Usiminas vira favorita do setor com alta de 40% no ano, mas ação enfrenta prova de fogo

Usiminas vira favorita do setor com alta de 40% no ano, mas ação enfrenta prova de fogo

Usiminas vira favorita do setor com alta de 40% no ano, mas ação enfrenta prova de fogo

Papel opera sob forte volatilidade, tendo acumulado mais de 100% de alta no começo do ano e devolvido metade dessa valorização em 20 dias; decisão sobre antidumping e JCP retroativo devem definir se o rali se sustenta no segundo semestre

A Usiminas chegou a acumular alta de 102% neste ano no início de junho, o melhor desempenho entre as siderúrgicas da bolsa brasileira e a caminho do maior retorno anual desde 2017. Três semanas depois, essa valorização encolheu pela metade. A elasticidade no desempenho da ação da companhia reflete o grau de risco dessa aposta: a Usiminas ainda pode ser a heroína ou a vilã dos investidores nesse setor em 2026.

Enquanto a ação da Usiminas dobrava de preço, em 2 de junho, suas pares nacionais ficaram para trás. O papel da Gerdau, que também estava no auge nessa data, havia subido 22,5% desde janeiro, enquanto a CSN já se esgueirava no campo negativo, com perdas de mais de 20% no ano até aquele momento. Semanas depois, em 22 de junho, a situação havia se deteriorado para todas as ações do setor, mas a siderúrgica mineira ainda entregava alta de 55% no ano aos seus acionistas.

A Usiminas despontou nas preferências do mercado como a principal beneficiária das medidas de defesa comercial que, na prática, tendem a reduzir a competitividade do aço chinês no mercado brasileiro.

No fim de maio, a BlackRock, maior gestora do mundo, passou a deter 5% das ações preferenciais da Usiminas, somando quase 28 milhões de papéis e outros 26 milhões em derivativos referenciados na ação. O objetivo declarado é "exclusivamente de investimento", mas quando a BlackRock toma uma posição relevante numa empresa de R$ 11 bilhões de valor de mercado, um recado foi passado ao mercado: é o momento de colocar a companhia no radar.

A correção recente, porém, que comprimiu os ganhos da Usiminas, expôs uma volatilidade anual superior a 52% em um papel que se move com violência nas duas direções.

No momento atual, a ação da Usiminas assume uma faceta ambígua: ou está num ponto de entrada interessante ou passa o sinal de que o rali havia ido longe demais até o começo de junho.

Embora a Usiminas tenha subido de patamar em 2026, o fluxo e desempenho das ações da empresa não acompanharam de forma ordenada a evolução dos fundamentos. Na bolsa, um ativo que dobra de preço sem ganhar em liquidez (com maior número de contratos negociados) pode cair bruscamente em questão de dias. E o histórico recente da companhia na bolsa prova que esses riscos de fundamentos e técnicos convergem nesse segundo semestre, período pelo qual a empresa passará por uma prova de fogo na bolsa.

A tese da Usiminas

A tese para o investimento na Usiminas neste ano não começou nos balanços financeiros, mas na Esplanada dos Ministérios. Desde janeiro, o governo tem aplicado, em sequência, medidas de defesa comercial que gradualmente tiraram o aço chinês barato de circulação no Brasil.

Primeiro, com tarifas sobre aços laminados a frio e revestidos (galvanizados e pré-pintados). Essas categorias representam cerca de 50% do que a Usiminas vende. Com a taxação, os produtos importados deixaram de competir em preço com os nacionais, e a siderúrgica mineira era a candidata mais óbvia para capturar esse vácuo no mercado.

"Devido ao portfólio da Usiminas altamente exposto a essas categorias, a empresa acaba sendo a alternativa mais óbvia para se expor a uma dinâmica de preços mais favorável da indústria de aços planos no Brasil", diz Lucas Laghi, responsável pela cobertura de mineração e siderurgia no research da XP.

Em outras palavras: a Usiminas produz exatamente o que a China parou de conseguir vender aqui, por seus produtos terem ficado menos competitivos. E nenhuma outra empresa listada na bolsa tinha essa sobreposição tão direta.

