
De tensões, frustrações e borboletas
São várias as competências necessárias para atuar com sustentabilidade, mas duas características se destacam como basilares: capacidade de gerar tensão e resistência à frustração. Assim como fazem as borboletas
Ao longo de minha carreira em sustentabilidade, um tópico recorrente em rodas de conversas é o perfil para trabalhar no meio. Atuar com algo que ainda precisa, em alguma medida, provar seu valor ao negócio não é algo simples e, por isso, exige um conjunto muito específico de competências. É diferente de estar em áreas estabelecidas, como recursos humanos, marketing, tecnologia, finanças. Com sustentabilidade, a conversa trafega, em grande parte, pelas vias do futuro; passa por mercados em desenvolvimento, demandas emergentes e legislações em discussão — assuntos que, teoricamente, “podem esperar”.
Qual seria, então, o perfil ideal dessa/e profissional? Respondo com o artigo abaixo, que publiquei há 17 anos, em 2009, na Plurale, publicação especializada em meio ambiente, responsabilidade social e sustentabilidade, onde fui colunista antes ingressar no Valor Investe. Relendo-o, percebi o quanto seu conteúdo continua atual, o que só reforça que os desafios para a promoção de um novo modelo de mundo não são de curto prazo.
Para fins desta coluna, mantive a originalidade do texto, com pequenos ajustes temporais para sua acurácia. Nesta reflexão, elenco uma série de competências que considero essenciais, mas exploro duas características basilares para uma boa atuação em sustentabilidade: ser gerador(a) de tensão e resistente a frustração. Vem comigo nesta leitura?
“De tudo o que tenho lido sobre sustentabilidade, um dos assuntos mais constantes é o perfil do profissional que se dedica a este tema nas empresas. É possível elencar uma série de características, a partir de estudos, pesquisas, consultorias, artigos como este. Mas qualquer lista certamente será incompleta, e até certo ponto desanimadora. Vamos fazer um exercício? Visão estratégica e integrada, flexibilidade, empatia, conhecimento do negócio, capacidade de influência e negociação, dinamismo, bom relacionamento, humildade, versatilidade, empreendedorismo, paixão pela causa, liderança, criatividade, obstinação... ufa! Quase um super-homem ou uma supermulher. Para dar minha contribuição ao tema, focarei em duas competências que julgo essenciais a partir da minha vivência diária no tema.
1. Gerador de tensão. O nome não é bonito nem melódico, mas retrata bem como vejo a evolução desta agenda. A construção da cultura e prática de sustentabilidade nas empresas, seja qual for seu histórico com o tema, se dá por movimentos de tensão. Estamos sempre lidando com o que falta, com o que “deveria ser”, com “um pouco mais”. Afinal, a agenda da sustentabilidade é a agenda de uma nova gestão necessária a um novo mundo que se tornou, mais do que urgente, a única possibilidade de sobrevivência no longo prazo. É a agenda do futuro. E não se constrói o futuro sem conflitos, sem tensão. É o movimento. A cada tensão superada, evoluímos um pouco. É o executivo que, antes tão cético, começa a abrir espaço na sua estratégia – e consequentemente na sua mente – para o tema. É aquela área que conseguiu achar seu caminho para inserir aspectos socioambientais no produto ou serviço. Neste momento, tudo o que foi vivido durante o processo, vale a pena. É disso que vivemos. É isso o que nos alimenta e nos dá força na caminhada. Por isso, ser um “gerador de tensão” me parece uma boa definição para o profissional de sustentabilidade. Definição que, obviamente, carrega consigo as competências necessárias para se exercer bem este papel.
2. A segunda característica que quero destacar é resistência a frustração. A linha de raciocínio aqui é a mesma: gerar tensão, lidar com um assunto ainda não de domínio de todos, um assunto ainda em cheque e carecendo de entendimento e provas, não é algo simples. Quantitativamente, ainda perdemos mais do que ganhamos. E o ser humano não gosta de perder. É difícil lidar com o “não”, com disputas de espaço (ser área transversal lida com isso cotidianamente), com propostas não entendidas e rejeitadas. A rejeição a uma proposta, é necessário frisar, não significa rejeição ao profissional e à sua competência. Vendo dessa forma, fica mais fácil de lidar.
Arrisco-me a dizer que a frustração a um projeto ou ideia no campo da sustentabilidade tem um peso maior do que uma proposta do “business as usual”. Falo isso como quem gerenciou essas agendas simultaneamente em duas organizações. Aqui, há o peso da causa. Não gosto da conotação que a palavra “militância” ganhou ao longo dos anos, mas acho que ela define bem o que quero expressar. Os profissionais de sustentabilidade são também conduzidos por uma militância à causa. Trabalhamos por um mundo melhor. No fim do dia, é isso. Por isso, o “não” nos pesa como a negação, não só a uma proposta, mas a um mundo que, inequivocadamente, precisamos construir.
Neste sentido, saber lidar com a frustração se torna um bem precioso. O gestor de uma equipe de sustentabilidade tem que ter isso na veia. Para si, sem dúvida, mas principalmente para liderar uma equipe com menos experiência de vida e jogo de cintura. Bem sabemos que para enfrentar algumas situações adversas não há bula nem manual de instrução. Quem nos socorre nesta hora é mesmo a vida, a estrada, o caminho que nos deu aqueles calos tão preciosos e fez com que esses momentos possam ser conduzidos de forma mais tranquila e construtiva – não sem tristeza, sem dúvida.
Chego a este ponto com uma reflexão: estarei sendo muito amarga ao falar apenas de tensão e frustração em um artigo sobre o perfil de um profissional tão valioso? Espero que não tenha soado assim. Afinal, só conseguimos ver as borboletas, que são belas e inspiradoras, depois que elas saem de seus casulos, onde viveram processos dolorosos de evolução. O caminho da sustentabilidade é assim, belo, inspirador, transformador. Feito de degraus muitas vezes difíceis de serem subidos. Mas esta é justamente a beleza de se atuar nesta área.”
Sonia Consiglio é SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU e especialista em Sustentabilidade