
Ouro cai 25% desde recorde, mas bancos centrais seguem comprando; entenda o motivo
Força do dólar e perspectiva de juros altos por mais tempo nos EUA derrubaram o preço do metal precioso e levantaram dúvidas sobre o potencial de valorização à frente
Depois de uma arrancada histórica que levou o ouro a bater sucessivos recordes e superar US$ 5.500 por onça no início do ano, o mercado vive agora um momento bem diferente. Pressionado pela força do dólar e pela perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos, o metal já perdeu quase 25% desde a máxima registrada em janeiro e atingiu o menor patamar desde novembro de 2025.
A correção dos preços, no entanto, não afastou um dos principais compradores do mercado. Mesmo com o ouro negociando bem abaixo das máximas do ano, os bancos centrais continuam reforçando suas reservas.
Levantamento da corretora BestBrokers, com base em dados do Conselho Mundial do Ouro (WGC, na sigla em inglês), mostra que países como Polônia, China, Uzbequistão e Cazaquistão seguiram ampliando suas compras ao longo de 2026, sustentando a demanda oficial pelo metal.
O movimento ajuda a explicar por que muitos analistas ainda enxergam um suporte estrutural para o ouro, apesar da recente onda de vendas. Para os bancos centrais, a decisão de aumentar as reservas vai além das oscilações de curto prazo.
O metal continua sendo visto pelos governos dos países como uma forma de diversificar ativos e proteger o patrimônio em um cenário de tensões geopolíticas, incertezas sobre a economia global e maior busca por ativos considerados seguros.
Essa estratégia, porém, não é de agora.
Em 2025, por exemplo, o Banco Central brasileiro foi o quarto maior comprador de ouro do mundo ao adicionar 42,8 toneladas às reservas internacionais, segundo o levantamento. O país ficou atrás apenas de Polônia, Cazaquistão e Azerbaijão e à frente de economias tradicionalmente associadas ao metal, como China e Turquia.
A permanência dos bancos centrais no mercado chama atenção justamente porque acontece em um momento em que muitos investidores passaram a questionar o potencial de valorização do ouro após a forte correção neste ano.
Para Marcela Rocha, diretora de investimentos da Avenue, as compras por parte das autoridades monetárias não refletem uma aposta em ganhos de curto prazo, mas uma estratégia de longo prazo voltada à proteção e à diversificação.
"A principal lógica não é o preço, e sim uma estratégia de reserva e diversificação", afirma.
Segundo a executiva, uma pesquisa divulgada recentemente pelo Conselho Mundial do Ouro mostrou que 45% dos bancos centrais pretendem ampliar suas reservas de ouro nos próximos 12 meses.
Esse é o maior percentual já registrado pelo levantamento e também um indicativo de que a demanda oficial pelo metal deve permanecer forte, mesmo após a forte valorização observada em 2025.
Na avaliação de Rocha, o ouro voltou a ganhar protagonismo por reunir características que poucos ativos conseguem oferecer ao mesmo tempo.
Além de funcionar como reserva de valor em períodos de instabilidade, o metal não está vinculado à política econômica de nenhum país específico, o que amplia sua atratividade em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e crescente fragmentação.
"O ouro não depende de nenhum governo. Em um ambiente de maior incerteza, ele funciona como uma proteção diante de dúvidas sobre a credibilidade das instituições e das políticas econômicas", defende a especialista.
Países que mais compraram ouro
Depois de passar boa parte de 2025 sem movimentações relevantes no mercado de ouro, o Banco Central brasileiro voltou às compras nos últimos meses do ano.
Entre setembro e novembro, a autoridade monetária adquiriu 42,8 toneladas do metal, o que colocou o país entre os maiores compradores globais do período.
A liderança ficou com a Polônia, que ampliou suas reservas em 102 toneladas ao longo de 2025. O Cazaquistão aparece na segunda posição, com 57 toneladas, enquanto o Azerbaijão ocupou o terceiro lugar, ao adicionar 53,4 toneladas por meio de seu fundo soberano.
Os países que mais compraram ouro em 2025
Neste ano, entre fevereiro e abril, a Polônia voltou a liderar as compras globais, com a aquisição de 45,4 toneladas de ouro.
No mesmo período, o Uzbequistão adicionou 24 toneladas às reservas, a China comprou mais 15,2 toneladas e o Cazaquistão ampliou seus estoques em 13,3 toneladas.
Os números mostram que, mesmo após a forte valorização registrada em 2025 e da correção observada neste ano, os bancos centrais continuam tratando o ouro como um ativo estratégico para diversificar reservas e reduzir a exposição a riscos econômicos e geopolíticos.
Os países que mais compraram ouro em 2026
Por que os bancos centrais compram ouro?