O governo já taxou (ou está investigando taxar) o aço importado que concorre com 75% do que a Usiminas vende, o que é dizer que a maior parte dos produtos da siderúrgica já está blindada contra a concorrência estrangeira barata.

O Itaú BBA, que recomenda a compra do papel (classificação "outperform"), faz uma ressalva sobre o ritmo desse efeito. Em relatório de 18 de maio, o banco apontou que a alta recente dos preços do aço no mercado interno, reajustes de 5% a 7% em abril e mais 5% em meados de maio, foi puxada principalmente por fatores externos ligados ao conflito no Irã, que encareceram o frete marítimo e os preços globais do aço, e não pela proteção tarifária em si. Para os analistas, o impacto mais forte do antidumping ainda está por vir: à medida que as importações recuarem, a oferta no mercado interno deve ficar mais apertada e abrir espaço para novas altas a partir do terceiro trimestre.

Além disso, o produto mais vendido da empresa (a bobina a quente, que é basicamente uma chapa de aço enrolada) ainda não recebeu essa proteção tarifária. Luca Vello, analista da Genial, apontou em relatório publicado no fim de maio que essa decisão deve ser tomada no segundo semestre. Se sair, a empresa vai poder cobrar mais caro por mais esse produto, o que impulsionaria o lucro operacional da Usiminas 30% acima do que o mercado espera para 2027.

Quase nenhuma projeção das casas de análises está contando com isso atualmente. Se a decisão vier, será uma surpresa positiva, que, portanto, ainda não foi embutida nos preços das ações.

Há riscos nessa aposta. Um deles é a "deflexão de rota", ou seja, de o aço da Coreia do Sul e do Vietnã, que já respondem por 57% das importações de aço no Brasil, ganharem espaço, já que esses mercados praticam preços similares aos chineses. Se o governo não estender a proteção a essas origens, parte do efeito de otimismo com o setor se dilui.

“Apesar do risco de substituição de volumes importados da China por outros países, acreditamos que as medidas protecionistas impostas devem ter uma eficácia importante na redução dos níveis de importação (já começamos a ver tais reduções de importação nos últimos meses após as medidas terem sido implementadas)”, diz Laghi.

De um jeito ou de outro, este é o ponto que transforma a história setorial numa aposta específica do mercado na Usiminas.

A Gerdau produz principalmente aços longos, usados em construção civil. A CSN tem um portfólio mais diversificado, mas está sufocada por uma dívida líquida de R$ 40,5 bilhões, que corresponde a 3,4 vezes seu Ebitda (lucro operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização) nos últimos 12 meses. Já a Usiminas opera com caixa líquido (tem mais dinheiro em caixa do que dívida) e produz exatamente os produtos que ganharam a proteção de mercado.

O componente de alavancagem operacional amplia o efeito sobre os resultados da companhia. Quando a margem está em níveis muito baixos (como da Usiminas estava), qualquer aumento de preço vai quase inteiro para o lucro. Foi exatamente o que aconteceu no primeiro trimestre deste ano, quando o lucro da Usiminas disparou 166% num único trimestre.

"Como a margem da companhia estava rodando em patamares muito pressionados, o impacto relacionado a essa dinâmica de preços mais favoráveis acaba tendo um impacto significativo de melhora de rentabilidade e lucro", afirma Laghi.

O “tesouro escondido” da Usiminas

A Usiminas conta com mais um ponto que torna sua tese tão única no setor e que pode ser o catalisador mais subestimado na tese e, segundo Vello, ainda “segue fora do radar da maior parte do mercado”. No fim de 2025, o Superior Tribunal de Justiça confirmou que empresas podem deduzir retroativamente juros sobre capital próprio (JCP) desde 1996.

A Usiminas divulgou em fato relevante que seu benefício potencial seria de R$ 1,7 bilhão a R$ 3,6 bilhões - entre 16% e 34% do valor de mercado da empresa. O J.P. Morgan endossa, mas com a estimativa de que, num cenário conservador, o benefício seria de R$ 1,3 bilhão.

