
O mergulho do dólar sob o peso do CPI e o recado do Fed que limitou o ganho da bolsa
Saldo do dia: A maior queda no custo de vida dos EUA em seis anos fez o real liderar os mercados e derrubou os juros futuros por aqui. O Ibovespa, contudo, avançou em ritmo mais contido após o presidente do Fed alertar que a guerra contra a inflação não terminou
A divulgação de que o índice de preços ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos recuou 0,4% em junho, superando as projeções mais otimistas e registrando o tombo mais expressivo desde o auge da pandemia, caiu como um bálsamo sobre os mercados.
O indicador sugeriu que a pressão sobre os preços começa a ceder na maior economia do mundo, abrindo espaço para uma descompressão generalizada nas taxas de juros.
Sob uma forte onda de apetite por risco, o real engatou uma valorização expressiva que fez o dólar comercial comer poeira. O tombo da moeda americana foi global, mas encontrou no Brasil um terreno fértil, colocando a divisa nacional na disputa pelo posto de melhor desempenho no dia.
- O dólar à vista recuou 1,05%, cotado a R$ 5,0777, maior queda diária desde 11 de junho, quando cedeu 1,37%. O tombo aprofundou as perdas acumuladas na semana para 0,60% e no mês para 1,65%, elevando a desvalorização no ano para 7,49%.
No mercado de juros futuros, o reflexo desse ambiente externo mais favorável foi igualmente vigoroso, provocando um fechamento generalizado da curva.
O recuo nos rendimentos dos títulos de 10 anos do Tesouro americano (Treasuries), que cederam para a casa dos 4,57%, serviu como o principal motor para que as taxas domésticas removessem prêmios de risco em todos os vencimentos.
Paralelamente, o alívio nos rendimentos abriu espaço para o ouro reluzir, com o metal precioso avançando mais de 1,5%.
A inflação mais fraca nos EUA neutralizou os temores de uma alta de juros imediata pelo Federal Reserve (Fed). Segundo dados da ferramenta CME Fed Watch, as apostas do mercado para um aperto monetário agora em julho despencaram de mais de 40% na véspera para a casa dos 17%.
Como pontua Juliana Benvenuto, coordenadora de alocação e inteligência da Avenue, o recuo mensal tirou a pressão imediata das costas do banco central americano para o encontro deste fim de mês.
No acumulado de 12 meses, a inflação cedeu de 4,2% para 3,5%, enquanto o núcleo estabilizou no mês e recuou para 2,6% na leitura anual.
Para além do fator inflação, a decisão de Donald Trump de descartar a cobrança de um pedágio de 20% para a escolta de navios no Estreito de Ormuz acalmou momentaneamente o mercado de petróleo e ajudou a desinflar ainda mais as taxas globais.
Enquanto o câmbio e os juros fizeram a festa, a bolsa brasileira operou sob uma lógica bem mais contida.
O Ibovespa ensaiou uma abertura firme, puxado pelo recuo da inflação americana, mas a euforia inicial foi perdendo fôlego à medida que as forças sob a superfície do índice se reorganizaram ao longo do dia, com os investidores preferindo a cautela diante das sinalizações duras do Fed.
- O principal índice da bolsa brasileira subiu 0,5%, aos 176.641 pontos. Com o desempenho, reduziu as perdas acumuladas na semana para 0,7%, enquanto expandiu os ganhos no mês para 2,7%. No acumulado do ano, avança 9,6%.
Embora a Vale (VALE3) tenha sustentado alta de 1,6%, impulsionada pelo desempenho do minério, a Petrobras (PETR4) perdeu o fôlego inicial e encerrou o dia no zero a zero.
- Das 78 ações que fazem parte da carteira teórica mais famosa do Brasil atualmente, 48 subiram.
Por aqui, a prudência que travou os ganhos da bolsa atende pelo nome de Kevin Warsh.
Em sua aguardada sabatina na Câmara dos Representantes americana, o recém-empossado presidente do Fed jogou um balde de água fria nos investidores mais otimistas.
Apesar de reconhecer o dado benigno do CPI, Warsh fez questão de frisar que não pretende "ler demais um único dado" e que não há espaço para declarações de "missão cumprida".
Com um discurso rígido, o mandatário do BC americano reforçou que seu objetivo central é combater o surto inflacionário, prometendo uma mudança de regime na política monetária.
A postura firme ecoa nos bastidores do próprio comitê, afinal, a ata da última reunião do Fed mostrou um colegiado dividido.
Embora a manutenção dos juros tenha sido unânime, o "dotplot" (gráfico que mostra as expectativas de cada dirigente para os juros) revelou que metade do grupo ainda via espaço para ao menos uma alta residual neste ano - o que mantém vivas as apostas de aperto para o encontro de setembro.
Ao mesmo tempo, as tensões geopolíticas no Oriente Médio continuam a impor um prêmio de risco incômodo sobre as commodities.
A trégua ensaiada após as declarações de Trump sobre o Estreito de Ormuz durou pouco, uma vez que o desgaste dos acordos e os relatos de ataques a petroleiros seguem no radar.
O petróleo do tipo Brent se manteve sob forte pressão e encerrou com alta de 2,32%, cotado a US$ 85,23, enquanto o WTI avançou 1,87%, a US$ 79,60.
A virada nos preços aconteceu após relatos de novas explosões em território iraniano, em um sinal claro de que o risco geopolítico segue vivo e deve continuar ditando o ritmo dos mercados.
Ao final dos negócios, o mercado garantiu um saldo positivo com os dados de inflação nos EUA, mas se viu obrigado a calibrar as expectativas diante da postura irredutível de Warsh, que volta a depor amanhã, desta vez no Senado.
Com o índice de preços ao produtor (PPI) também na agenda desta quarta-feira (15), uma prévia importante para o PCE, a métrica inflacionária favorita do Fed, os investidores preferiram não esticar a corda.
- O volume financeiro foi de R$ 16,8 bilhões na sessão de hoje, 13,5% acima da média registrada no mês, de R$ 14,8 bilhões, mas 9,2% abaixo da média móvel dos últimos 12 meses, de R$ 18,5 bilhões.
Ações negociadas em 14/07/2026