A presença do ouro nas reservas internacionais dos bancos centrais vem crescendo nos últimos anos. Em meio ao aumento das incertezas globais, muitas autoridades monetárias passaram a diversificar seus ativos, reduzindo a dependência de moedas fortes e títulos públicos de países desenvolvidos.
As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, o aumento das tensões entre grandes potências, as preocupações com as contas públicas de algumas economias e o debate sobre a dependência global do dólar aceleraram esse processo.
No Brasil, essa mudança também pode ser observada na composição dos ativos do Banco Central. Segundo Rocha, a participação do dólar perdeu espaço nos últimos anos, enquanto outros ativos ganharam mais destaque.
Hoje, o ouro responde por 7% da carteira da autoridade monetária, fatia superior à de algumas moedas que compõem as reservas brasileiras.
Conforme explica a diretora de investimentos da Avenue, o Brasil segue a mesma lógica adotada por diversas autoridades monetárias ao redor do mundo. "Não é uma decisão tática. É uma estratégia de diversificação que independe do preço atual do ouro", afirma.
Mas nem todo mundo está comprando
Apesar da tendência de aumento das reservas, alguns países aproveitaram a forte valorização do ouro para realizar lucros e reduzir suas posições.
Singapura liderou as vendas líquidas em 2025, com a venda de 26,5 toneladas. A Rússia vendeu 6,2 toneladas, enquanto a Alemanha reduziu suas reservas em 1,3 tonelada.
Já neste ano, a Turquia passou a liderar os movimentos de venda. Segundo o levantamento, o país reduziu suas reservas em mais de 78 toneladas nos primeiros meses de 2026, em uma estratégia voltada à obtenção de liquidez e ao suporte da moeda local.
A Rússia também aparece entre os principais vendedores do período, com redução de 28 toneladas.
Na avaliação da BestBrokers, essas vendas não indicam uma mudança estrutural na percepção sobre o ouro, mas refletem necessidades pontuais de liquidez e de rebalanceamento das reservas.
Ainda faz sentido investir em ouro?
O comportamento dos bancos centrais costuma ser acompanhado de perto pelo mercado por oferecer sinais sobre a demanda de longo prazo pelo metal.
Para a Avenue, o ouro continua fazendo sentido dentro de uma carteira diversificada, principalmente por apresentar baixa correlação com ativos como ações e renda fixa.
Rocha ressalta, porém, que o desempenho do metal depende do ambiente macroeconômico global.
Isso porque, embora seja frequentemente visto como uma proteção contra a inflação, o ouro tende a perder atratividade quando a alta dos preços é acompanhada por juros elevados.
Nesses momentos, aumenta o custo de oportunidade de manter um ativo que não gera rendimento, enquanto aplicações de renda fixa passam a oferecer retornos maiores.
Por outro lado, o metal costuma ganhar força em períodos de perda de confiança nas instituições, aumento da percepção de risco ou dúvidas sobre a condução da política econômica.
"São em situações como essas que o ouro consegue cumprir um papel importante de diversificação e proteção da carteira", afirma Rocha.
O que esperar até o fim do ano?
Depois da disparada registrada entre 2025 e o início deste ano, o cenário para o ouro ficou mais complexo. A combinação entre um dólar mais forte e a expectativa de juros mais altos nos Estados Unidos levou diversas instituições financeiras a reduzir suas projeções para o metal.
Para Rocha, três fatores devem ditar o comportamento dos preços nos próximos meses.
O primeiro é a demanda dos bancos centrais, que continua sustentando o mercado mesmo após a forte queda observada recentemente.
O segundo é o cenário geopolítico, uma vez que conflitos geopolíticos e períodos de maior incerteza costumam aumentar a procura por ativos considerados seguros, como o ouro. Por outro lado, uma redução dessas tensões tende a diminuir parte dessa demanda.
O principal vetor para os preços, no entanto, continua sendo a política monetária dos Estados Unidos. Segundo Rocha, os juros americanos devem exercer a maior influência sobre o mercado de ouro até o fim do ano.
Afinal, quanto maior o retorno oferecido pela renda fixa, menor tende a ser a atratividade de um ativo que não gera rendimento.
A primeira decisão de política monetária sob o comando de Kevin Warsh no Federal Reserve (Fed, o banco central americano) reforçou essa percepção ao indicar uma postura mais dura no combate à inflação e menos favorável a cortes rápidos de juros.
Ainda assim, Rocha avalia que o fluxo de compras pelos bancos centrais deve evitar uma queda mais acentuada dos preços. Em contrapartida, os juros elevados e a redução do prêmio geopolítico tendem a manter o ouro em um ambiente de maior volatilidade nos próximos meses.
"O suporte estrutural continua presente, mas o cenário para o ouro hoje é mais desafiador do que era no início do ano", conclui a especialista.