichas no mercado americano, direcionava uma parcela dos recursos para mercados emergentes.
“Não é que o estrangeiro estava tirando dinheiro dos Estados Unidos, mas em vez de alocar US$ 10 lá, colocava US$ 8 na bolsa americana e separava US$ 2 dólares para os emergentes”, explica Christopher Galvão, analista da Nord Investimentos.
Esse movimento não foi exclusividade nossa. O gringo estava atrás de pechinchas globais após a ressaca das barreiras tarifárias do ano passado.
"O fluxo forte veio para bolsas emergentes como um todo, incluindo África do Sul e Colômbia, ativos que estavam extremamente desvalorizados e com múltiplos atrativos", lembra Gustavo Bertotti, analista de renda variável da Fami Capital.
Como a bolsa brasileira é uma fração do mercado americano, qualquer bilhão faz um preço estrondoso.
Janeiro registrou a entrada de R$ 26,3 bilhões do capital estrangeiro, e fevereiro e março mantiveram o sinal positivo. Parecia o início de uma tendência duradoura.
Mas a maré mudou na metade de abril.
Foi quando as grandes empresas de tecnologia americanas começaram a divulgar seus balanços. O mercado esperava lucros altos, elas entregaram resultados acima das projeções.
Com a inteligência artificial recuperando o protagonismo e o mercado americano sacudido por eventos grandiosos em junho, como o IPO bilionário da SpaceX, Wall Street voltou a sugar o capital global.
Para o gestor estrangeiro, a conta era simples: por que ficar exposto aos riscos de um mercado emergente se as empresas de tecnologia em Nova York entregavam ralis irresistíveis?
Como o Brasil não possui empresas relevantes nesse ecossistema de semicondutores e IA, a B3 acabou sofrendo uma rotação global de portfólios. E o fluxo que já vinha machucado pelo risco geopolítico minguou de vez.
O gringo desfez as malas por aqui.
Em maio, as saídas somaram R$ 14,9 bilhões e, em junho, a debandada continuou com mais R$ 8,7 bilhões deixando a B3. Quem fez a festa no início do ano determinou a queda na metade dele.
Guerra e o fim das ilusões
Se a inteligência artificial atraía o capital externo, a geopolítica e a macroeconomia tratavam de frear o otimismo local. Toda aquela doce ilusão de janeiro de que o ano seria de cortes generosos de juros no mundo ruiu.
E o culpado tem nome: a guerra.
O conflito no Oriente Médio se estendeu, o impasse entre Estados Unidos e Irã levou o petróleo às alturas e, consequentemente, provou que os efeitos inflacionários seriam bem menos transitórios do que os economistas previam.
Bertotti pontua que o choque geopolítico elevou permanentemente a cautela.
“Viramos o ano com uma guerra que mexeu com a principal commodity do mundo. Mesmo com o petróleo dando uma arrefecida recente, a inflação global vai continuar sentindo esse peso; a conta final do aumento de preços ainda não chegou”.
Para piorar o cenário de quem dependia de juros mais baixos lá fora, o Federal Reserve (Fed) endureceu o discurso sob o comando de Kevin Warsh. A tão aguardada Superquarta azedou o humor das mesas.
"O mercado esperava uma postura menos contracionista por ser um indicado de Trump, mas o que vimos foi um Fed extremamente técnico e duro (hawkish)", afirma Bertotti.
O resultado? Um amplo ajuste de rotas global.
O mercado passou o semestre ajustando as expectativas e puxando os juros futuros para cima, não só no Brasil, mas nos Estados Unidos e na Europa. O cenário de cortes na Selic deu lugar à perspectiva de juros mais altos por mais tempo.
No câmbio, o roteiro só não foi trágico porque o Brasil carrega um trunfo: um dos maiores juros reais do mundo.
Foi esse diferencial em relação aos EUA que manteve o real resiliente no acumulado do semestre, com uma valorização na casa dos 5% frente ao dólar, blindando a moeda mesmo em meio às correções nos demais ativos domésticos.
- O dólar à vista encerrou o mês em alta de 2,4%, a R$ 5,16. Na sessão, caiu 0,2% e, na semana, a moeda americana está no zero a zero. No ano até aqui, cede 5,9% frente ao real.
O termômetro dos juros
Se o mercado passou o semestre empurrando as projeções da Selic para cima, o apagar das luzes de junho trouxe um alívio inesperado para a curva de juros.
E o motor desse respiro veio do mercado de trabalho.
A criação de empregos formais em maio veio bem abaixo do esperado, registrando o menor nível para o mês desde 2020. O sinal de arrefecimento na economia era o argumento que faltava para aliviar a pressão sobre o Banco Central.
A reação nos juros futuros foi imediata. As taxas recuaram ao longo de toda a curva, refletindo o aumento das apostas de que o Copom terá espaço para continuar cortando a Selic em agosto.
O fantasma das urnas
Mas se o alívio técnico amparou o fechamento de junho, o cenário político doméstico promete se fazer ainda mais presente daqui em diante, dividindo as atenções do mercado no segundo semestre.
O mercado passou a recalcular as rotas após o escândalo que revelou ligações entre o senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o banqueiro Daniel Vorcaro.
O episódio abalou as projeções eleitorais e fez o investidor reduzir as chances de vitória da oposição, passando a precificar o risco de continuidade da atual gestão do Planalto - cenário que, na visão dos operadores, aumenta os temores de uma política de gastos públicos mais frouxa.
“O Ibovespa tende a se mostrar bastante volátil no segundo semestre”, pontua Galvão. “A bolsa já corrigiu bastante e está negociando com desconto em relação a sua média histórica, mas ainda é totalmente dependente do fluxo estrangeiro. O investidor doméstico dificilmente vai voltar com força agora”.
Bertotti, da Fami, concorda com o diagnóstico de fragilidade interna e acrescenta que o fluxo institucional local segue deficitário na casa dos R$ 33 bilhões, deixando o mercado sem colchão doméstico.
"Embora o saldo do gringo no ano ainda esteja positivo em R$ 32 bilhões, as saídas recentes machucaram. E a pessoa física, por mais que tente ajudar injetando recursos, não tem tamanho relevante para segurar o mercado sozinho", pondera o analista da Fami.
O segundo semestre tem potencial para se mostrar um grande "Fla-Flu" eleitoral para os ativos brasileiros. Se o mercado enxergar uma mudança no rumo da política, a aversão ao risco pode se transformar em um rali de alívio rápido para as ações e para os juros futuros.
Caso contrário, o prêmio exigido vai continuar salgado.