
Raízen (RAIZ4) tem prejuízo de R$ 28 bi e 'deterioração severa do balanço'; entenda
Resultado foi pressionado por R$ 22,5 bilhões em baixas contábeis após o pedido de recuperação extrajudicial; Citi vê trimestre fraco e coloca cobertura da empresa em revisão
A Raízen encerrou o exercício fiscal de 2025/26, em 31 de março, com um prejuízo líquido de R$ 27,1 bilhões, o maior de sua história, em um período marcado pelo protocolo da maior recuperação extrajudicial já registrada no país. Apesar do resultado, a companhia, uma "joint venture" entre a Cosan, do conglomerado de Rubens Ometto, e a Shell, afirmou nesta terça-feira (30) estar confiante de que irá superar o atual momento financeiro. Para o Citi, a empresa atravessa uma deterioração severa do balanço, à medida em que o pagamento de juros continuam consumindo grande parte dos ganhos obtidos com as melhorias operacionais
“Estou confiante, convicto, de que essa combinação, tanto da nossa transformação operacional quanto da transformação da nossa estrutura de capital, vai nos permitir atravessar esse nosso ciclo atual”, disse Nelson Gomes, presidente da empresa, em teleconferência para comentar os resultados. O executivo classificou o exercício como um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos, em um cenário que descreveu como marcado por “instabilidade geopolítica, condições climáticas adversas, volatilidade de commodities e juros elevados”.
A companhia aguarda agora o prazo legal para a homologação do plano de RE, que, segundo Gomes, deve ocorrer até setembro. Neste mês, a adesão dos credores atingiu 80% dos créditos envolvidos na operação, protocolada em março com cerca de R$ 65 bilhões em dívidas em negociação.
Baixas contábeis explicam o salto no prejuízo
A maior parte do prejuízo, R$ 22,5 bilhões, veio de provisões para perdas (impairment), sem efeito caixa, decorrentes da reavaliação de ativos que a empresa precisou fazer depois de pedir recuperação extrajudicial, em 12 de março. Desse total, R$ 12,5 bilhões se referem a possíveis perdas ligadas à “incerteza significativa quanto à continuidade operacional” — ou seja, caso os ativos deixem de operar. Segundo a Raízen, esses valores podem ser reavaliados conforme avance a implementação do plano.
Os outros R$ 10,1 bilhões em provisões correspondem à redução de valor de determinados ativos, com destaque para R$ 4,3 bilhões em ativos de açúcar e etanol, além de R$ 586,7 milhões relacionados à venda dos canaviais da Usina Santa Elisa e R$ 239,9 milhões à venda de ativos de geração de energia.
Citi vê trimestre fraco e 'deterioração severa do balanço'
Para o Citi, a Raízen entregou um resultado fraco no quarto trimestre fiscal, em meio aos ajustes contábeis e a uma piora operacional. “Apesar das melhorias no negócio de distribuição de combustíveis e dos esforços da empresa para reduzir os investimentos e as despesas com vendas, gerais e administrativas, vemos os resultados do quarto trimestre de 2026 como fracos, já que a elevada alavancagem e o pagamento de juros continuam consumindo grande parte dos ganhos obtidos com as melhorias operacionais”, escreveram os analistas Gabriel Barra e Pedro Gama, em relatório.
Na visão deles, a dimensão das perdas contábeis confirma a gravidade da deterioração do balanço. O principal destaque, segundo o banco, foi o prejuízo líquido de R$ 7,3 bilhões apenas no trimestre, ante perda de R$ 2,5 bilhões um ano antes, impulsionado pelas baixas de impairment. O Citi colocou a cobertura da Raízen em revisão, uma vez que o processo de RE tornou secundária a avaliação do desempenho operacional da empresa.
Dívida líquida sobe quase 70% e alavancagem chega a 5,2 vezes
A dívida líquida da companhia encerrou março em R$ 58,2 bilhões, alta de 69,9% (ou R$ 23,9 bilhões) em um ano, o que representava uma alavancagem de 5,2 vezes. Já a dívida bruta alcançava R$ 71,8 bilhões, das quais R$ 65,7 bilhões estão no escopo da recuperação. Ao longo da safra, a Raízen teve despesa de R$ 11,7 bilhões com o custo da dívida bruta, sendo R$ 4 bilhões apenas no último trimestre.
