
Lula envia observadores para audiências com EUA e aposta em negociação para reverter tarifa de 25%
Empresas e entidades brasileiras participam de reuniões públicas promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos
Por Sofia Aguiar, Valor — Brasília
Atualizado
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu enviar observadores às audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), que discutirão a investigação comercial americana que pode resultar na imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Na avaliação do governo, as audiências têm caráter técnico e não integram as negociações bilaterais já em curso entre Brasil e Estados Unidos.
Integrantes da gestão afirmam que a decisão de não enviar representantes com poder de negociação reflete o entendimento de que o Brasil já conseguiu estabelecer um canal direto de diálogo com a Casa Branca para tratar do tema. Para a gestão petista, as audiências são espaço para a sociedade e empresariado, apesar de elas serem monitoradas pelo governo.
A estratégia também evidencia um cálculo político e diplomático do governo brasileiro. A avaliação é que, enquanto Brasil e Estados Unidos mantêm canais de negociação abertos em torno das tarifas, declarações públicas e duras poderiam atrapalhar o diálogo. Segundo interlocutores do presidente, é possível transmitir a mesma mensagem por outros canais diretos e de forma mais polida.
Por conta disso, o foco da gestão Lula permanece nos canais de diálogo diretos com o governo de Donald Trump. Na semana passada, houve uma videoconferência entre auxiliares brasileiros e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Em nota, o governo brasileiro afirmou que as duas partes reconheceram a necessidade de aprofundar as negociações. Ainda há expectativa de uma nova agenda até dia 15 de julho — data prevista para a conclusão do processo administrativo da investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação americana.
Na rodada de conversas da semana passada, o governo brasileiro indicou a possibilidade de reduzir taxas para cerca de 300 linhas tarifárias, como em equipamentos e máquinas, a exemplo da área da saúde e tecnologia de informação. Ainda, apresentou aos Estados Unidos uma espécie de “mapa do caminho” para demonstrar o compromisso do Brasil com os temas levantados na investigação com base na Seção 301 e evitar a taxação de 25%.
Como mostrou o Valor, a avaliação do governo brasileiro é que as conversas avançam sem um horizonte claro, principalmente porque Washington ainda não indicou quais pontos estaria disposto a negociar. Sem sinalizações concretas da Casa Branca, interlocutores do Executivo avaliam que há pouco espaço para um acordo efetivo no curto prazo.