
Leto Capital, ex-JGP Crédito, anuncia primeiro ETF de crédito privado e discute futuro da indústria
Problemas tributários e falta de liquidez no mercado de títulos corporativos ainda representam desafios, mas gestora vê espaço para assumir protagonismo no setor e na infraestrutura do crédito no Brasil
A Leto Capital, ex-JGP Crédito, anunciou o lançamento do primeiro ETF de crédito privado da gestora capitaneada por Alexandre Muller. A companhia realizou seu primeiro evento com investidores em São Paulo nesta quarta-feira (1º), onde foram apresentados os planos para a empresa recém desmembrada da gestora JGP.
O produto replicará uma cesta de debêntures com rating "AAA" aceitas pela B3 como margem para operações financeiras. Não foi informado o número de papéis que compõem o índice, mas são poucos. Já há outro produto no mercado com essa característica, lançado pelo BTG Pactual há quatro anos, um dos apenas três ETFs de crédito privado existentes. Lançamentos de produtos desse tipo têm sido adiados em razão de problemas tributários e tecnológicos, como mostrou o Valor Investe em reportagem recente.
O fundo da Leto Capital terá tributação máxima, de 25% sobre os rendimentos. Por isso, segundo Muller, o público esperado neste momento são investidores institucionais, para quem a alíquota de tributação não incide diretamente. Qualquer um poderá comprar cotas na bolsa, mas com a tributação estabelecida atualmente, não se espera atrair um grande número de pessoas físicas.
A nova companhia é composta pela gestora, Leto Asset Manegement, com R$ 22 bilhões em ativos sob gestão, por uma boutique de estruturação de dívida e assessoria para fusões e aquisições, a Leto Financial Advisory, e a empresa de índices e infraestrutura para o mercado, a Idex Analytics. A Moody's atribuiu, na última semana, avaliação MQ1.br de qualidade de gestor, o nível mais elevado na classificação.
O futuro dos ETFs de crédito privado
Há alguns entraves para o desenvolvimento do mercado de ETFs de crédito privado. O tema foi discutido em um painel no evento da Leto Capital. A polêmica tributação dos produtos que seguem o CDI com alíquota máxima de 25% sobre os rendimentos foi um dos pontos discutidos pelos participantes. De acordo com Alexandre Muller, a Anbima tem procurado a Receita sobre o tema e há uma expectativa de que em até três meses exista alguma resolução.
Além disso, os principais produtos procurados atualmente pelos investidores são os títulos isentos, e a tributação estabelecida atualmente não replica essa isenção para os fundos. Além disso, há baixa liquidez nesse mercado, ainda que ela tenha aumentado recentemente, e já represente cerca de 20% da liquidez diária da bolsa. Na avaliação de Luís Masagão, vice-presidente executivo da B3, que participou do debate, esses são os principais obstáculos atualmente aos ETFs de crédito privado.
Muller acrescenta o desafio representado pelo fato de que apenas 30% dos ativos de crédito privado têm preços públicos centralizados pela Anbima. Isso e os problemas de liquidez limitam a capacidade de um fundo de índice realizar operações rápidas dentro dos limites estabelecidos para esse tipo de fundo, que não pode desviar em relação ao índice de referência. Por isso, uma das ambições da Idex Analytics é pferecer uma infraestrutura de centralização de preços para um conjunto mais amplo de títulos.
Apesar dos desafios atuais, o potencial de crescimento da indústria é grande. Cauê Mançanares, diretor-executivo da Investo, aposta em um patrimônio sob gestão total de R$ 1 trilhão até 2030. O conjunto de ETFs atingiu R$ 100 bilhões neste ano, em março, em um ritmo de crescimento acelerado, em maior parte motivo pela captação recorde de ETFs de renda fixa no final do ano passado e início deste ano. Muller concorda com o número e acredita que entre 10% e 15% desse valor será apenas para fundos de crédito.
Sobre a concorrência com os fundos multimercados, os três participantes concordaram que eles são complementares, mas há evidências no mercado americano de uma transferência de recursos entre os dois, com resgates líquidos entre fundos mútuos nos últimos anos, acompanhados de forte aumento da captação líquida nos ETFs. Ainda assim, há estratégias de investimentos, em especial alternativos ou produtos de crédito originados através de empréstimos diretos a empresas fechadas (que nos Estados Unidos é chamado de "private debt") que não devem ser absorvidos pelo universo de ETFs.