
O fôlego de última hora que garantiu ao Ibovespa mais uma semana no azul
Saldo do Dia: O alívio vindo do mercado de trabalho americano mais fraco somado aos dados domésticos garantiu a reação de última hora que salvou a semana da bolsa brasileira
Após passar boa parte da semana sufocado pelo pessimismo que ronda as mesas de operação, o Ibovespa encontrou fôlego exclusivamente nas sessões de ontem e desta sexta-feira (3) para garantir um fechamento semanal positivo.
- Na semana, o Ibovespa subiu modestos 0,4%, nos 174.070 pontos. Na sessão de hoje, o índice avançou 0,7%. No mês, aprecia 1,2% e, no ano, 8%.
O consenso nas mesas de operação é que o giro financeiro mais baixo funciona como um megafone: qualquer movimento técnico ganha proporções maiores.
Sabendo disso, os operadores locais aproveitaram o ambiente para promover um alívio generalizado nos prêmios de risco que vinham sufocando a bolsa nos últimos dias.
- O volume financeiro registrado hoje, de R$ 9,4 bilhões, ficou 48,9% abaixo da média dos últimos 12 meses.
O movimento abriu espaço para as blue chips avançarem em bloco, com o setor bancário liderando a fila, enquanto Vale e Petrobras garantiram sustentação ao índice.
- Das 78 ações que fazem parte da carteira teórica do Ibovespa atualmente, 47 subiram e 31 caíram na semana.
O grande catalisador da virada de humor que garantiu o saldo semanal positivo foi um alinhamento de astros na agenda macroeconômica, combinando indicadores dos EUA e daqui.
O ponto de partida veio do relatório de emprego dos Estados Unidos, o payroll, divulgado ontem. Os sinais de esfriamento no mercado de trabalho da maior economia do mundo amenizaram as apostas de um aperto monetário mais severo por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, esse foi o verdadeiro divisor de águas da semana. "Os dados de mercado de trabalho nos EUA vieram abaixo do esperado, com uma criação de 57 mil vagas", comenta. Segundo ele, o indicador tirou a pressão sobre o banco central dos EUA em relação à dinâmica de juros por lá.
Sung pondera que, embora o mercado de trabalho nos EUA ainda siga resiliente e equilibrado, o alívio ganhou um reforço crucial dos preços do petróleo.
"O preço do Brent está em torno de US$ 70 a US$ 75, puxado pelo melhor fluxo de navios no Estreito de Ormuz e pela redução das tensões geopolíticas", destaca o economista da Suno, apontando que esse teto nos preços da energia acalmou o fantasma da inflação.
No Brasil, o empurrão final para o índice local veio de um dado que, em tempos normais, seria lido com pessimismo. A produção industrial de maio encolheu 0,2%, frustrando a projeção do mercado, que esperava uma alta de 0,3%.
Na lógica das mesas de juros, contudo, a fraqueza da atividade econômica foi recebida como uma boa notícia.
O indicador se somou ao IPCA-15 benigno e ao Caged fraco para dar uma sobrevida à tese de que o Comitê de Política Monetária (Copom) pode não precisar ser tão agressivo.
O dado acalmou os temores de um repique inflacionário e abriu espaço para o mercado cogitar um fôlego a mais no ciclo de corte da Selic.
Para consolidar o alívio, o secretário-executivo da Fazenda, Rogério Ceron, garantiu que o Tesouro Nacional está pronto para recomprar títulos públicos caso o mercado precise de uma porta de saída.
O aceno foi o remédio para acalmar o estresse que vinha rondando o mercado de títulos públicos nas últimas semanas, ajudando a derrubar as taxas dos juros futuros na sessão.
- A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 14,04% para 14,00%. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic;
- No médio prazo, a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 despencou de 14,40% para 14,25% no fim da sessão;
- Já a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2031 caiu de 14,51% para 14,38% no fim da sessão. Vencimentos mais longos refletem uma maior preocupação com o prêmio de risco e as incertezas fiscais do governo.
A descompressão de risco também chegou nas mesas de câmbio. O dólar, que vinha flertando acima dos R$ 5,20 ao longo da semana, perdeu tração e abandonou esse patamar.
- Com a forte queda da sessão, a moeda americana conseguiu encerrar a semana praticamente empatada, no zero a zero. No mês, o dólar tem alta irrisória de 0,1%. No ano, cede 5,8%.
Apesar da trégua, o Bank of America (BofA) jogou uma ducha de água fria no otimismo ao alertar que, embora a bolsa tenha barateado, os preços atuais ainda não configuram uma barganha clara diante da falta de gatilhos de curto prazo e de um Fed mais duro no horizonte.
Essa postura defensiva da casa também se reflete na visão sobre a política monetária doméstica.
Enquanto o mercado se anima com o recuo rápido nos preços do petróleo, a inflação cheia mais comportada e os dados fracos do Caged e da indústria - levando muitos agentes a apostarem que o Banco Central pode ter espaço para cortar a Selic em 0,25 ponto em agosto -, o BofA prefere manter uma postura mais defensiva.
O economista-chefe da instituição para o Brasil, David Beker, reconhece que a projeção de que não haveria mais cortes de juros neste ano passou a ser questionada pelo mercado em razão do tombo do petróleo.
No entanto, ele pondera que o descolamento das expectativas de inflação da meta exige cautela, especialmente após as medidas do governo para estimular o crédito e a demanda, exigindo uma postura mais restritiva para garantir a convergência da inflação.
Por essa razão, o BofA manteve a projeção de que a Selic deve fechar o ano mantida em 14,25%, estimando uma inflação de 5,5% para 2026.
A casa projeta o início de um ciclo de flexibilização apenas nos anos seguintes, com os juros em 13,25% para o próximo ano e 12,25% para 2028, o que abriria espaço para quatro cortes em cada período.
Ações negociadas em 03/07/2026