Vale-refeição não é dinheiro?

Vale-refeição não é dinheiro?

Vale-refeição não é dinheiro?

A contabilidade mental nos faz atribuir valores diferentes ao mesmo dinheiro

Atualizado

Essa é a história de duas amigas que chamarei de Ingrid e Thais. Ingrid é uma executiva bem remunerada de uma empresa multinacional, já Thais é uma empreendedora que há alguns anos, aproveitando sua dupla cidadania portuguesa, mudou para Portugal para empreender.

Após alguns anos de sucesso, a saudade da família e dos amigos se juntou às dificuldades do empreendimento e Thais decidiu retornar ao Brasil. Ainda sem emprego definido, mas com algumas conversas em aberto, ela resolveu voltar a São Paulo e reconstruir vínculos e recomeçar sua jornada profissional.

Após o contato de Thais, as amigas resolveram agendar um almoço para botar o papo em dia e, também, para que Ingrid pudesse entender o contexto e buscar formas de ajudar na recolocação da amiga. Marcaram, então, em um restaurante italiano nos Jardins para conversar, comer uma massa e tomar um vinho.

Na hora de pagar a conta, Ingrid se prontificou a pagar o total , ao que Thais protestou dizendo que não seria necessário e nem justo, ao que Ingrid argumentou que pagaria com seu vale-refeição. Após alguns segundos de conversa, ambas concordaram que como a conta seria paga em vale-refeição, não teria problema, ou seja, não pesaria para Ingrid.

O que temos aqui é um caso típico de contabilidade mental, quando administramos nosso orçamento por meio de uma espécie de armário com várias gavetas nas quais alocamos as receitas e despesas. Por exemplo, o dinheiro do bônus é para trocar de carro, despesas supérfluas devem ser pagas com cartão de crédito etc.

Para a teoria econômica o dinheiro é fungível, ou seja, ele é plenamente intercambiável de modo que uma nota de R$ 100 é igual para qualquer um de nós. Ele compra a mesma quantidade de bens e traz a mesma satisfação, ou utilidade, independentemente da compra ser feita em dinheiro ou em cartão.

Mas Ingrid e Thais não pensaram desta forma. Para elas, um valor pago em vale-refeição é diferente do mesmo valor pago em dinheiro. Elas não enxergaram o dinheiro como fungível, como se o valor gasto hoje no cartão não pudesse ser utilizado em outra despesa ou não fosse reduzir a disponibilidade para outras despesas.

O conceito de contabilidade mental (mental accounts) foi originalmente cunhado pelo economista Richard Thaler, um dos pais da economia comportamental, laureado com o prêmio Nobel de economia em 2017.

Um dos exemplos mais conhecidos sobre contabilidade mental em finanças comportamentais é o comportamento bastante comum entre as famílias que costumam ter metas de poupança e, diante de dívidas mais elevadas, preferem manter seus aportes e tomar um dinheiro emprestado, mesmo sendo este último mais caro do que a remuneração do investimento. Uma variante deste comportamento é preferir pegar o empréstimo a sacar os recursos investidos.

Alguns experimentos sobre contabilidade mensal mostram que costumamos atribuir um valor diferente ao dinheiro.

Imagine duas situações. Na primeira, você acordou hoje pela manhã e descobriu que perdeu um ingresso de R$ 100 para uma peça de teatro que será encenada à noite e na segunda a sua descoberta é que a perda foi de uma nota de R$ 100 que estava na sua carteira.

Os resultados destes tipos de teste indicam que aqueles que perderam o ingresso tem menor probabilidade de comprar outro do que os que perderam o dinheiro. Embora estejamos falando dos mesmos R$ 100, afinal esse foi o valor desembolsado na compra do ingresso, parece que os primeiros sentem mais a dor da perda e, portanto, são menos propensos a gastar em um novo ingresso.

Outros exemplos de contabilidade mental foram encontrados em experimentos sobre heranças. Thaler documentou evidências de que pequenas heranças costumam ser gastas em consumo do dia a dia enquanto as grandes são investidas. A despeito de não haver diferença na natureza do dinheiro, apenas na escala, ele mais uma vez foi visto como não fungível, a contabilidade mental fez com que fosse compreendido e utilizado de forma diferente.

Outros exemplos foram colhidos nos cassinos de Las Vegas. A análise do comportamento dos jogadores indicou um claro viés denominado de dinheiro da casa (house money effect) em que a propensão para apostar os valores ganhos em algumas rodadas recentes (dinheiro da casa) é maior do que para se apostar o dinheiro “próprio”. Ou seja, os jogadores assumem um risco maior quando percebem as quantias como se não fossem suas, ou tenham vindo “de graça”.

Ingrid não percebeu o aspecto da fungibilidade do dinheiro e tomou uma decisão orientada pela contabilidade mental. Ela não percebeu que o crédito utilizado no vale-refeição tem um custo de oportunidade, ou seja, poderia usá-lo em qualquer outra compra, afinal quanto melhor utilizar este crédito mais recursos sobram, ou estariam livres, para outras despesas.

As próximas duas semanas saio para uns dias de descanso. Dia 22/07 estarei volta.

Hudson Bessa é economista, sócio da HB Escola de Negócios e da Spot Capital Consultoria de Investimentos e professor na Administração da ESPM-SP.

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