A empresa reiterou que a alta da despesa financeira e o avanço da dívida líquida refletiram, sobretudo, a substituição de linhas de capital de giro — antes registradas no custo operacional — por instrumentos financeiros, além da elevação dos juros. O fim das operações de risco sacado, feitas até então na distribuição, e o encerramento de adiantamentos de clientes acrescentaram R$ 13,6 bilhões ao passivo financeiro, enquanto o pagamento e a apropriação de juros somaram R$ 10,7 bilhões. A deterioração de crédito, com o rebaixamento da nota pelas três principais agências de risco em março, provocou chamadas de margem que, somadas a outras variações, adicionaram R$ 6,8 bilhões à dívida líquida.
Operacionalmente, a companhia consumiu R$ 9 bilhões de caixa no exercício e encerrou a temporada com R$ 13,6 bilhões em caixa.
Distribuição avança, mas açúcar e etanol decepcionam
O diretor de relações institucionais, Phillipe Casale, afirmou que a empresa conseguiu avançar na rentabilidade da distribuição de combustíveis, mas enfrentou cenário desafiador em açúcar e bioenergia. O Ebitda ajustado da distribuição subiu 35,5%, para R$ 5,7 bilhões, enquanto o de etanol, açúcar e bioenergia recuou 23,9%, para R$ 4,5 bilhões. “Conseguimos avançar de forma estrutural na expansão da rentabilidade em combustíveis no Brasil, enquanto o setor de açúcar e bioenergia foi impactado por fatores conjunturais”, disse.
Na distribuição, a companhia teve ganhos de volume e de margem, favorecida pelo combate às ilegalidades no setor e pela redução das operações de risco sacado. A margem Ebitda cresceu 26,8% no ano, a R$ 199 por metro cúbico, e chegou a R$ 246 por metro cúbico no quarto trimestre, quando os preços do diesel dispararam no mercado internacional por causa da guerra no Oriente Médio. O volume total vendido subiu 6,7% na safra, embora a empresa tenha registrado perda líquida de 213 postos Shell em relação ao fim da temporada anterior.
Já o negócio de açúcar e etanol foi afetado pela quebra da colheita de cana, que resultou em queda de 10,6% na produção em açúcar equivalente, com recuo tanto de açúcar quanto de etanol convencional. A única linha que ampliou a produção foi a de etanol de segunda geração (E2G), que mais que dobrou, a 120,2 milhões de litros, reflexo da estabilização das plantas Bonfim, Univalem e Barra. Apontado por alguns analistas como vilão dos resultados nos últimos anos, o E2G recebeu mais investimentos na safra para avançar nas obras das usinas Vale do Rosário e Gasa.
Plano prevê separação dos negócios e aportes de Shell e Aguassanta
Gomes afirmou que a Raízen tem buscado se tornar uma companhia mais simples, disciplinada na alocação de capital e focada nos negócios principais, em referência ao desinvestimento de ativos de energia e à redução do portfólio para 24 unidades produtoras de açúcar. Para a Cosan, a separação entre os negócios é importante para dar sustentabilidade a cada um deles. O desmembramento prevê abrigar a distribuição na Raízen Combustíveis e as usinas de açúcar, etanol e bioenergia na Raízen Energia.
A operação estabelece aporte de R$ 3,5 bilhões pela Shell e a previsão de potencial aporte adicional de R$ 500 milhões pela Aguassanta, veículo de investimentos da família Ometto. Com a reorganização da estrutura de capital acertada com os credores, a administração afirmou, em mensagem ao mercado, que os movimentos “criam as condições para uma redução relevante da alavancagem e para a retomada de uma trajetória sustentável”, deixando a companhia “melhor posicionada para iniciar um novo ciclo, com geração de valor mais previsível e consistente”.