
Renúncia na Vale (VALE3) coloca governança em foco: qual o impacto na ação?
Analistas avaliam que impacto operacional tende a ser limitado, mas sucessão no conselho pode influenciar percepção do mercado sobre a mineradora
A saída de Daniel Stieler da presidência do conselho de administração da Vale (VALE3) abre uma nova etapa na disputa pela governança da mineradora. Para analistas, o impacto operacional da mudança tende a ser limitado. A definição de quem comandará o colegiado, no entanto, deve influenciar a percepção do mercado e, portanto, o rumo tomado pelas ações da mineradora.
A mudança foi antecipada por reportagem do Valor e confirmada pela companhia, ontem, após o fechamento do mercado.
A renúncia de Stieler, negociada nos bastidores após semanas de pressão da Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil (BBAS3), reacendeu entre investidores a preocupação com a influência de acionistas de referência sobre a governança da Vale. Desde a privatização, a companhia cultiva a imagem de gestão independente, e qualquer sinal de interferência política tende a ser recebido com cautela pelo mercado.
Para Pedro Galdi, da AGF, "o ponto central não é a saída de Daniel Stieler em si, mas quem o substituirá e por qual motivo". A AGE colocará frente a frente Ieda Gomes, candidata apoiada pela administração da companhia, e José Maurício Pereira Coelho, indicado pela Previ, para substituir Stieler.
Galdi avalia que a mudança tende a ter impacto limitado sobre a operação da mineradora, já que a condução dos negócios permanece sob responsabilidade do presidente-executivo, Gustavo Pimenta. Produção, custos e geração de caixa da companhia, segundo ele, não devem ser afetados pela troca no comando do conselho.
Ainda assim, o analista espera volatilidade adicional para as ações à medida que a disputa entre os grupos ligados à Previ e à administração da empresa se aproxima do desfecho.
Na avaliação de Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, a transição representa uma reorganização importante na estrutura de poder da companhia e tende a manter a governança no radar dos investidores. "O mercado reage a qualquer sinal de instabilidade quando se trata de governança, especialmente quando envolve disputas entre grandes acionistas."
Segundo Boragini, a disputa entre os nomes apoiados pela Previ e pela administração tende a gerar incertezas no curto prazo. "O efeito estrutural vai depender de quem será escolhido para liderar o conselho e de como essa transição será conduzida", afirma. "Se esse processo resultar em um conselho mais independente e alinhado às melhores práticas de governança, e o mercado tende a ver isso como positivo no médio prazo."
No pregão de ontem, o efeito imediato sobre as ações foi limitado. Os papéis da Vale acompanharam o movimento das demais "blue chips", como Vale e bancos, que sofreram com a saída dos investidores estrangeiros da bolsa rumo às ações das companhias de tecnologia nos EUA.