O aval de Wall Street e o susto com o PCC marcam a estreia amarga do Ibovespa em julho

O aval de Wall Street e o susto com o PCC marcam a estreia amarga do Ibovespa em julho

O aval de Wall Street e o susto com o PCC marcam a estreia amarga do Ibovespa em julho

Saldo do Dia: Sob o impacto do Fed e de sanções americanas ao PCC, a bolsa brasileira ensaiou retomada amparada pelo Goldman Sachs, mas o giro 16,7% abaixo da média travou o índice em um cabo de guerra

O segundo semestre começou exatamente onde o primeiro terminou: testando os nervos dos investidores. No primeiro pregão de julho, o mercado doméstico operou em marcha defensiva nas primeiras horas, mas ensaiou uma reação ao longo da tarde.

- O Ibovespa, que chegou a tombar 1,3% na abertura e romper o piso psicológico dos 170 mil pontos, recuperou o terreno acima dos 171 mil pontos, fechando em leve queda de 0,2%. Na semana, perde 0,9%. No ano, defende ganho de 6,5%.

Como explica Igor Ribeiro, sócio e chefe de renda variável da Nippur, o movimento aconteceu a despeito de um volume financeiro fraco, reflexo de um fluxo estrangeiro ainda ausente, mas amparado por uma combinação de alívio externo e um voto de confiança de Wall Street.

- O volume financeiro da sessão estacionou em R$ 15,4 bilhões, um tombo de 16,7% quando comparado à média de R$ 18,5 bilhões registrada nos últimos 12 meses

O compasso das mesas de operação foi ditado diretamente de Portugal, durante o Fórum do Banco Central Europeu. Em sua primeira grande manifestação pública desde que assumiu o comando do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em maio, Kevin Warsh calibrou o discurso para evitar ruídos desnecessários.

Por um lado, jogou um balde de água fria em quem esperava pistas sobre um alívio iminente nos juros na reunião de julho, cravando que os preços nos EUA continuam "altos demais".

Por outro, foi justamente o seu aceno mais suave que ajudou a acalmar os mercados. Warsh ponderou que as expectativas e os riscos para a inflação caíram nas últimas semanas e que o Fed não quer "determinar as coisas em excesso".

Esse pragmatismo do chefe do Fed acabou pesando mais nas telas do que os dados do relatório ADP, divulgados mais cedo. A criação de 98 mil vagas no setor privado americano em junho veio abaixo do consenso de 110 mil, sinalizando perda de fôlego no mercado de trabalho.

Em tempos normais, o dado abriria espaço imediato para apostas de corte de juros. Hoje, porém, o mercado preferiu se apegar à postura de Warsh de manter a mente aberta.

O resultado foi uma pressão global do dólar, impulsionado pelo avanço do índice DXY frente a uma cesta de moedas, flertando com o patamar de R$ 5,20 na cena local e empurrando os juros futuros para cima.

- O dólar à vista encerrou em alta de 0,9%, a R$ 5,21. Na semana, a moeda americana sobe 0,8%. No ano até aqui, cede 5% frente ao real.

Se o cenário externo já refletia cautela, o ambiente doméstico ganhou uma camada extra de ruído geopolítico que potencializou o estresse do câmbio e dos juros.

O Departamento do Tesouro dos EUA anunciou sanções contra dois cidadãos e três empresas sediadas em São Paulo, acusadas de integrar uma rede de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) que movimentou mais de US$ 30 milhões em solo americano utilizando criptomoedas.

O movimento é o primeiro desdobramento após o governo americano classificar formalmente as maiores facções brasileiras como organizações terroristas globais.

Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, essa canetada do Tesouro americano ofuscou os fatores positivos que tinham potencial para dar fôlego à bolsa hoje.

O economista lembra que o ambiente era propício para um pregão mais otimista, respaldado pelo IPCA-15 recente, pela deflação do IGP-M na semana passada e pelo Caged vindo mais fraco, "trazendo um alento de que a economia está desacelerando e que talvez as perspectivas para a política monetária sejam mais suaves".

O anúncio, segundo Perri, trouxe o receio de que as sanções possam ir além dos alvos iniciais. “Isso traz uma preocupação para os mercados de que as sanções possam se estender, afetando, por exemplo, outros setores da economia ou setores mais amplos”.

O empurrão do Goldman Sachs

Se o cenário macro vindo de fora continuou complexo, o micro ganhou um importante aliado institucional. O Goldman Sachs divulgou relatório reiterando recomendação de compra para as ações brasileiras, cravando o país como o "mercado preferido dentro da América Latina".

Nos cálculos da equipe liderada por Sunil Koul, a bolsa brasileira negocia a um múltiplo de preço sobre lucro projetado de 8 vezes, um patamar considerado "barato" em relação às taxas de juros de longo prazo e aos padrões históricos - o que também foi endossado por Ribeiro, ao apontar que "temos estruturalmente uma bolsa brasileira barata".

O banco norte-americano ponderou que, embora a volatilidade possa a aumentar no segundo semestre com a proximidade das eleições, qualquer alívio na precificação dos juros deve favorecer as ações domésticas.

Para o curto prazo, a sugestão é focar em cíclicos de alta qualidade, como bancos, utilities, telecomunicações e algumas varejistas.

O posicionamento destoa do tom neutro adotado pelo banco para México e Colômbia, e serviu como um colchão de liquidez para interromper a sangria do Ibovespa após o susto da abertura.

O cabo de guerra na bolsa

Espremido entre a alta do dólar e o avanço dos juros futuros por aqui, o Ibovespa viveu um dia de forças anuladas.

Do lado positivo, o índice encontrou suporte nas exportadoras, que surfaram a valorização das commodities e a proteção cambial de um dólar mais forte.

O avanço do minério de ferro deu tração às siderúrgicas, com destaque para a Usiminas, enquanto a Suzano pegou carona no fôlego do setor de papel e celulose.

Do outro, os setores mais sensíveis à atividade doméstica reagiram à alta dos juros futuros. As ações de varejo sofreram uma queda generalizada, tendo a Magazine Luiza como o principal destaque negativo.

O mau humor também contaminou os papéis de utilities, com a Engie liderando as perdas das empresas de energia elétrica.

- Das 78 ações que compõem a carteira teórica do Ibovespa atualmente, 47 valorizaram hoje.

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