
O futuro do Pix e os riscos que o Brasil evita discutir
Todos defendem o sistema e celebram seus números, mas poucos discutem suas contradições
Atualizado
Há algo quase cínico no debate brasileiro sobre o Pix. Todos defendem o sistema e celebram seus números, mas poucos discutem suas contradições. O Pix virou um patrimônio nacional instantâneo, mas é preciso discutir suas consequências nem sempre convenientes.
Esse talvez seja um dos principais vieses cognitivos do debate econômico recente. Enxergamos facilmente o sucesso visível, mas subestimamos os riscos que o acompanham. O Pix se tornou tão cotidiano que parece apenas uma conveniência tecnológica, quando na verdade é uma infraestrutura econômica crítica.
Os números mostram a dimensão da mudança. Em 2024, o Pix processou 63,5 bilhões de pagamentos e transferências, movimentou aproximadamente R$ 26,4 trilhões, integrou 876 provedores de conta de pagamento e alcançou 163,4 milhões de usuários. Mais de 70 milhões de brasileiros fizeram sua primeira transferência bancária por meio do Pix. O uso de papel-moeda caiu de 83,6% dos brasileiros em 2021 para 68,9% em 2024, enquanto a parcela que usava dinheiro como meio de pagamento mais frequente recuou de 42% para 22%.
Esses e outros resultados aparecerão em capítulo que fui convidado a escrever para a segunda edição de Disruptive Technology in Banking and Finance: An International Perspective on FinTech, organizada pelo professor Timothy King, da University of Vaasa, e publicada pela Palgrave Macmillan, do grupo Springer Nature, com lançamento previsto para dezembro.
A conclusão central é clara: o Pix produziu uma ruptura estrutural no ecossistema brasileiro de pagamentos. No estudo, mostramos que antes do Pix a série mensal de transações apresentava tendência quase plana, típica de um sistema maduro e com crescimento limitado. Após sua implementação, houve uma mudança abrupta e persistente de patamar.
A análise econométrica também sugere impacto real sobre a economia. Usando dados mensais de março de 2012 a agosto de 2025, encontramos efeito positivo e estatisticamente significativo do Pix sobre o empreendedorismo, medido pela razão entre trabalhadores autônomos e a força de trabalho total. Mesmo controlado pelo ciclo econômico, pela taxa básica de juros e pelo total de transações no sistema de pagamentos, o efeito permanece positivo. A taxa de juros, como esperado, aparece com efeito negativo, ao restringir crédito e aumentar fricções para quem empreende.
O Pix reduziu custos de transação, ampliou inclusão financeira, acelerou pagamentos, fortaleceu pequenos negócios e ajudou a formalizar parte da vida econômica. Ao lado da Índia, como UPI, o Brasil se tornou um dos principais casos mundiais de pagamentos instantâneos em economias emergentes.
Mas finanças exigem avaliar ganhos e riscos simultaneamente.
Na ponta dos problemas vemos um crescimento das fraudes. Dados divulgados na imprensa, com base em informações obtidas via Lei de Acesso à Informação, indicam que golpes identificados pelo Banco Central somaram R$ 6,5 bilhões em 2024. A devolução efetiva foi de cerca de R$ 459 milhões, aproximadamente 7% do valor movimentado em golpes financeiros, roubos de conta e extorsões. Em termos relativos, isso pode parecer pequeno diante de bilhões de transações; em termos humanos, é gigantesco.
O Pix é um tema sério, mas a captura do debate pela polarização política pouco contribui para avaliar uma infraestrutura já central para a economia brasileira.
O Pix produziu ganhos expressivos de inclusão, eficiência e empreendedorismo. Mas sua escala exige uma mudança de fase. Mas como avançar sem se discutir de forma séria seus custos e benefícios? Inclusive suas implicações para educação financeira e impactos nas bets. É um debate que precisa de menos riso e mais seriedade.
Claudio de Moraes é professor e pesquisador do Coppead, especialista em capital bancário, com artigos publicados em diversos periódicos internacionais. Atua no Banco Central do Brasil na área de estabilidade financeira.