
Como avaliar um gestor de private equity — as seis perguntas que separam habilidade de ciclo
Não existe fórmula infalível para escolher gestores. Existem padrões que ajudam a distinguir performance consistente de resultado dependente do contexto do ciclo
Atualizado
Na coluna anterior, mostrei que boa parte dos retornos globais de private equity do último ciclo veio de expansão de múltiplos e alavancagem barata, fatores que o ambiente atual de juros deixou de oferecer (bom, no Brasil nunca tivemos as mesmas condições favoráveis de outros mercados). Quando o vento muda, a diferença entre habilidade e sorte de ciclo fica mais visível. Para quem aloca capital, a questão é prática: como separar uma da outra antes de assinar um compromisso de dez anos? Os investidores institucionais mais experientes voltam sempre às mesmas seis perguntas. A mais difícil não é sobre números.
Não existe fórmula infalível para escolher gestores. Existem padrões que ajudam a distinguir performance consistente de resultado dependente do contexto do ciclo.
A primeira pergunta é direta: o gestor já devolveu dinheiro de verdade ao investidor?
No papel, quase todo portfólio parece bonito; retorno só se materializa quando vira liquidez. Por isso o DPI (a razão entre o que o fundo já distribuiu e o capital integralizado) ganhou protagonismo nas diligências, ao lado do TVPI (que soma às distribuições o valor ainda marcado em carteira) e do PME (que compara o resultado com o mercado público no mesmo período).
A distinção deixou de ser teórica. O Bain Global Private Equity Report 2026 estima US$ 3,8 trilhões em empresas compradas e ainda não vendidas nos portfólios de buyout (o espelho do dry powder que mencionei na coluna de maio: lá, capital esperando para entrar; aqui, ativos esperando para sair), com prazos médios de venda se aproximando de sete anos. Na América Latina, secundárias responderam por 28% das saídas no primeiro semestre de 2025, recorde da série da LAVCA, incluindo continuation funds — estruturas em que o ativo é transferido para um novo veículo gerido pela própria casa. Em muitos casos, isso preserva valor e alonga o horizonte de empresas de alta qualidade. Em outros, o investidor precisa avaliar se a transação reflete convicção ou um mercado pouco receptivo a saídas tradicionais. A diferença aparece na transparência da explicação.
A segunda pergunta: o gestor conseguiu repetir desempenho ao longo do tempo?
Aqui, um alerta que costuma surpreender. O estudo acadêmico de referência sobre persistência (Harris, Jenkinson, Kaplan e Stucke, publicado em 2023 com dados da Burgiss) encontrou pouca persistência em buyouts desde os anos 2000: saber que o fundo anterior terminou no primeiro quartil diz pouco sobre onde o próximo vai terminar. Em venture capital, a persistência segue forte. O histórico continua relevante; sozinho, porém, prediz menos do que se imagina. Timing de entrada, momento de saída e contexto de mercado pesam nos números de qualquer fundo. É justamente por isso que as perguntas seguintes, qualitativas, ganharam peso nas diligências institucionais.
A terceira: o gestor explica com clareza de onde veio o retorno dos investimentos anteriores?
Quanto veio de crescimento operacional, quanto de expansão de múltiplo, quanto de alavancagem? Os melhores gestores decompõem essa criação de valor com precisão e sem excesso de narrativa. A decomposição mostra domínio da própria estratégia e ajuda o investidor a avaliar o que é replicável num ciclo que paga menos por engenharia financeira.
A quarta raramente aparece fora das diligências institucionais: as pessoas continuam as mesmas?
Boa parte do ativo de uma gestora está na equipe: relações de originação construídas ao longo de anos, julgamento de investimento, execução. Quando sócios relevantes saem ou a dinâmica societária muda, o histórico deixa de ser indicador confiável do futuro. As cláusulas de key person existem para proteger o investidor exatamente desse risco.
A quinta: o gestor mantém disciplina quando o mercado fica competitivo demais?
Em ciclos de liquidez abundante, a pressão para investir rápido eleva preços e reduz seletividade. Gestores consistentes preservam a capacidade de dizer “não” — e perdem deals justamente porque se recusam a pagar qualquer preço. Evitar um investimento ruim vale tanto quanto encontrar um excelente.
A sexta é a mais qualitativa e, na minha experiência, a mais informativa: como o gestor fala dos investimentos que não deram certo?
Todo gestor acumula casos abaixo do esperado; faz parte de uma indústria construída sobre decisões de horizonte longo, tomadas sob incerteza. O ponto não é errar pouco. É entender por que errou e o que mudou depois. Os gestores mais maduros separam erro de tese, erro de execução e azar de timing, com menos defensividade e mais clareza analítica. Isso revela mais sobre a qualidade da casa do que o melhor case do portfólio.
No Brasil, a primeira pergunta é ainda mais discriminante. A porta de saída começou a destravar, como escrevi na abertura desta série, mas o sinal ainda é tímido: a única estreia na B3 desde 2021, a da Compass, veio em oferta secundária — sócios vendendo participação, não empresa captando recursos novos — e ainda não virou sequência. Os números dão a medida da defasagem: segundo a consolidação ABVCAP/TTR Data, os investimentos de private equity somaram R$ 15,9 bilhões nos nove primeiros meses de 2025, acima dos R$ 13,3 bilhões de todo 2024; as saídas, R$ 1,5 bilhão, contra R$ 10 bilhões em 2024. Capital entra; liquidez, por ora, sai pouco. Enquanto a Bolsa não sustenta uma sequência de ofertas, a liquidez vem de M&A estratégico, cada vez mais com compradores globais interessados nas plataformas que os fundos locais construíram na última década, e de secundárias. Começam a aparecer também saídas parciais, em que o gestor realiza parte do investimento e a companhia recebe capital novo para seguir crescendo — liquidez que devolve dinheiro ao investidor sem abrir mão do que ainda há de upside. O DPI, ainda assim, demora mais a se materializar aqui do que nos mercados maduros. Por isso ele diz mais sobre o gestor local do que qualquer múltiplo no papel.
Nenhuma dessas perguntas resolve sozinha uma decisão de investimento. Juntas, constroem algo mais útil do que um histórico de retornos: uma visão sobre como o gestor decide, atravessa ciclos e executa quando o ambiente deixa de ajudar. Pessoas e histórico, porém, são metade da diligência. A outra metade é estrutura: governança, alinhamento econômico, conflitos de interesse, duração dos veículos. Essa é a conversa da próxima coluna.
Marina Procknor é sócia do Mattos Filho e vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCap)