
Fundos multimercados rendem quase metade do CDI no 1º semestre e fuga continua
Todos os tipos de produtos decepcionaram no primeiro semestre, mostram os dados da Anbima
Os fundos multimercados renderam em média 3,8% ao ano no primeiro semestre, quase metade do CDI, que anda colado nos juros de referência para a economia e entregou uma remuneração de 6,8% no mesmo intervalo, apontam os dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) nesta quarta-feira (8). Nesse ambiente, a classe registrou a maior debandada dos fundos de investimentos nos primeiros seis meses do ano, de R$ 9,9 bilhões.
Os fundos multimercados podem comprar ações, commodities, juros e moedas no mundo e no Brasil e, como são mais arriscados do que os investimentos de renda fixa, são aconselhados para o longo prazo. Porém, a guerra entre os Estados Unidos e o Irã trouxe volatilidade nos mercados e levou os economistas a aumentarem as expectativas para a inflação e os juros. Muitos profissionais dos fundos erraram as suas apostas nas carteiras.
Todos os tipos de multimercados decepcionaram no primeiro semestre, mostram os dados da entidade. Os menos piores foram os fundos multimercados do tipo livre, com liberdade irrestrita para alterar a carteira, que deram um rendimento médio de 5,1%. Os fundos multimercados do tipo macro, que analisam o cenário macroeconômico para tomar as decisões, alcançaram em média 5,1% de rentabilidade. Já os piores retornos médios foram os dos fundos com estratégias específicas, de 2,1%, e os dos fundos que investem no exterior, de 3,1%.
Com a decepção dos retornos dos multimercados, a maior aversão aos investimentos de risco e a renda fixa com juros muito altos e mais segurança, os investidores correram da classe. Todas as modalidades de fundos multimercados registraram resgates na primeira metade do ano, com exceção dos fundos que investem no exterior, onde os aportes, descontando as retiradas, atingiram R$ 7,3 bilhões. A maior saída aconteceu nos fundos multimercados livre, chegando a R$ 9,6 bilhões.
Com as debandadas, o patrimônio líquido da indústria de fundos multimercados recuou de R$ 1,6 trilhão em dezembro de 2025 para R$ 1,5 trilhão em junho de 2026. O número de contas caiu de 3,9 milhões para 3,8 milhões nesse intervalo.
Os dados contrastam com os dos fundos de investimentos como um todo. As aplicações, descontando os resgates, somaram R$ 184,7 bilhões nos primeiros seis meses do ano, a segunda maior para o período nos últimos cinco anos. O patrimônio líquido da indústria aumentou 10% de junho de 2025 a junho de 2026, de R$ 10,1 trilhões para R$ 11,1 trilhões.
Quinto ano consecutivo de fuga de investidores
Apesar da desaceleração dos resgates em relação aos primeiros seis meses de 2025, quando a debandada nos fundos multimercados somou R$ 65,2 milhões, o setor caminha para o quinto ano consecutivo de fuga de investidores.
Na análise de Pedro Rudge, diretor da Anbima, é a aversão aos investimentos de maior risco em meio à guerra e à eleição no Brasil que deve ditar o ritmo de captação de dinheiro dos fundos multimercados.
"Se mantiver o cenário atual, os investimentos de renda fixa continuarão chamando a atenção e os fundos multimercados seguirã sofrendo. O investidor prefere os instrumentos conservadores pagando retornos muito interessantes do que correr mais risco", afirmou, em coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira.
Na avaliação do executivo, a situação dos multimercados está mais complexa e o patrimônio desses produtos tende seguir recuando, com mais gestoras diversificando os fundos de investimentos que vendem, se juntando com casas concorrentes ou fechando mesmo as portas. "A Anbima anda debatendo como pode auxiliar as gestoras neste momento, pensando em reduzir custos ou em aumentar a tecnologia", disse.