
Tesouro Direto: depois de recordes em junho e ‘febre’ de IPCA+, como investir no segundo semestre?
Em mês conturbado para os títulos públicos, taxas dispararam e investidores pessoas físicas fizeram a festa. O cenário de juros continua incerto no segundo semestre, mas a maioria dos investidores já prevê que o ciclo de cortes na Selic não deve durar muito mais
O primeiro semestre foi agitado para praticamente todos os ativos, sem exceção, com uma guerra no caminho, inflação acelerada e mudanças nas trajetórias de juros das principais economias do mundo. No caso do Tesouro Direto, porém, a maior das surpresas ficou guardada para junho. Uma combinação de fatores fez as taxas negociadas saírem, nesse período, de 13,94% para 15% nos prefixados, e de IPCA+ 7,86% para IPCA+ 8,48% ao ano nos atrelados à inflação, níveis recordes.
É consenso entre analistas que há uma excelente oportunidade nos títulos do Tesouro IPCA+, à medida em que as taxas atingiram as máximas históricas e é pouco provável que elas se mantenham nesse patamar por muito tempo. Com ganhos reais travados acima dos 8%, o investidor que mantiver os títulos até o vencimento recebe uma dupla proteção: contra os riscos de a inflação subir – o que consome o rendimento real dos demais títulos - e de a Selic cair – o que diminui o rendimento nominal.
Por que os juros dispararam em junho?
Definir uma boa estratégia para investir em títulos públicos passa por entender qual é o momento do ciclo de juros que a economia se encontra, na avaliação de Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset. O problema é que, depois de convivermos com a Selic a 15% por período prolongado, o ciclo de cortes mal começou e já pode estar prestes a terminar. Isso explica a forte volatilidade dos juros no curto prazo e porque as taxas dispararam em junho. Foi justamente quando o mercado passou a duvidar de novos cortes na taxa Selic.
Na avaliação da especialista em renda fixa da Empiricus, Laís Costa, dois motivos explicam a disparada dos retornos do Tesouro Direto em junho. O primeiro foi o governo entrar em “modo eleitoral”, com novas medidas anunciadas semana após semana com peso sobre o gasto público. O segundo foi o fluxo de ativos em direção aos Estados Unidos, a partir da elevação do nível de juros nos Estados Unidos. Quanto menor é o diferencial de juros entre um país e os EUA, menos atrativo os títulos se tornam.
Além disso, muitos grandes atores do mercado reagiram às incertezas elevadas, em razão da guerra, com uma preferência por liquidez, o que afastou a demanda por títulos atrelados à inflação, associados à proteção de longo prazo, mas à volatilidade no curto. Tanto que, em 9 de junho, o Tesouro realizou um leilão no qual dos R$ 151 milhões de títulos atrelados à inflação ofertados, apenas 70% foram vendidos. E as taxas eram IPCA+ 8,53%.
Essa falta de demanda dos peixes grandes fez as taxas subirem tanto que passaram a atrair os pequenos. No mesmo período, o volume de vendas de títulos do Tesouro IPCA+ para investidores pessoas físicas disparou e chegou, em alguns dias, a superar as vendas de Tesouro Selic.
Para onde vão os juros no segundo semestre?
O IPCA-15 de junho trouxe um dado mais benigno do que as leituras anteriores, com desaceleração da inflação em relação a abril. O dado auxilia a decisão do BC de realizar mais um corte de juros, mas não teve a magnitude necessária para mudar o fato de que a inflação superou em muito a meta e os juros precisam ser calibrados para atacar esse problema, afirma Laís Costa.
Por isso, o cenário previsto é que o Banco Central deve realizar mais um corte na Selic em agosto, mas a partir de setembro o ciclo de cortes deve ser interrompido. Com isso, a Selic ficaria estacionada em 14%. No início do ano, as previsões eram em torno de 13% e os mais otimistas falavam até de 12% ao ano. Para Costa, o ciclo possivelmente mais curto do que antecipado tem como principal motivo a guerra no Irã. Apesar do fim do conflito e os preços do petróleo terem caído com as negociações entre EUa e Irã, os efeitos secundários - sobretudo sobre preços de energia e logística - devem ser sentidos até o final do ano que vem.
A leitura de inflação elevada e revisão das expectativas de juros também compõem a análise da EQI Research. A casa revisou a previsão para a taxa básica de juros em 2026 para cima, mas mais pessimista do que Empiricus, vê os juros em 14,25% ao ano ao final do ano - ou seja, onde está agora.
Como investir no segundo semestre?
Empiricus e EQI Research avaliam que a melhor oportunidade neste momento estão nos títulos Tesouro IPCA+. Estudos recentes conduzidos pela EQI mostram que, no médio e longo prazo, taxas como as pagas atualmente tendem a superar a Selic. Mais exatamente, os títulos com vencimento intermediário (como o Tesouro IPCA+ 2032) reduz a sensibilidade das oscilações das taxas de juros e ao risco fiscal doméstico, o que proporciona uma relação mais equilibrada entre risco e retorno.
Com a Selic mais alta do que previsto anteriormente, os rendimentos do Tesouro Selic continuam “bastante interessantes em termos históricos”, avalia a EQI. Mesmo o cenário para o ano que vem prevê um ciclo de afrouxamento monetário limitado, com a Selic encerrando o ano em 12,5%. A casa espera retorno real entre 8% e 9% ao ano nesses títulos. Além disso, esses títulos tem boa liquidez e preços estáveis, o que contribui para reduzir a volatilidade da carteira no ambiente atual, de elevada incerteza.
No caso dos prefixados, apesar do nível nominal elevado, a avaliação da EQI é que a relação risco retorno desses títulos não é a mais atrativa, e ela não recomenda os papéis. Mesmo pagando muito, o risco inflacionário torna eles menos atrativos do que o Tesouro IPCA+, que protege contra a inflação e entrega bom retorno de longo prazo.