
Mais que proteger a carteira, ouro supera o Ibovespa e a Selic em 10 anos, mostra levantamento
Metal registrou a maior valorização entre os principais ativos financeiros de 2015 a 2025, em meio a juros altos, volatilidade da bolsa e à busca por proteção patrimonial, aponta estudo da Ourominas
O ouro é recomendado por assessores de investimentos como um ativo de proteção das carteiras frente à inflação e à volatilidade dos ativos financeiros, mas uma análise do seu desempenho frente a outras opções de investimentos nos últimos dez anos mostra um mérito muito além do aspecto defensivo. Ele teve a maior valorização quando comparado com o Ibovespa, CDI, dólar e poupança entre 2015 e 2025, segundo levantamento da Ourominas. No período, o metal acumulou ganho de 253,8%.
A janela analisada encerra ciclos muito distintos da economia brasileira e global, que incluíram recessão, pandemia, inflação elevada, juros altos, conflitos geopolíticos e mudanças bruscas no câmbio. Enquanto o vaivém trouxe anos bons e ruins para os diferentes classes de ativos, o ouro manteve retornos razoáveis em períodos de expansão do mercado, e altas expressivas em anos de maior aversão ao risco — caso de 2020, quando subiu 49,1%, de 2024, quando avançou 60%, e de 2025, quando registrou 46,9%.
Comparativo entre investimentos
Recentemente, o metal tem registrado perdas sucessivas frente a um dólar momentaneamente mais forte. Ele acumula queda no ano de 6,9%, de acordo com preços à vista negociados em Londres. Juros elevados nos Estados Unidos tornam o metal precioso menos atrativo como reserva de valor. Além disso, maior parte da demanda que sustentou os preços desde 2024 foi de economias emergentes, seja de bancos centrais ou de fundos listados em bolsa (ETFs, na sigla em inglês). Quando o dólar sobe, o custo de aquisição do ouro aumenta, o que também diminui sua atratividade.
Mudança no comportamento do investidor
Para a Ourominas, o resultado do levantamento reforça uma mudança no comportamento do investidor brasileiro. Antes visto por muitos como um ativo distante ou restrito a grandes patrimônios, o ouro ganhou espaço como instrumento de diversificação em carteiras de pessoas físicas, sobretudo em períodos de instabilidade econômica. A leitura, segundo a empresa, não é de substituição da renda fixa, da bolsa ou do dólar, mas de complementaridade.
Em um período em que o CDI entregou 108,4% e o Ibovespa teve anos fortes, mas também quedas relevantes, o metal se destacou por responder a fatores diferentes dos ativos tradicionais.
“O ouro costuma ganhar relevância quando o investidor percebe que rentabilidade não depende apenas de buscar o maior retorno, mas de proteger parte do patrimônio contra cenários que ele não controla, como inflação, câmbio, juros internacionais e tensão geopolítica”, disse Olivia Goldstein, diretora financeira da Ourominas.
“O levantamento mostra que, em dez anos, essa proteção também veio acompanhada de valorização expressiva."
Bem real e reserva de valor
A comparação ajuda a explicar por que o ouro físico voltou ao radar em um ambiente de maior sofisticação financeira. Diferentemente de ativos atrelados a emissores, instituições ou empresas, o ouro é um bem real, reconhecido internacionalmente e historicamente associado à preservação de valor. Quando comprado com procedência, certificação e estrutura adequada de liquidez, pode funcionar como reserva patrimonial em momentos de maior incerteza, afirmou a executiva.
Esse ponto ficou mais evidente em anos de choque. Em 2024, o ouro subiu 60%, enquanto o Ibovespa caiu 10,3%. Em 2020, no auge da pandemia, avançou 49,1%, acima do dólar, que teve alta de 29,4%, e muito distante da poupança, que rendeu 2,11%.
Proteção não dispensa planejamento
O avanço do metal, porém, não elimina a necessidade de planejamento. O ouro também oscila, pode ter anos negativos e exige avaliação sobre prazo, percentual da carteira, forma de aquisição, custódia e liquidez. Ainda assim, o desempenho acumulado na década coloca o ativo em posição difícil de ignorar no debate sobre proteção e diversificação.
“O investidor não deve olhar para o ouro apenas quando ele já está em alta. A função mais importante do metal é estratégica”, afirmou Olivia. “Ele precisa entrar na carteira com disciplina, dentro de uma política de diversificação, porque seu papel é reduzir a dependência de um único mercado, de uma única moeda ou de um único ciclo econômico.”