O risco não é a IA fracassar. É ela dar certo

O risco não é a IA fracassar. É ela dar certo

Cofundador e CEO do Gorila

O risco não é a IA fracassar. É ela dar certo

O risco relevante para quem investe não é a inteligência artificial fracassar. É ela dar certo rápido demais, barato demais, nas mãos de quem não precisa cobrar por ela

São Paulo

Atualizado

Para cada dólar de investimento privado em inteligência artificial na China, os Estados Unidos investem mais de vinte. E a dianteira que todo esse dinheiro compra hoje, segundo o índice de IA da Universidade de Stanford, é de 2,7 pontos percentuais entre o melhor modelo americano e o melhor modelo chinês. Três anos atrás, essa distância passava de vinte pontos.

Leia de novo: vinte vezes o dinheiro, 2,7 pontos de vantagem.

A leitura fácil é que a China está alcançando. A leitura que importa é outra: os dois países estão construindo a mesma tecnologia dentro de máquinas econômicas opostas. E o que vai definir a próxima década dos mercados não é a diferença entre os modelos. É a diferença entre as máquinas.

A máquina americana financia a inteligência artificial como produto. O dinheiro vem do mercado: as maiores empresas de tecnologia do país devem investir perto de US$ 800 bilhões em infraestrutura de IA somente em 2026, cercadas por laboratórios privados avaliados em centenas de bilhões de dólares. Cada um desses dólares carrega uma promessa de retorno. A máquina chinesa financia a mesma tecnologia como infraestrutura pública: fundos estatais, energia subsidiada, campeões nacionais. E entrega seus melhores modelos de graça, abertos, para quem quiser usar, como quem distribui eletricidade.

A distinção parece contábil. É estratégica. Quando a sua máquina precisa de retorno, o preço do produto é um piso: abaixo de certo nível, você destrói capital, e seus investidores cobram. Quando a sua máquina não precisa de retorno, o preço é uma arma: quanto mais baixo, mais corrói a economia do rival que precisa.

E o produto dessa disputa já vive a deflação mais rápida da história da tecnologia. Para uma mesma capacidade, o custo de usar inteligência artificial cai cerca de dez vezes por ano, ritmo superior ao que a Lei de Moore impôs aos chips. O que custava US$ 60 por milhão de tokens, a unidade que mede o uso desses modelos, custa hoje centavos. No OpenRouter, uma das principais plataformas por onde desenvolvedores do mundo todo acessam modelos de IA, os modelos abertos chineses já respondem por quase metade do tráfego. A fatia dos americanos caiu de 70% para 30% em um ano.

O mercado já ensaiou o desfecho dessa história uma vez. Em 27 de janeiro de 2025, quando uma até então pouco conhecida DeepSeek lançou um modelo à altura dos melhores americanos, treinado por uma fração do custo, a Nvidia perdeu US$ 589 bilhões de valor em um único pregão, a maior destruição de valor em um dia já registrada por uma empresa listada. Depois o preço se recuperou, o investimento acelerou e o assunto ficou para trás. Mas ensaios servem para isso: o prédio não pegou fogo, e agora todo mundo sabe onde fica a porta.

Há ainda uma camada dessa corrida que dinheiro nenhum resolve no curto prazo. Em 2025, a China instalou 543 gigawatts de capacidade nova de geração de energia, o equivalente a quase quarenta usinas de Itaipu ligadas na tomada em um único ano. Os Estados Unidos instalaram 63 gigawatts, com filas de espera de quase cinco anos para conectar novos projetos à rede. Vantagem em chips é investimento: quem está atrás pode alcançar. Déficit de energia é custo recorrente: compõe contra você todos os anos. E inteligência artificial, no limite, é eletricidade transformada em raciocínio.

Seria desonesto parar por aqui, porque o outro lado do argumento é forte. Os chips americanos de fronteira seguem anos à frente dos chineses, e análises independentes projetam que essa distância ainda vai crescer. Empresas e governos ocidentais não vão confiar seus dados a modelos chineses, por razões que não são técnicas. E inteligência mais barata tende a multiplicar o uso total, o velho paradoxo de Jevons: o valor não desaparece, migra para as camadas que os americanos dominam, os chips, a nuvem, as aplicações. É perfeitamente possível que os Estados Unidos vençam essa guerra.

Mas vencer a guerra e precificar bem os ativos são coisas diferentes. A internet cumpriu praticamente tudo o que prometeu nos anos 90. Quem comprou o índice Nasdaq em março de 2000 esperou quinze anos para recuperar o investimento. Estar certo sobre a tecnologia nunca protegeu ninguém de estar errado sobre o preço.

Peter Thiel explicou o mecanismo por trás desse fenômeno numa aula de 2014 em Stanford que virou leitura obrigatória no Vale do Silício, provocadoramente batizada de "competição é para perdedores". Toda empresa valiosa, disse ele, faz duas coisas: cria X de valor para o mundo e captura Y% desse X. E as duas variáveis são completamente independentes. As companhias aéreas americanas criam valor imenso e, de tanto competir entre si, não ficam com quase nada dele. O Google, no ano que Thiel usou de exemplo, faturou um quarto do que faturou a aviação americana e teve margem de lucro cem vezes maior, porque não tinha concorrente à altura. Monopólio, na definição dele, é isso: conseguir ficar com um pedaço do valor que você cria.

Os modelos de inteligência artificial podem estar se revelando o caso extremo da primeira categoria. Uma tecnologia que cria valor imenso para a economia inteira, para o médico, o advogado, a indústria, o estudante, e devolve pouco a quem a construiu. Não seria a primeira vez: quase todas as grandes invenções da história enriqueceram o mundo mais do que enriqueceram seus inventores. E a rivalidade entre Estados Unidos e China praticamente garante esse desfecho, porque cada lado tem interesse estratégico em impedir que o outro cobre caro pela inteligência.

E aqui a história deixa de ser sobre a China e passa a ser sobre você. O economista Jason Furman, de Harvard, calculou que o investimento em data centers respondeu por praticamente todo o crescimento americano no primeiro semestre de 2025. Sem ele, o PIB dos Estados Unidos teria crescido 0,1%. A economia mais importante do mundo está apoiada, hoje, num único tema. E o investidor brasileiro que tem fundo global, S&P 500 ou BDRs de tecnologia carrega essa mesma aposta concentrada dentro do patrimônio, quase sempre sem saber o tamanho dela. Se o mercado um dia concluir que pagou preço de monopólio por um produto que virou commodity, a correção não será um evento de setor. Será O EVENTO.

Não é uma previsão de colapso. É uma assimetria que merece respeito. O risco relevante para quem investe não é a inteligência artificial fracassar. É ela dar certo rápido demais, barato demais, nas mãos de quem não precisa cobrar por ela.

Numa guerra de preços por um produto que fica dez vezes mais barato a cada ano, o fôlego mais longo não é o de quem tem mais capital. É o de quem não precisa devolvê-lo. O mercado, no fim, não recompensa quem acerta o futuro. Recompensa quem acerta o preço do futuro.

Guilherme Assis é cofundador e CEO do Gorila.

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