
Dow Jones fica mais 'tech' com Google e pode ganhar atratividade para ETFs
Índice da bolsa de Nova York criado em 1896 passa a reunir cinco das chamadas Sete Magníficas e reforça exposição à inteligência artificial e à economia digital
O índice mais tradicional de Wall Street está ficando cada vez menos "industrial". A entrada da Alphabet, controladora do Google, do YouTube e do Gemini, no Dow Jones Industrial Average (DJIA), da Bolsa de Nova York (Nyse), marca mais um passo na transformação da carteira criada em 1896 para representar a economia americana.
A atualização também pode aumentar o interesse de investidores por produtos ligados ao Dow Jones. Embora o indicador ainda tenha um mercado de ETFs bem menor do que o S&P 500 e o Nasdaq, a entrada de empresas que lideram a corrida por inteligência artificial aproxima o índice da composição atual da economia americana e pode reforçar sua atratividade para gestoras e investidores que buscam exposição às maiores companhias dos Estados Unidos.
A estreia da Alphabet, na semana passada, foi bem recebida pelo mercado. As ações da companhia avançaram quase 5% no primeiro pregão após a inclusão no índice e o Dow Jones renovou sua máxima histórica acima dos 52 mil pontos.
Essa atualização pode tornar o Dow Jones mais atrativo para produtos financeiros ligados ao índice. Ainda assim, ele segue como uma espécie de “primo pobre” entre os grandes índices americanos nesse mercado.
Enquanto o S&P 500 e o Nasdaq contam com uma prateleira ampla de fundos negociados em bolsa, os ETFs, o Dow Jones tem uma oferta muito mais restrita. O principal ETF que replica o índice nos Estados Unidos é o SPDR Dow Jones Industrial Average ETF Trust, conhecido pelo código DIA, da State Street.
Na Europa, há produtos da BlackRock, como o iShares Dow Jones Industrial Average UCITS ETF. Esses produtos são acessíveis ao investidor brasileiro que possui conta global ou internacional. Na B3, ainda não estão disponíveis ETFs ou BDRs de ETFs que poderiam ser comprados por meio das plataformas tradicionais.
Criado há 130 anos, o Dow Jones é um dos índices mais antigos do mundo e reúne apenas as 30 empresas consideradas as mais representativas da economia americana, acompanhando companhias de praticamente todos os setores, com exceção de transporte e serviços públicos (utilities), que possuem índices próprios.
A Alphabet ocupou o lugar da Verizon, do setor de telecomunicações, o que ajuda a explicar como a maior economia do mundo mudou nas últimas décadas. Segundo comunicado da S&P Dow Jones Indices, responsável pelo indicador, a dona do Google amplia a exposição do índice a segmentos como inteligência artificial, computação em nuvem, publicidade digital, hardware, mobilidade autônoma, tecnologia para saúde e distribuição de mídia, tornando a carteira mais representativa do que está dominando os mercados.
Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, a troca acompanha a mudança do perfil da estrutura de produção americana. "A decisão de incluir a Alphabet e retirar a Verizon ocorreu para mitigar a perda de representatividade de um constituinte enfraquecido e, ao mesmo tempo, alinhar o índice à nova infraestrutura de inteligência artificial e computação em nuvem", afirma.
Outro fator pesou na decisão: diferentemente do S&P 500 e do Nasdaq, o Dow Jones não é ponderado pelo valor de mercado das empresas, mas pelo preço de suas ações.
Na prática, papéis com preço mais baixo acabam exercendo pouca influência sobre o desempenho do índice, mesmo que pertençam a empresas de grande porte. Era o caso da Verizon. Segundo a S&P, a operadora representava apenas 0,5% do Dow Jones porque suas ações negociavam em torno de US$ 44. Com ações negociadas perto de US$ 350, a Alphabet passou a ter um peso estimado em cerca de 4% no Dow Jones, aproximadamente oito vezes superior ao que a Verizon exercia antes da substituição.
Com a mudança, o índice passa a reunir cinco das companhias chamadas "Sete Magníficas". A escolha gerou uma dúvida no mercado: por que a dona do Google entrou antes da Meta, dona do Facebook, Instagram e Whatsapp, ou da Tesla, a montadora de carros elétricos de Elon Musk?
Segundo Paula, o próprio modelo de cálculo do Dow Jones explica parte da decisão. Como o índice é ponderado pelo preço das ações, papéis com cotações muito elevadas podem concentrar peso excessivo na carteira.
As ações da Meta, por exemplo, negociavam acima de US$ 560 na data da mudança. "Caso a Meta fosse adicionada hoje, ela exerceria uma influência desproporcional sobre o índice, superando pesos pesados dos setores financeiro e industrial e distorcendo a representatividade da carteira", explica.
Ela lembra que esse tipo de preocupação já influenciou outras decisões do comitê responsável pelo Dow Jones. A Nvidia, por exemplo, só passou a integrar o índice após realizar um desdobramento de suas ações.
No caso da Tesla, que registrava suas cotações nominais em uma faixa adequada para a mecânica de preços do Dow Jones, segundo Paula, a exclusão baseia-se em incompatibilidades de classificação setorial. “O sistema de classificação gerido pela S&P Dow Jones a enquadra no setor de Bens de Consumo Discricionário devido à sua atividade principal de fabricação de veículos, e este já é um segmento bem representado no Dow Jones”, afirma.
Além disso, o perfil de volatilidade de seus resultados operacionais da Tesla é um empecilho, já que o índice prioriza companhias com fluxo de caixa mais estável e geração recorrente de valor, pontua Paula.
Apesar de ter perdido fôlego nos últimos meses, a Alphabet segue entre as empresas que mais geraram valor aos investidores em um horizonte de um ano, segundo Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue. Esse desempenho foi impulsionado principalmente pelos avanços da companhia em inteligência artificial, como o Gemini, e pelo lançamento de novos produtos e funcionalidades.
Para Yamashita, outro diferencial da Alphabet é a diversificação de suas fontes de receita. "Quando pensamos na Alphabet, muita gente lembra apenas do Google, mas a companhia reúne diferentes linhas de negócio, como Google Search, Google Cloud, Drive, com assinaturas e outros serviços. Essa diversificação é uma das características consideradas pelo índice", afirma.
Composição do Dow Jones