Você sabe o valor da sua carteira? Falta de transparência sobre preços na renda fixa acende alerta da Anbima

Você sabe o valor da sua carteira? Falta de transparência sobre preços na renda fixa acende alerta da Anbima

Você sabe o valor da sua carteira? Falta de transparência sobre preços na renda fixa acende alerta da Anbima

Mesmo obrigatória, marcação de títulos de renda fixa ainda é deficitária e há falta de padronização para definir o que é a probabilidade de perdas nesses papéis. Anbima e CVM discutem mudanças regulatórias

Imagine que você é um investidor experiente que, ao longo dos anos, comprou diferentes títulos de renda fixa – públicos e privados – com bons rendimentos em relação ao CDI. Um dia, decide transferir sua carteira para outra assessoria, mas, ao fazê-lo, descobre um prejuízo de 30% em relação ao que achava ter.

Não foram as taxas de serviço, e não houve fraude. Você foi vítima da marcação a mercado. "Nós tivemos um caso recente de uma carteira milionária transferida de outro escritório para cá, e a conversa com o cliente foi muito difícil”, conta Thiago Picanço, sócio e chefe da área de gestão de patrimônio da Reach Capital. “Não é fácil dizer ao cliente que aquele investimento que ele via na tela do celular como valendo R$ 10 vale, na verdade, R$ 4”, diz. O cliente perguntava: “eu estava vendo o saldo errado?” E a resposta é sim.

Os títulos de crédito têm sempre “dois preços”: o seu valor de face (ou na curva), e o seu preço no mercado (ou indicativo). O valor de face diz respeito a quanto o papel remunera ao investidor no vencimento, caso a empresa seja capaz de honrar a dívida. O preço de mercado diz quanto os outros investidores, de fato, aceitam pagar pelo título hoje, seja com um desconto ou com um acréscimo sobre o valor de face.

Entram na equação do preço de mercado um eventual risco de a empresa dar calote, o que pode fazer com que o preço caia, e muito. Afinal, se você carregar o papel até o vencimento, e a empresa não pagar, a perda pode ser de 100%.

“É como uma casa que você compra. Se a casa ao lado é invadida, se a rua fica cheia de buracos, a casa de R$ 1 milhão talvez passe a valer R$ 700 mil. Agora, se surge um parque na frente dela, pode ser que passe a valer R$ 1,1 milhão”, diz. Com os títulos de dívida, a lógica é parecida. Essa oscilação é natural e faz parte do funcionamento saudável do mercado. O problema é quando ela é ocultada do investidor.

“Foi uma das razões que esse cliente nos procurou. Ele percebeu que todos os dias abria o jornal e via problemas com uma empresa, mas o título que ele tinha na carteira dessa empresa não mudava de preço”, conta Picanço.

Há regras para a apuração e divulgação dos preços de mercado dos ativos de renda fixa, estabelecidas pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e válidas desde janeiro de 2023. É obrigatória a atualização dos preços pelas próprias assessorias pelo menos uma vez por mês, mas uma exceção foi incluída: se o investidor solicitar, e ele for qualificado – ou seja, com mais de R$ 1 milhão investidos –, pode ser exibido apenas o valor na curva.

É aqui onde reside um incentivo perverso, diz Picanço, no qual alguém leigo pode facilmente ser induzido ao erro. O investidor que nunca tinha visto a carteira de renda fixa subir e descer diariamente, se assusta com a marcação. O assessor o procura e diz que, com sua devida autorização, a carteira pode voltar ao modelo anterior. A ficha de investidor qualificado é autodeclaratória, sem necessidade de comprovar o valor mínimo de investimentos. Ele assina, e pronto.

“Pro assessor, ou consultor, é um sonho. Você dá uma rentabilidade de renda fixa com boas taxas e não precisa se preocupar com o noticiário, com a economia real. O cliente fica feliz e você continua vendendo outros produtos. Até ele perceber que perdeu dinheiro, mas você já ganhou um monte de dinheiro”, diz.

O que veio primeiro, o preço ou o calote?

A falta de transparência na renda fixa é ainda mais flagrante em relação a outro dado, cuja divulgação não só não é obrigatória, como não há ainda uma padronização de como calculá-lo. Trata-se da provisão de devedor duvidoso, ou PDD.

Quando o preço de um papel começa a cair ou ele simplesmente some do mercado secundário, o problema já existia. A queda de preço é, na verdade, um sintoma: de que há dúvidas sobre a capacidade do devedor honrar aquela dívida. Para Nathalia Machado Loureiro, cofundadora e codiretora executiva da Canal Securitizadora, o que tem acontecido é que os investidores só têm conhecimento de que uma empresa pode ser mau pagadora quando é tarde demais, e o mercado secundário já "secou".

Não existe hoje um padrão de mercado para calcular essa probabilidade de perda, tampouco uma regra que obrigue securitizadoras e gestores a reconhecerem o risco da mesma forma. É esse justamente o ponto em discussão em uma audiência pública promovida pela Anbima. Segundo ela, um guia da associação com diretrizes sobre o assunto deve ser publicado nas semanas seguintes, embora ainda não exista uma padronização em vigor de forma regulatória.

Anbima e CVM têm visitado securitizadoras ao longo dos últimos meses para entender como cada uma trata o risco internamente. A Canal Securitizadora recebeu uma dessas visitas em maio, quando os reguladores pediram acesso à política de PDD (provisão para devedores duvidosos) da empresa, o valor que uma gestora reserva reconhecendo que parte de um crédito pode não ser paga. O objetivo, segundo Nathalia, é aproximar o mercado de crédito privado de um modelo de análise mais uniforme, semelhante ao que o Banco Central já exige das instituições financeiras.

Enquanto isso avança, o mercado vive uma assimetria de informações entre os bolsos pequenos e os grandes. Se para gestores e securitizadoras o sinal de alerta aparece cedo, o mesmo não vale para o investidor de varejo, que não tem o mesmo acesso a recursos de inteligência de dados e aos bastidores do mercado.

A executiva contou que já viveu essa mesma defasagem de informação na própria carteira. Segundo ela, três ou quatro ativos ficaram inadimplentes nos últimos dois anos sem que houvesse fato relevante divulgado ou qualquer marcação de PDD que sinalizasse o problema com antecedência. As últimas demonstrações financeiras disponíveis, disse, não indicavam nada de anormal. Quando o mercado finalmente tomou conhecimento do calote, já não havia mais o que fazer com aquele papel.

Há uma resistência do mercado, na avaliação de Nathalia, que evita reconhecer a perda esperada de um ativo porque isso afetaria a cota de fundos de renda fixa, o que pode levar a resgates e a uma exposição indesejada dos gestores. Ela avalia, porém, que esconder informação tem um custo maior para a indústria a longo prazo do que o desconforto de expô-la. "Cada vez que você esconde a informação, mais difícil fica para o investidor voltar a confiar nesse mercado", afirmou.

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