Já o Itaú BBA, que tratou o benefício como "a vantagem oculta" da Usiminas, trabalha com o mesmo intervalo de R$ 1,7 bilhão a R$ 3,6 bilhões em economia com imposto, mas, ao contrário da leitura mais conservadora do J.P. Morgan, considera o cenário de R$ 3,6 bilhões o mais provável, o equivalente a quase um terço do valor de mercado da companhia. Os analistas lembraram que a B3 já começou a usar o benefício e que uma onda de pedidos parecidos deve aparecer nos próximos meses. Ainda assim, o banco preferiu não colocar nenhum desses ganhos em suas projeções: tratou o crédito como um ganho extra que depende da decisão da empresa de monetizá-lo e que, por isso, ainda não está refletido nas contas nem nos preços das ações dessas companhias.

O analista da Genial explica que, na prática, se o conselho de administração da siderúrgica decidir usar esse crédito, a empresa pode simplesmente não pagar imposto de renda por vários anos seguidos, liberando seu caixa, ou pode distribuir tudo via dividendo extraordinário, o que geraria um retorno pontual de até 34% ao acionista.

A questão é o compasso dessa decisão, que depende do conselho da companhia e para o qual não há sinal formal de quando acontecerá.

É hora de investir em USIM5?

O consenso das casas de análise aponta que a ação está em um ponto de entrada atraente, mas os especialistas fazem ressalvas relevantes a esse investimento. O principal deles é o fato de a ação ser extremamente volátil.

Investidores que compraram no pico de início de junho viram a posição perder quase metade do ganho em duas semanas. A correção pode ser uma oportunidade, mas também pode se aprofundar se os resultados do segundo trimestre decepcionarem ou se a decisão do antidumping para bobinas a quente atrasar.

A Usiminas acumulava alta de mais de 100% no ano até o início de junho. Nesse patamar, o indicador de força relativa (IFR) da ação bateu 80 pontos, um nível que historicamente precede correções. Aqui, já não importa o quanto os fundamentos justificam a alta, entra um recorte técnico: quando muita gente compra um ativo rápido demais, qualquer notícia vira gatilho para realização de lucros.

E os gatilhos para realização na Usiminas vieram. No curto prazo, a empresa alertou que os custos com insumos (placas de aço, coque, carvão) subiriam no segundo trimestre, pressionados pelo conflito com o Irã e pelo frete marítimo. Além disso, os estoques de aço importado comprados antes das tarifas ainda não foram absorvidos, o que freia novas compras do mercado doméstico no curto prazo.

A queda de junho mostra que o papel tem uma volatilidade anual acima até de seus pares. Além de ser mais barata, a ação USIM5 também é menos negociada, já que se trata de uma tese essencialmente ligada ao mercado brasileiro (diferentemente de Gerdau, que tem operações nos Estados Unidos), o que favorece oscilações. Para investidores que não toleram oscilações bruscas em semanas, essa não é a ação mais adequada.

A XP e a Genial mantêm recomendação de manter a ação em carteira (uma recomendação neutra, já que não sugere a compra), reconhecendo os fundamentos, mas alertando para a "sobrecompra" técnica. Os bancos americancos J.P. Morgan e Citi projetam a ação entre R$ 10 e R$ 11,50, o que, partindo dos R$ 9,11 atuais, representa potencial de alta entre 9% e 26%.

O Itaú BBA elevou o preço-alvo da ação de R$ 9 para R$ 11, após o resultado do primeiro trimestre vir acima do esperado. O banco projeta um lucro antes de juros e amortizações (Ebitda) de R$ 3 bilhões em 2026 e de R$ 3,6 bilhões em 2027, de 20% a 30% acima do consenso de mercado, e calcula que a empresa pode entregar um retorno de caixa livre de 11% em 2027, percentual que passaria de 15% caso o benefício do JCP se concretize.

Na prática, a assimetria na tese da Usiminas é favorável à valorização da ação, porque pressupõe que o mercado retirou dos preços nas últimas semanas os cenários mais positivos para a companhia. Se o antidumping de bobinas a quente sair em julho e o segundo trimestre confirmar a tendência dos resultados, o papel pode revisitar os R$ 11.

Por outro lado, se os riscos se materializarem, o piso de R$ 7 a R$ 8 parece ancorado pelo caixa líquido e pela geração operacional. A concentração em USIM5, contudo, é o maior perigo para o investidor, porque a volatilidade do papel castiga posições grandes.

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