O cupê mal-assombrado e a preocupante realidade brasileira

O cupê mal-assombrado e a preocupante realidade brasileira

O cupê mal-assombrado e a preocupante realidade brasileira

Para mim, como profissional do mercado e professor de Economia, apontar problemas objetivos não é um exercício de pessimismo, mas de realismo honesto

Atualizado

Quem acompanhou o desenho animado "Corrida Maluca", um grande sucesso das décadas de 1960 e 1970, certamente se recorda do temido “Cupê Mal-Assombrado”. O excêntrico veículo, pilotado pela Dupla Sinistra, chamava a atenção nas disputas contra competidores como Penélope Charmosa, Peter Perfeito e Dick Vigarista, sempre ao lado de seu inseparável escudeiro, Mutley.

Em diversas ocasiões, neste espaço, tenho feito alertas sobre a preocupante situação econômica do Brasil. Não raramente, ouvi de alguns colegas de mercado, e de leitores, a observação de que minhas análises eram excessivamente pessimistas. Chegaram a comparar minha visão à sombria nuvem de tempestade que envolvia o “Cupê Mal-Assombrado”.

Para mim, como profissional do mercado e professor de Economia, apontar problemas objetivos não é um exercício de pessimismo, mas de realismo honesto. Ignorar sinais evidentes de deterioração, afirmando que “está tudo bem” (como faz o governo), não melhora a situação, apenas adia o enfrentamento de suas consequências. A própria seleção brasileira nos deu uma demonstração desse ufanismo descabido na Copa, ao alimentar a expectativa do hexa, quando era evidente que não tínhamos uma equipe verdadeiramente competitiva.

Quando afirmo, há muito tempo, que a situação fiscal brasileira é crítica, e tende a piorar caso não haja mudanças significativas no próximo mandato (quem quer que vença!), não estou fazendo uma previsão baseada em emoções ou preferências ideológicas; olho para indicadores concretos.

O fato é que o país convive há anos com déficits fiscais recorrentes. Em percentual do PIB, o resultado primário consolidado foi de -2,0% em 2023, -0,4% em 2024, -0,5% em 2025 e estima-se um déficit de -0,5% para 2026, isso mesmo após uma penca de exceções aprovadas pelo Congresso. Em outras palavras, o setor público gasta sistematicamente mais do que arrecada, mesmo em um período de fortíssima expansão da arrecadação, como ocorreu nos últimos quatro anos.

Ainda que, eventualmente, haja alguma melhora pontual, aqui ou acolá, a trajetória estrutural das contas públicas permanece pressionada pelo crescimento das despesas obrigatórias (muitas delas indexadas ao salário-mínimo), pelo elevado custo do serviço da dívida, que já supera R$ 1 trilhão por ano, e pela dificuldade política de aprovar reformas capazes de conter o avanço dos gastos públicos.

Quero destacar que o déficit em si não é necessariamente um problema em quaisquer circunstâncias. Em momentos de crise econômica, guerras ou grandes choques (como foi na pandemia), é esperado que governos utilizem a política fiscal para amortecer os impactos sobre a sociedade. O problema surge quando o déficit deixa de ser uma exceção e passa a representar uma característica permanente.

Nesse cenário, a dívida cresce continuamente, exigindo cada vez mais recursos apenas para financiar o próprio endividamento, que, no momento, está sendo custeado por insustentável “inflação mais 8%”. Pessimismo? Não! O comprador para prêmios “civilizados” foi passear na praia. Título longo do governo só é rentável, em linhas gerais, se ele fizer o dever de casa. Vai fazer? Como destaquei em minha última coluna, estamos flertando com a dominância fiscal.

É justamente aqui que entra um dos indicadores mais importantes para avaliar a saúde fiscal de um país: a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB), que, no nosso caso, caminha para 100% a passos largos. Essa relação mede, explicando para um leigo, o tamanho da dívida comparado à capacidade de geração de riqueza da economia. Quando a dívida cresce mais rapidamente do que o PIB, aumenta a percepção de risco por parte de investidores, empresas e famílias. Como consequência, o governo tende a pagar juros mais elevados para captar recursos, como agora, o crédito fica mais caro para toda a economia e o crescimento econômico acaba sendo prejudicado.

