
Entre juros altos e páginas policiais, como escolher um CDB?
Especialistas explicam como analisar a instituição financeira, comparar rentabilidades e usar a proteção do FGC sem ignorar os riscos da aplicação
Em tempos de Selic em 14,25% ao ano, e prometendo não cair muito mais, a renda fixa segue atrativa e assim deve permanecer por bom tempo. Por outro lado, o noticiário policial não está muito amigável para os Certificados de Depósito Bancário (CDBs). Em tempos de Master, Wiil Banco e Digimais... Como aproveitar os juros altos sem medo de ficar a ver navios?
Nem todo emissor é igual
Guilherme Almeida, chefe de renda fixa da Suno, aponto como um dos erros mais comuns do investidor pessoa física concentrar a análise apenas em liquidez e rentabilidade.
"Hoje, o investidor pessoa física não olha para indicadores de qualidade do emissor, mas basicamente para rentabilidade e liquidez. Quando falamos de um título de renda fixa, estamos falando de uma dívida emitida por uma instituição financeira. Portanto, para avaliar o risco da operação, é preciso analisar a saúde do emissor", afirma.
Um bom ponto de partida na análise é o índice de Basileia. Ele mede a capacidade de um banco absorver perdas com capital próprio. Mas atenção: será apenas uma "fotografia de um momento específico, com base em um exercício fiscal", diz Almeida. Assim sendo, é preciso acompanhar sua evolução ao longo do tempo. "Um banco pode apresentar um índice favorável e, ainda assim, enfrentar dificuldades por outras razões", diz.
O mesmo raciocínio vale para as classificações de risco emitidas por agências especializadas. Embora não eliminem a possibilidade de problemas, os chamados ratings funcionam como um resumo da qualidade de crédito do emissor.
De novo, no entanto, trata-se de um retrato do passado. "Depois da divulgação de um relatório, muita coisa pode mudar", diz Almeida
Outros indicadores que podem complementar a análise são os índices de inadimplência, o nível de provisões para perdas, a rentabilidade recorrente da instituição, o histórico de resultados e a diversificação das fontes de captação (fundings).
“O Master tinha alta dependência de captação via CDB, cerca de 80% da carteira, e quando o Banco Central proibiu o Master de fazer novas emissões, foi quando o problema estourou”, detalha Almeida.
Já Michael Viriato, sócio-fundador da Casa do Investidor, considera "pouco frutífero” tentar escolher um CDB exclusivamente com base em análises detalhadas da saúde financeira de um banco.
No caso do índice de Basileia, por exemplo, Viriato destaca que, isoladamente, não é capaz de mostrar se um banco vai quebrar ou não. “O banco pode cometer uma fraude e quebrar. A avaliação pode indicar que um banco está melhor que o outro e ser, na verdade, o contrário”. Por isso, olhar os dados também exige cautela.
Formas de remuneração e prazo
Depois de avaliar a instituição financeira, o próximo passo é entender qual indexador faz mais sentido para o objetivo do investimento.
Os CDBs disponíveis no mercado se dividem em três grandes grupos:
- Prefixados, que garantem uma taxa definida no momento da aplicação;
- Pós-fixados, normalmente atrelados ao CDI;
- Atrelados à inflação, que pagam uma taxa fixa mais a variação do IPCA.
A escolha deve levar em conta o prazo do investimento e a finalidade dos recursos.
- Se o objetivo for comprar um imóvel em dois anos, por exemplo, o ideal é que o vencimento do título esteja alinhado a esse horizonte. Dessa forma, o investidor reduz a necessidade de reinvestir o dinheiro em um cenário menos favorável ou até mesmo de resgatar de forma antecipada com deságio, ou seja, com desconto.
Rentabilidade
Antes da liquidação, um dos principais atrativos dos CDBs do Banco Master eram as taxas muito acima da média do mercado. Enquanto títulos pagando 100% do CDI são relativamente comuns, alguns papéis chegaram a oferecer retornos de até 190% do CDI ao ano.
Para Viriato, buscar boas taxas faz parte da estratégia de qualquer investidor. No entanto, quando a rentabilidade oferecida se distancia demais da média do mercado, é importante entender o motivo para isso.
"Normalmente, existe uma relação direta entre rentabilidade e risco. Quanto maior o retorno oferecido, maior tende a ser o risco”, detalha.
Segundo ele, a taxa exigida pelo mercado costuma refletir mudanças na percepção de risco mais rapidamente do que as classificações emitidas pelas agências de rating.
"O mercado é dinâmico. As condições de uma empresa ou de um banco podem melhorar ou piorar rapidamente. Agências precisam de mais tempo para revisar suas avaliações, enquanto os preços negociados já mostram isso na ponta, detalha o sócio-fundador da Casa do Investidor.
- Por exemplo: enquanto agências demoram mais a refletir uma piora do mercado em relação à empresa, o pagamento oferecido na sessão “é atualizado de forma mais rápida [em relação ao risco]”, segundo Viriato.
Por isso, comparar a rentabilidade oferecida por um CDB com a de outros títulos de prazo semelhante pode ajudar a identificar situações fora do padrão.
FGC
Outro ponto fundamental é entender o alcance da proteção oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que atua como uma espécie de proteção para os investidores em casos de intervenção ou liquidação de instituições participantes.
Quando isso acontece, como no caso do Master, o FGC ressarce investidores de produtos elegíveis, incluindo os CDBs.
Atualmente, a cobertura é de:
- Até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira ou conglomerado;
- Limite global de R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ em um período de quatro anos.
Almeida, por sua vez, alerta que a existência do FGC não deve ser o único critério para justificar aplicações em emissores mais arriscados. Isso porque, segundo ele, investidores que buscaram taxas muito acima da média e precisaram acionar o fundo acabaram enfrentando um período sem acesso aos recursos, além de que, entre o momento da liquidação e o de ressarcimento, o investimento fica sem render.
"Os que buscaram 140% do CDI e esperaram os pagamentos do FGC só viram o recurso dois meses depois, e aí esses 140% se aproximaram de 100% do CDI. Ou seja: era muito melhor esse investidor ter alocado em um produto de um emissor melhor, com uma remuneração próxima a 100%. Ele não teria o choque — porque isso tem um efeito psicológico — de ver o recurso congelado por um tempo, e a rentabilidade no fim do dia foi a mesma. Passou por mais risco para colher os mesmos frutos ou até menos do que teria com um emissor de qualidade”, diz Almeida.
Para investidores que já utilizaram parte desse limite em liquidações recentes, Viriato afirma que pode fazer sentido priorizar bancos com classificações de risco mais elevadas, como AAA ou AA. Isso não significa, necessariamente, investir apenas nos grandes bancos. Segundo ele, existem instituições de médio porte com ratings elevados.
Checklist para escolher um CDB
Antes de investir, especialistas recomendam observar:
- A qualidade do banco emissor;
- O rating da instituição, quando disponível;
- Indicadores financeiros do emissor;
- A cobertura do FGC e os limites já utilizados pelo investidor;
- A compatibilidade entre prazo do título e objetivo financeiro;
- A rentabilidade em comparação com outros papéis de prazo semelhante;
- A liquidez da aplicação;
- As condições para resgate antecipado, quando houver.