
Como o risco político local anulou o alívio que vinha da inflação americana
Saldo do dia: A dobradinha de inflação ao consumidor e ao produtor mais fraca nos EUA deu fôlego às bolsas em Nova York, mas o Ibovespa acabou travado pela reação do mercado à pesquisa mostrando a liderança de Lula na corrida presidencial
Se, por um lado, o ambiente externo continuou soprando ventos favoráveis nesta quarta-feira (15), com uma dobradinha de dados que pavimenta o caminho da desinflação nos Estados Unidos, do outro, o cenário doméstico resolveu puxar o freio de mão. A bolsa brasileira viveu um dia sob o peso do risco político, neutralizando o bom humor que vinha de fora.
O grande divisor de águas por aqui foi a divulgação da pesquisa Genial/Quaest. Ao trazer de volta ao radar a possibilidade de uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda no primeiro turno das eleições presidenciais, o levantamento fez a cautela ditar o tom entre os investidores.
A leitura imediata do mercado foi de uma redução nas chances de uma guinada mais "pró-mercado" no campo fiscal.
Na visão dos investidores, um cenário político que favoreça a continuidade da atual linha econômica afasta a perspectiva de um controle rígido sobre as contas públicas.
Uma postura fiscal mais frouxa, por sua vez, costuma vir acompanhada de mais gastos e estímulos à economia, o que aumenta a demanda e dificulta o processo de queda da inflação.
Para garantir o cumprimento das metas inflacionárias, o Banco Central acaba sendo forçado a manter a taxa de juros alta por mais tempo.
É por isso que, diante da pesquisa, os investidores passaram a exigir juros futuros maiores para financiar a dívida do governo, travando o desempenho dos ativos locais.
Essa barreira doméstica colidiu de frente com um cenário mais favorável na maior economia do mundo.
Ao mesmo tempo, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) divulgou seu Livro Bege à tarde.
O documento mostrou que a economia americana cresce em ritmo leve a moderado, com salários controlados e alguns distritos prevendo novo alívio na inflação por conta da queda recente dos combustíveis.
Mesmo com o cenário mais benigno lá fora, as preocupações com o rumo das contas públicas brasileiras falaram mais alto, levando os investidores a uma postura mais defensiva.
- O Ibovespa, que vinha ensaiando uma sessão positiva na carona do exterior, perdeu o fôlego e caiu 0,36%, para os 176.011 pontos, aumentando as perdas na semana para 1% e reduzindo o ganho no mês para 2,32%. No ano, avança 9,24%.
- Das 78 ações que fazem parte da carteira teórica mais famosa do Brasil atualmente, 48 caíram.
- O volume financeiro do Ibovespa somou R$ 15,6 bilhões na sessão de hoje, 4,7% acima da média de julho, de R$ 14,9 bilhões, mas ainda 15,7% abaixo da média dos últimos 12 meses, de R$ 18,5 bilhões.
No mercado de câmbio, o dia foi de queda global do dólar, com o índice DXY em baixa e a moeda americana perdendo força contra a maioria das divisas emergentes.
Pressionado pelo ruído eleitoral, o real operou na contramão do movimento externo.
Em vez de acompanhar o alívio lá fora, a moeda brasileira passou o dia travada e encerrou os negócios no zero a zero frente ao dólar.
- O dólar à vista encerrou a sessão cotado a R$ 5,0780. Na semana, a moeda americana ainda cai 0,6% e, no mês, recua 1,6%. No ano, o saldo está negativo em 7,5%.
O verdadeiro termômetro do risco político nesta quarta-feira, contudo, foi a curva de juros futuros.
As taxas de longo prazo subiram e refletiram o prêmio de risco após a pesquisa eleitoral e a proximidade do leilão do Tesouro Nacional de amanhã.
- O DI para janeiro de 2031, por exemplo, subiu para 14,245% (ante 14,235% do ajuste anterior), com a pressão se acentuando nos contratos ainda mais longos da curva.
Já os juros de curto e médio prazo mostraram um comportamento mais contido e fecharam em queda.
O amortecedor veio da própria economia doméstica, com o setor de serviços no Brasil caindo 0,4% em maio, um recuo mais forte do que a projeção de queda de 0,1% do mercado.
- A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2029 cedeu de 14,04%, do ajuste anterior, para 14,02%.
Ações negociadas em 15/07/2026