Muitos que me criticam argumentam que países desenvolvidos possuem relações dívida/PIB ainda maiores e continuam funcionando normalmente. Essa observação, embora verdadeira em alguns casos, ignora diferenças fundamentais: economias com elevada credibilidade jurídica/institucional, histórico consistente de responsabilidade fiscal, moeda de reserva internacional e baixíssimo risco de calote conseguem sustentar níveis de endividamento muito superiores aos observados em economias emergentes. O Brasil não desfruta dessas mesmas condições.

Outro aspecto, frequentemente negligenciado, é a velocidade com que a dívida cresce. Não basta observar apenas o número, mas, sim, sua trajetória. Uma dívida elevada, se estabilizada, representa um desafio diferente de uma que aumenta ano após ano sem perspectiva clara de equilíbrio, como é o caso. A dinâmica importa tanto quanto o estoque e a própria área técnica do governo aponta que ela vai continuar subindo. Lembremo-nos que Lula III a recebeu em 72%, depois de uma pandemia, e a vai entregar (para ele próprio?) em 83%, isso com uso de expedientes amortecedores, como depósitos voluntários remunerados. O que tento alertar faz tempo é que nossa margem para erros fiscais é significativamente menor, pois o país irá colapsar caso não corrijamos a rota.

O problema é que discutir responsabilidade fiscal se tornou um debate contaminado pela arquibancada política. Dependendo de quem faça o alerta, é imediatamente rotulado como alarmista, pessimista ou defensor de cortes indiscriminados. Entretanto, as contas públicas não fazem milagres: déficits persistentes aumentam a dívida. Dívidas crescentes elevam os gastos com juros. Gastos com juros reduzem o espaço para investimentos públicos, educação, saúde, infraestrutura (que aumentam a produtividade) e programas sociais. Essa sequência não é uma opinião; é uma restrição econômica. Olhemos, como consequência, para a dificuldade do Tesouro em vender títulos nas últimas semanas.

Reconhecer esse quadro não significa defender austeridade a qualquer custo, nem ignorar a importância das políticas sociais. Pelo contrário! Todavia, a verdadeira sustentabilidade das políticas públicas depende, sobremaneira, da existência de um Estado financeiramente saudável e probo. Um governo que perde capacidade de financiamento acaba comprometendo, no médio e no longo prazo, exatamente as políticas que pretende preservar, retroalimentando a inflação, que, no nosso caso, escapuliu da meta. E, como escrevi na última coluna, estão querendo modificar para cima a meta (aqui caberia um emoji de choro).

Talvez o erro esteja em confundir otimismo com negação da realidade. O otimismo responsável parte do diagnóstico correto dos problemas para construir soluções. Já o excesso de confiança, diante de indicadores deteriorados, pode transformar pequenos desequilíbrios em grandes crises, como é o caso de agora. Repito: a seleção foi um bom exemplo.

Quero deixar muito claro que não me considero pessimista. Como professor, convivo diariamente com a juventude, invisto nela, e é justamente por acreditar que os jovens representam o futuro do país que reflito sobre essas questões. De minha parte, acredito que discutir seriamente as contas públicas e tantas outras mazelas não é um exercício de pessimismo, mas um imperativo de prudência. Porém, é preciso coragem para fazê-lo!

Assim, gostaria de encerrar com uma grande reflexão: pari passu à reconstrução da seleção brasileira para a Copa de 2030, como tantos defenderam ao longo da semana passada, o ideal é que também reconstruamos a Nação, e isso passa, necessariamente, pelo conserto dos desajustes fiscais. Essa é a condição indispensável para que possamos conquistar, no futuro, as tão desejadas "medalhas, medalhas, medalhas" de Mutley, não como prêmio da improvisação, mas como resultado de uma economia mais sólida, de instituições mais responsáveis e de políticos menos hipócritas.

Aí, quem sabe, voltemos a vencer também no futebol.

Alexandre Espirito Santo é sócio e economista-chefe da Way Investimentos e professor da IBMEC-RJ e ESPM.

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