A difícil matemática por trás das carteiras administradas

A difícil matemática por trás das carteiras administradas

A difícil matemática por trás das carteiras administradas

Carteira administrada é uma prestação de serviços, em que o gestor define um mandato com o cliente e gerencia diretamente os ativos na conta dele

Atualizado

Recentemente a Anbima começou a divulgar ao público estatísticas sobre o mercado de carteiras administradas. Diferente de quando você investe em um fundo, uma carteira administrada é uma prestação de serviços, em que o gestor define um mandato com o cliente (que pode ser customizado ou padronizado) e gerencia diretamente os ativos na conta do cliente (que pode ser uma conta corrente normal ou uma conta de custódia, para clientes de grande porte).

O número total isoladamente impressiona: R$ 1,39 trilhão em volume financeiro, distribuído em aproximadamente 117 mil carteiras e quase 300 gestoras.

É um retrato relevante de um mercado que ganhou sofisticação, profundidade e importância dentro da indústria de investimentos no Brasil. Mas também é um número que precisa ser lido com cuidado ao pensarmos na oferta de serviços para pessoas físicas, em específico.

Porque, em finanças, tamanho de mercado nem sempre significa oportunidade econômica disponível. E, no caso das carteiras administradas, talvez a pergunta mais importante não seja quanto esse mercado pode crescer, mas sim quem consegue ganhar dinheiro prestando esse serviço de forma sustentável.

O novo dashboard divulgado pela Anbima ajuda justamente a sair da análise macro e olhar o mercado por dentro. E, quando fazemos esse recorte, a fotografia fica mais complexa.

O número total de R$ 1,39 trilhão inclui carteiras de diferentes perfis: corporate, EAPCs, seguradoras, investidores institucionais, private e demais segmentos de pessoa física. Parte relevante desse universo não é, na prática, um mercado plenamente disponível para gestores independentes. Clientes corporativos, seguradoras, fundos de pensão e estruturas similares tendem a estar muito mais próximos de bancos e grandes instituições.

Falo aqui dos gestores independentes e o mercado de pessoas físicas, já que o crescimento dos chamados “Multi Family offices” tem sido grande, cada vez mais tentando oferecer tais serviços para clientes de valores investidos menores.

Quando olhamos para o universo mais próximo do mercado independente, especialmente private e demais segmentos ligados à pessoa física, o tamanho muda. Estamos falando de algo em torno de R$ 510 bilhões, sendo aproximadamente R$ 420 bilhões em private e R$ 90 bilhões em outros segmentos. Ainda é um mercado grande. Mas já não é o mesmo mercado de R$ 1,39 trilhão que aparece na manchete.

E, mesmo dentro desse recorte, há diferenças importantes.

A maior parte do volume está concentrada em investidores profissionais, com cerca de R$ 390 bilhões. Os investidores qualificados somam aproximadamente R$ 100 bilhões e o varejo, cerca de R$ 20 bilhões. O volume médio das carteiras ajuda a explicar melhor a dinâmica: algo próximo de R$ 17 milhões por carteira no investidor profissional, R$ 4 milhões no qualificado e apenas R$ 300 mil no varejo.

Esse dado é central.

Uma carteira média de R$ 17 milhões já permite imaginar uma operação de gestão personalizada com alguma viabilidade econômica. No investidor qualificado, R$ 4 milhões parece uma espécie de linha d’água. Dependendo da taxa cobrada, da estrutura da gestora e do nível de serviço prometido, pode fazer sentido. Mas exige eficiência.

No varejo, com ticket médio de R$ 300 mil, a conta fica muito mais difícil.

Esse é um ponto pouco discutido quando se fala sobre democratização de produtos e serviços financeiros. O mercado tem buscado inovar, ampliar acesso, oferecer soluções mais sofisticadas e entregar experiências antes restritas ao private banking tradicional. Isso é positivo. Mas há um limite econômico que não pode ser ignorado.

Se uma carteira administrada cobra, por exemplo, algo entre 0,50% e 1% ao ano, uma carteira de R$ 300 mil gera uma receita anual bruta entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil. Antes de qualquer imposto, custo de equipe, tecnologia, compliance, atendimento, suitability, gestão, execução, risco, relatórios e controles regulatórios.

