
Nas últimas semanas, o El Niño ficou mais concreto e se tornou cenário-base para os mercados. Já não há dúvida de que ele virá, e aumenta a chance de que seja de grandes proporções: a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estima em 63% a chance de o El Niño 2026/27 atingir intensidade “muito forte” entre novembro e janeiro. Se confirmado, será um dos episódios mais intensos do fenômeno desde o início das medições, e os efeitos devem chegar ao bolso e à carteira do investidor brasileiro, com impactos que já começam a ser precificados agora.
O fenômeno é o aquecimento anormal das águas do Pacífico, que muda o padrão de chuvas pelo mundo. No Brasil, a consequência costuma ser mais chuva no Sul, seca no Centro-Oeste, no Norte e no Nordeste, e calor acima da média em boa parte do País.
A escalada das projeções já aparece nos instrumentos de monitoramento. Nos últimos dias, a NOAA ampliou de 4°C para 5°C a escala de um dos gráficos mais acompanhados do fenômeno, o do modelo CFSv2, depois que algumas simulações superaram o limite anterior.
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Quando o baque chega?
Por enquanto, o clima até tem ajudado. Os meses de maio e junho foram muito atípicos para um período de El Niño, com chuvas e menor amplitude térmica, que acabaram reduzindo os impactos negativos sobre a inflação, afirma Carlos Thadeu, economista especialista em commodities da BGC Liquidez.
As chuvas melhoraram os níveis dos reservatórios, afastando a bandeira tarifária vermelha na conta de luz, e ajudaram a safrinha de milho em Mato Grosso, cuja colheita, ainda assim, segue atrasada. Esse padrão deve mudar agora, com tempo mais seco e quente no Sudeste e no Centro-Oeste e chuvas no Sul, cenário que deve se manter até o fim do ano.
Como a chuva foi boa no Brasil e nos Estados Unidos, e a safra americana também foi positiva, os preços devem demorar a reagir. Culturas como batata e tomate ainda se beneficiam do calor e do tempo seco. “Vamos discutir El Niño de maneira mais intensa só em setembro, outubro, quando começar a afetar as culturas do café e da cana, logo depois da soja”, afirma Thadeu.
O Morgan Stanley trabalha com janela parecida e projeta o pico do fenômeno entre novembro e fevereiro, período que coincide com o plantio da soja e o setup da safrinha de milho no Brasil.
Comida mais cara
O Santander calcula que, em um evento forte, o El Niño adiciona até 2,4 pontos percentuais ao pico da inflação de alimentos no Brasil . No IPCA cheio, o efeito é menor, de 0,35 ponto. No PIB, o banco estima um corte de 0,6 ponto.
O Morgan Stanley chega a números mais altos ao trabalhar com cenários de intensidade. Pelas contas do banco, um El Niño muito forte poderia somar até 1,68 ponto percentual ao IPCA cheio , dos quais 0,84 ponto acima do cenário-base já embutido em suas projeções.
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O risco não é homogêneo dentro do País. Segundo o Morgan Stanley, o Sul do Brasil e a Argentina tendem a se beneficiar de mais chuva, enquanto o Centro-Oeste e o MATOPIBA ficam expostos a chuvas irregulares, calor e estresse hídrico, o que pode atrasar o plantio da soja e comprimir a janela da safrinha de milho.
Pressão sobre juros e dólar
Para Marcos Praça, diretor de Análises da ZERO Markets, os efeitos negativos começam já neste mês e vão até o fim do ano, e não param na próxima safra, mas se estendem às seguintes, principalmente por causa das queimadas. “Podemos esperar também secas afetando a questão hídrica e choques nos preços de energia com bandeiras tarifárias mais altas”, diz.
Ele lembra que o estrago não fica restrito ao campo. “O El Niño vai representar um choque de oferta, ele aumenta os preços de alimentos e energia principalmente, e isso reduz o poder de consumo das famílias e os gastos com varejo e consumo discricionário”, afirma. Na avaliação dele, essa pressão pode fazer o Banco Central interromper a queda dos juros em 14% ao ano, podendo até voltar a subir a taxa .
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O Morgan Stanley segue na mesma direção e avalia que a barra para altas de juros continua alta, mas que um El Niño muito forte pode adiar a retomada dos cortes, hoje esperada por ele para dezembro, caso o choque de alimentos contamine as expectativas de inflação. Thadeu, por outro lado, enxerga alívio à frente e diz que a inflação corrente vai “para o lado do BC nos próximos meses”, dando razão à decisão de cortar juros na última reunião.
