
Como os sonhos impactam a capacidade de se organizar financeiramente
Segundo neuroeconomista, os sonhos são “a chave do nosso comportamento” e podem moldar as recompensas oferecidas pelo nosso cérebro para cada hábito financeiro
Não é difícil encontrar quem já tenha sonhado com o que faria se ganhasse na Mega-Sena. Ou se, de alguma outra forma, se tornasse milionário da noite para o dia. Além de imaginar o dinheiro chegando à conta, muita gente consegue visualizar com riqueza de detalhes como viveria nessa nova realidade financeira. E a neurociência ajuda a explicar por quê.
O cérebro é responsável por diversas funções vitais, entre elas a capacidade de recompensar comportamentos por meio da liberação de neurotransmissores associados às sensações de prazer. Esse mecanismo tem impacto direto sobre a educação financeira porque, na prática, os sonhos funcionam como a projeção de um “futuro possível” — um cenário no qual a pessoa consegue se enxergar vivendo uma realidade que ainda não existe, mas que pode ser alcançada ou, ao menos, visualizada. É o que explica a professora de neuroeconomia da Fia Business School e fundadora da RTS Consultoria, Renata Saboia.
“A função da educação financeira é permitir que esse futuro possível aconteça. Ela é uma ferramenta para a prosperidade e o meio pelo qual você viabiliza os recursos necessários para chegar onde deseja”, afirma.
Dois conceitos ajudam a compreender essa relação: neuroplasticidade e flexibilidade cognitiva.
A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de criar novas conexões neurais. Já a flexibilidade cognitiva está relacionada à forma como respondemos aos diferentes desafios e estímulos ao longo da vida e nos adaptamos a diferentes situações e contextos.
Segundo Saboia, os sonhos são “a chave do nosso comportamento”.
“É o sistema emocional que dá o primeiro impulso para a direção que o nosso comportamento vai seguir”, explica.
E isso vale para todas as áreas da vida, inclusive para os objetivos financeiros.
“Quando a gente sonha, traduz em imagens simbólicas aquilo que deseja para o presente e para o futuro. É isso que nos dá força para correr atrás do que queremos.”
Há ainda uma região cerebral — o centro emocional — que não processa palavras, apenas imagens, e é responsável por atribuir, a essas imagens, símbolos e significados em tudo que vivemos. Esse processo influencia diretamente a formação e a manutenção dos hábitos.
- Na prática, uma compra que antes gerava satisfação — como adquirir uma camiseta nova — pode deixar de ser tão prazerosa quando o cérebro muda o significado daquele hábito para algo como "posso usar melhor esse dinheiro para me levar na direção do que eu quero, de fato".
A neuroeconomista explica que o envelhecimento também interfere nesse processo. Com o passar dos anos, o cérebro passa por adaptações constantes e recalibra referências que orientam decisões, hábitos e até os próprios sonhos.
“O cérebro aprende ajustando, o tempo todo, os seus pontos de referência. E isso muda a forma como enxergamos nossos sonhos e desejos”, afirma.
Nesse contexto, decisões financeiras deixam de ser avaliadas apenas pelo benefício imediato e passam a ser comparadas com objetivos de longo prazo.
“O cérebro pensa: ‘isso vai me ajudar a viabilizar o sonho de ter uma casa de praia no futuro’. E ele passa a compreender esse caminho”, exemplifica.
Por isso, segundo Saboia, a construção de sonhos detalhados e concretos é um passo importante para reorganizar a relação com o dinheiro. Ao visualizar objetivos futuros, a pessoa consegue reprogramar gradualmente seu sistema de recompensas, tornando mais fácil abrir mão de gratificações imediatas em troca de conquistas maiores no longo prazo.
“Os sonhos permitem incluir no cérebro hoje um espaço para aquilo - o objetivo - que ainda não existe hoje, mas que vai existir um dia”, finaliza ela.