Recuperação da Oncoclínicas envolve cerca de 40 mil pessoas com mais de R$ 1 bilhão em CRIs

Recuperação da Oncoclínicas envolve cerca de 40 mil pessoas com mais de R$ 1 bilhão em CRIs

Recuperação da Oncoclínicas envolve cerca de 40 mil pessoas com mais de R$ 1 bilhão em CRIs

Clínica oncológica protocolou hoje um pedido de recuperação extrajudicial, em meio a uma batalha pelo controle da companhia. Negociações 'estranhas' ocorreram no secundário nos últimos dias

Depois de Raízen (RAIZ4), a recuperação extrajudicial da Oncoclínicas (ONCO3) é provavelmente uma das com maior exposição de pessoas físicas, de acordo com uma fonte próxima à negociação. São cerca de 40 mil credores espalhados entre sete Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) com lastro em debêntures, cujos créditos somam cerca de R$ 1,27 bilhão, ou cerca de 85% do total de R$ 1,5 bilhão.

A companhia afirmou no fato relevante publicado hoje que 37% dos créditos envolvidos aderiram à recuperação. Esse percentual inclui os CRIs, que aderiram inicialmente sob representação da Opea. Os termos do acordo ainda não foram apresentados e a Oncoclínicas tem 90 dias para fazê-lo.

A expectativa, de acordo com essa fonte, é que seja possível encaminhar o processo de forma próxima ao que ocorreu com a Raízen, e se afastar do exemplo do Grupo Pão de Açúcar. No último caso, segundo um especialista em recuperações que não quis se identificar, as condições “canibalizaram” os minoritários, com exigência de aporte de R$ 15 milhões por investidor para evitar um desconto de 70% da dívida, o que penalizou em especial credores de varejo.

Para isso, a expectativa é que as dívidas não sejam convertidas em ativos ilíquidos e ofereçam as mesmas condições de isenção fiscal da dívida original.

Além disso, à luz do episódio do GPA, é esperado que não seja exigido o aporte de dinheiro novo como condição para recuperação mínima dos créditos e que exista equidade mínima para todos os credores. Por último, se houver conversão de dívidas em ações, que os novos acionistas possam influir na governança e que seja garantida viabilidade operacional da companhia no futuro.

Há ainda R$ 1,86 bilhão em debêntures emitidas em 2022 e 2024 para reperfilamento de dívidas. Os créditos abrangidos totalizam R$ 5,1 bilhões.

Transações 'estranhas' no secundário

A última vez que um destes CRIs foi negociado no mercado secundário, em abril deste ano, ele foi vendido por cerca de 20% do valor pelo qual foi emitido, de acordo com dados da Vitrify. Os papéis são do tipo corporativo, por atrelar a dívida ao caixa da companhia, e foram emitidos com retornos de CDI + 1,3% com vencimento em 2028 ou IPCA + 7,4% com vencimento em 2033, por exemplo.

Há, porém, operações recentes no mercado secundário consideradas “muito estranhas”, de acordo com a mesma fonte próxima à negociação, realizadas no início deste mês. Três negociações de valor semelhante foram realizadas nos dias 6, 7 e 8 de julho com títulos prefixados da emissão 232, por 100% do valor de face. Desde 2024 os papéis não eram negociados pelo valor cheio. Dez dias antes, uma negociação foi realizada com 43% do valor pelo qual foram emitidos e, em maio, um investidor chegou a vender seus papéis por 5% do valor de face.

Esse não é o único aspecto considerado incomum por essa fonte. Há uma disputa pelo controle da Oncoclínicas em curso, envolvendo diferentes grupos econômicos, e, em maio, todo o conselho de administração foi substituído. A negociação, segundo ela, tem esbarrado em episódios de silêncio ou hostilidade entre os próprios credores, o que não é usual nesse tipo de situação, além de notícias negativas sobre os termos da negociação muito antes das partes se sentarem na mesa.

“Tem muita coisa estranha acontecendo e a gente não entende perfeitamente quais são os interesses em jogo”, disse.

Para o Instituto Empresa, o episódio é mais um que mostra como o risco das recuperações judiciais e extrajudiciais deixou de atingir apenas bancos e investidores institucionais. “Hoje, milhares de pessoas físicas podem estar expostas a empresas em crise por meio de debêntures, CRIs ou até de fundos de investimento, muitas vezes sem perceber que assumiram risco de crédito de uma companhia específica", avalia Nicole Berto, executiva do IE.

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