Para o câmbio, Thadeu espera algum impacto do El Niño no fim do ano, que já é um período mais pressionado pelas remessas ao exterior. A essa pressão deve se juntar uma safra pior de soja, que costuma trazer dólares ao país em janeiro. Para ele, a combinação de pressão sazonal, menos dólares da soja e juro mais baixo para segurar o real pode ser “uma bomba para o Banco Central” , ainda mais diante das incertezas sobre o ajuste fiscal do próximo governo.
Do clima à Bolsa: quem ganha e quem perde
O efeito sobre as ações também vem via inflação. “Ele pode pressionar os preços de alimentos, isso mexe na inflação, a inflação mexe na curva de juros, e a curva de juros é o que acaba batendo na Bolsa. É um efeito em cadeia”, resume Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
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Segundo Perri, o El Niño não é motivo para comprar ou vender Bolsa em bloco, mas cria ganhadores e perdedores, e é importante saber separá-los. “O caminho entre o clima e as ações é indireto”, explica.
Ganhadores: setor elétrico
Se há um ponto de concordância entre os analistas, ele está no setor elétrico. Para Daniel Gewehr, estrategista-chefe de equity research do Itaú BBA, o medo do mercado abriu uma janela.
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“Acho que está dando uma oportunidade de compra agora que o mercado está com medo do El Niño. Talvez o preço de energia caia um pouco no Sul, mas, na nossa cabeça, o preço de energia é para cima no médio prazo”, disse, em evento do Itaú BBA. Segundo ele, este é o único setor em que o investidor estrangeiro ainda não está alocado acima da média no Brasil e que vem de um histórico positivo, com as privatizações de Axia ( AXIA3 ) e Copel (CPLE6).
Em relatório, o Itaú BBA mostra preferência por distribuidoras expostas ao Sudeste e ao Centro-Oeste, como Energisa ( ENGI11 ) e Equatorial ( EQTL3 ), que ganham com o calor puxando o consumo de energia. Entre as geradoras, aposta em nomes com chance de revisão para cima nos lucros, como Eneva ( ENEV3 ) e Axia. A ENGI11 também é aposta do UBS BB, que elevou nesta semana o preço-alvo para o papel de R$ 60,03 para R$ 69,00, considerando, entre outros fatores, os efeitos do El Niño.
Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank, segue linha parecida. Com reservatórios pressionados em algumas regiões e maior acionamento de usinas termelétricas, “algumas empresas do setor elétrico podem se beneficiar, especialmente transmissoras e companhias com exposição regional favorável, como Copel ( CPLE3 )”, diz.
O Santander, porém, discorda no caso da estatal paranaense: para o banco, mais chuva no Sul derruba o preço local da energia, o que pesa sobre a geração da Copel.
Perdedores: cadeia do agro
Na ponta perdedora, a SLC Agrícola ( SLCE3 ) é o nome mais citado. O Santander classifica a ação como muito sensível ao fenômeno, por causa do risco de chuvas irregulares em regiões-chave da produção, como partes de Mato Grosso, Piauí e Maranhão. O Itaú BBA vê o risco concentrado no MATOPIBA, região agrícola que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, e pondera que a irrigação e a área no Centro-Oeste, menos afetado, dão alguma proteção à companhia.
No setor financeiro, o Banco do Brasil ( BBAS3 ) deve ser negativamente afetado pelo fenômeno, por conta do crédito rural concentrado nas regiões que secam.
Como se proteger?
Fora da Bolsa, o açúcar aparece como um dos vencedores mais claros do fenômeno. O preço avançou nas últimas semanas, sustentado pela deterioração climática na Europa e na Ásia, que adiciona prêmio de risco ao mercado, aponta a XP. Ao mesmo tempo, a moagem segue fluindo bem no Centro-Sul brasileiro, o que mantém, no curto prazo, um viés mais construtivo para o açúcar do que para o etanol.
O Morgan Stanley segue a mesma leitura e vê o açúcar como a commodity com maior sensibilidade histórica ao El Niño, já que menor volume de chuva na Índia, na Tailândia e no Sudeste Asiático pode reduzir a produção de cana e a oferta para exportação.
Para quem pensa em investir direto em commodities, Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos, recomenda não concentrar. “Eu compraria uma cesta de commodities e não uma commodity específica, porque qualquer erro pode gerar uma oscilação muito forte. E, se tivesse que escolher entre commodities e Bolsa, melhor ir para a Bolsa, fica mais protegido de maneira ampla”, afirma.
Régis Chinchila, analista de research da Terra Investimentos, lembra o outro lado: empresas com receitas mais previsíveis, pouco ligadas ao ciclo agrícola ou com receitas em dólar tendem a resistir melhor.