A pergunta é simples: que tipo de serviço personalizado cabe nessa conta?

A resposta é desconfortável. Pouca coisa, se a operação não for extremamente automatizada e padronizada.

O problema é que o próprio mercado mostra uma direção diferente. No recorte de pessoa física e private, a maior parte do volume está em carteiras customizadas, não padronizadas. Dos cerca de R$ 510 bilhões, algo em torno de R$ 400 bilhões está em carteiras customizadas, contra aproximadamente R$ 110 bilhões em carteiras padronizadas.

Ou seja: o mercado parece querer escala, mas ainda opera com alto nível de individualização.

E individualização custa caro.

Uma carteira customizada exige definição própria de política de investimento, acompanhamento específico, controles individualizados, execução aderente ao mandato, monitoramento de enquadramento e uma camada adicional de governança. Isso pode fazer todo sentido para grandes patrimônios. Mas, quando o ticket médio cai, a personalização deixa de ser diferencial e começa a virar risco econômico.

A complexidade também aparece na natureza dos ativos permitidos. Em número de carteiras, mais de 60% permitem crédito privado, cerca de 27% permitem investimento no exterior e quase 10% permitem criptoativos. Quando olhamos por volume financeiro, a sofisticação fica ainda mais clara: mais de 95% do volume permite crédito, quase 67% permitem investimento no exterior e cerca de 25% permitem criptoativos.

Isso mostra que não estamos falando apenas de montar alocações simples entre fundos líquidos, renda fixa conservadora e caixa. Estamos falando de carteiras com ativos mais sofisticados, que exigem análise, controle, documentação, marcação, governança e capacidade operacional.

O ponto é que toda inovação financeira tem um custo oculto.

O cliente quer personalização. O regulador exige controle. A associação de mercado exige envio de dados, padronização informacional e governança. A competição pressiona preços. E o gestor precisa entregar tudo isso com margem.

É aí que o mercado de carteiras administradas talvez enfrente seu maior dilema.

O Brasil tem espaço para crescer nesse segmento. Há demanda por soluções mais personalizadas, há investidores insatisfeitos com modelos engessados, há profissionais qualificados fora das grandes instituições e há tecnologia suficiente para melhorar muito a prestação desse serviço.

Mas há uma diferença enorme entre haver demanda e haver um modelo econômico sustentável.

Nos últimos anos, o mercado financeiro brasileiro avançou muito na direção da desintermediação. Gestores independentes, consultorias de investimento, plataformas abertas e novos modelos de distribuição trouxeram competição para um setor historicamente concentrado. Esse movimento foi positivo e continuará relevante.

Mas a próxima fase talvez não seja apenas de crescimento. Será de eficiência.

Quem conseguir padronizar processos sem perder qualidade, automatizar controles sem renunciar a governança e usar tecnologia para reduzir o custo operacional por carteira terá uma vantagem real. Quem depender de estruturas artesanais, planilhas dispersas, controles manuais e customização excessiva para tickets baixos provavelmente terá dificuldade.

E essa não é apenas uma discussão sobre rentabilidade da gestora. É uma discussão sobre qualidade do serviço prestado ao investidor.

Porque, se o prestador não consegue ganhar dinheiro, ele também não consegue investir adequadamente em equipe, tecnologia, controles, atendimento e governança. No limite, um modelo economicamente frágil pode gerar um serviço pior, mesmo quando a intenção comercial é boa.

O mercado de carteiras administradas pode, sim, ser uma avenida importante de crescimento para a indústria de investimentos. Mas talvez o número de R$ 1,4 trilhão diga menos sobre a oportunidade e mais sobre a complexidade do setor.

A verdadeira pergunta não é se há dinheiro nas carteiras administradas. A pergunta é: há margem?

E, para uma parte relevante do mercado, a resposta ainda parece depender menos da capacidade de captar clientes e mais da capacidade de operar com eficiência. O futuro dirá.

José Brazuna é sócio da Iaas!

O e-mail do José Brazuna é: jbrazuna@iaasbr.com

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