
Após dias difíceis, Ibovespa encontra alívio nos EUA e quebra jejum em julho
Saldo do Dia: O mercado de trabalho americano mais fraco deu o norte para a primeira alta da bolsa brasileira na semana, mas a rotação de gigantes da tecnologia em NY e um leilão do Tesouro Nacional seguraram o rali da abertura
O aguardado relatório de emprego de junho nos Estados Unidos (o payroll) entregou exatamente o que os investidores queriam ver: sinais de resfriamento na maior economia do mundo, tirando a urgência de uma postura mais dura do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
O Ibovespa pegou carona no rali internacional e subiu firme nas primeiras horas de negócios, buscando quebrar a sequência negativa da semana e ensaiando sua primeira sessão positiva no mês.
O alívio técnico, contudo, perdeu tração ao longo da tarde. Os operadores viram o otimismo da abertura ser contido por um duplo vento contrário: uma forte rotação de carteiras que azedou as bolsas de Nova York e o impacto do leilão de títulos prefixados do Tesouro Nacional por aqui.
- No fim da sessão, o Ibovespa subiu 0,6%, nos 172.788 pontos. Na semana, cai apenas 0,3%. No ano, a carteira mais famosa do Brasil avança 7,2%.
- Das 79 ações que fazem parte da carteira teórica do Ibovespa atualmente, 64 subiram na sessão de hoje.
A reviravolta nas apostas do Fed
O chacoalhão nos dados de emprego mudou a dinâmica das negociações nesta quinta-feira. Os EUA criaram apenas 57 mil postos de trabalho no mês de junho, número muito inferior à estimativa mediana de 113 mil vagas.
Para completar, o relatório trouxe revisões para baixo nos meses anteriores, cortando 74 mil vagas dos saldos de abril e maio.
A leitura foi a de que o presidente do Fed, Kevin Warsh, perdeu o principal argumento para manter a sinalização de novas altas de juros no curto prazo.
Segundo dados do monitor FedWatch do CME Group, as chances de um aumento nos Fed Funds agora em julho foram praticamente sepultadas.
"O payroll de maio dava cobertura para Warsh manter juros ou subir. O de junho tira. E a inflação não cedeu", pontua José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos. Ele destaca que uma "atividade enfraquecendo com preços ainda pressionados não é o tipo de cenário que se resolve com uma direção só".
Essa complexidade dividiu o humor dos especialistas sobre o destino dos juros em 2026.
Do lado mais duro (hawkish), economistas do C6 Bank avaliam que, como o mercado de trabalho segue firme e a inflação continua elevada, o Fed ainda deve voltar a subir os juros este ano.
Em contrapartida, analistas que apostam em juros inalterados durante o verão americano lembram que a perda de ritmo nas vagas torna novos aumentos improvável no curto prazo.
No entanto, como destaca Edgar Araujo, presidente da Azumi Investimentos, a queda da taxa de desemprego para 4,2% precisa ser vista com cautela, porque veio acompanhada de um recuo na participação da força de trabalho, indicando que parte da melhora está ligada a menos pessoas procurando emprego.
“O mercado de trabalho já mostra fissuras, mas ainda não enfraqueceu o bastante para garantir uma virada clara na política monetária. Para os ativos de risco e mercados emergentes, incluindo o Brasil, isso tende a manter a volatilidade elevada”, afirma Araujo.
Esse recuo nas expectativas esvaziou a força do dólar em escala global. O índice DXY, que mede a força da moeda frente a uma cesta de moedas, cedeu 0,56%, para 100,85 pontos.
Por aqui, o movimento lá fora ecoou na abertura, mas a moeda brasileira encontrou dificuldades para sustentar uma valorização consistente, deixando a cotação praticamente estável no fim do dia.
- O dólar comercial encerrou com uma leve baixa de 0,03%, cotado a R$ 5,2078. Na semana, sobe 0,8% e, no mês, avança 0,9%. No ano, a moeda americana cai 5,1%.
Se o cenário macro vindo dos EUA deu um refresco inicial, a calmaria durou pouco por conta de uma virada tática em Wall Street e de ruídos na renda fixa local.
Nos mercados americanos, os papéis de tecnologia, especialmente os ligados aos segmentos de chips e memória que vinham ditando os recordes recentes, passaram por uma realização de lucros, migrando o fluxo para setores que estavam ficando para trás.
O movimento contaminou o humor global e segurou a arrancada das ações brasileiras.
No cenário doméstico, a pressão que sepultou de vez o rali da manhã veio diretamente da curva de juros futuros.
As taxas, que haviam recuado na primeira hora coladas nos títulos americanos (Treasuries), viraram para uma alta generalizada, com destaque para o movimento mais forte dos vértices longos.
O gatilho para essa virada foi o Tesouro Nacional em seu leilão de prefixados. O edital ofertou um lote robusto de 23,65 milhões de papéis.
Embora todos tenham sido absorvidos pelos participantes do mercado, o volume financeiro e o risco adicionado ao mercado vieram acima do que as mesas de operação projetavam, forçando os agentes a recomporem prêmios na renda fixa e apagando o alívio que marcou o início do dia.
- A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,025% para 14,035% no fim da sessão. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic;
- No médio prazo, a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 subiu de 14,26% para 14,385% no fim da sessão;
- A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2031 saltou de 14,345% para 14,49% no fim da sessão. Vencimentos mais longos refletem uma maior preocupação com o prêmio de risco e as incertezas fiscais do governo.
O volume de negociações continua relativamente baixo na B3, sinalizando que o fluxo gringo prefere não se arriscar no momento, mesmo com o diferencial de juros (carry trade) do Brasil atraente.
Para João Daronco, analista da Suno Research, esse comportamento apático da bolsa brasileira reflete uma mudança estrutural no fluxo global.
O especialista avalia que aquela grande onda de otimismo que empurrava os investidores para mercados emergentes e commodities passou, deixando os investidores focados nos EUA.
"A toada de hoje segue muito o que temos visto no último mês inteiro. Uma oscilação mais tranquila, sem grandes movimentos, como se o mercado estivesse em um modo standby esperando para ver o que vai acontecer", avalia Daronco.
- O giro financeiro da sessão foi de R$ 13,9 bilhões, 25% abaixo da média de R$ 18,5 bilhões registrada nos últimos 12 meses.
Ações negociadas em 02/07/2026