
Irã ameaça fechar mais rotas marítimas no Oriente Médio após bloqueio naval dos EUA
Teerã sinaliza usar rebeldes houthis, do Iêmen, para bloquear Estreito de Bab el-Manded, outra rota crucial para o transporte marítimo global na região
Por Valor, Com Reuters, Valor — São Paulo
Atualizado
A Guarda Revolucionária do Irã ameaçou fechar “todos os outros corredores de exportação” que beneficiem os Estados Unidos e seus aliados no Oriente Médio, após a decisão do governo de Donald Trump de restabelecer um bloqueio naval aos portos iranianos em meio à retomada da guerra entre os dois países.
“As exportações regionais de energia são compartilhadas por todos ou negadas a todos”, afirmou a Guarda Revolucionária em comunicado divulgado pela agência de notícias estatal iraniana Irna nesta quarta-feira.
Analistas afirmaram que o Irã vem sinalizando que pode usar seus aliados houthis, que controlam partes do Iêmen, para fechar o Estreito de Bab el-Mandeb para o Mar Vermelho, abrindo uma nova frente contra Washington e colocando em risco duas das principais rotas de abastecimento energético do mundo.
O estreito canal liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden, por onde passam parte das exportações de petróleo da Arábia Saudita e uma parcela substancial do transporte marítimo global.
Uma autoridade de alto escalão houthi advertiu na segunda-feira que o grupo estava preparado para fechar o Estreito de Bab el-Mandeb — uma medida que, segundo ele, poderia fazer os preços do petróleo dispararem para US$ 200 o barril — caso a Arábia Saudita continuasse a atacar o Iêmen, de acordo com uma reportagem no site da Press TV do Irã.
Os preços do petróleo subiam na quarta-feira, após fecharem com alta de 1% na terça-feira — atingindo a maior cotação em um mês —, à medida que os últimos ataques agravaram a interrupção no abastecimento no Estreito de Ormuz. No início das negociações de hoje, o barril do Brent, referência mundial, era negociado perto de US$ 85.
Forças houthis dispararam mísseis contra a Arábia Saudita após acusarem o reino de bombardear um aeroporto sob seu controle na segunda-feira, rompendo uma trégua de quatro anos no conflito entre Riad e o grupo alinhado ao Irã.
Os houthis já demonstraram que podem paralisar o comércio global através do Estreito de Bab el-Mandeb. Após o início da guerra de Gaza, em outubro de 2023, o grupo apoiado pelo Irã lançou ataques contra a navegação comercial no Mar Vermelho, afirmando que tinha como alvo embarcações ligadas a Israel, em apoio aos palestinos.
Ataques americanos
A mais recente ameaça à navegação global ocorre um dia depois que as Forças Armadas dos EUA anunciaram o início de uma nova rodada de ataques “para continuar a enfraquecer as capacidades iranianas utilizadas para atacar a navegação comercial no Estreito de Ormuz.”
Os Estados Unidos afirmaram que o Irã havia atacado sete navios comerciais na última semana, resultando em quase uma dúzia de tripulantes mortos, desaparecidos ou feridos.
O Comando Central das Forças Armadas dos EUA informou na noite de ontem que atingiu dezenas de alvos militares próximos ao Estreito de Ormuz e em áreas costeiras iranianas, em uma nova onda de ataques que durou sete horas.
A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, disse que pelo menos 30 civis foram mortos nos últimos dias devido aos ataques dos EUA ao sul do Irã, informou a mídia estatal nesta quarta-feira.
O Exército iraniano informou que pelo menos sete militares da ativa e recrutas foram mortos nos ataques norte-americanos realizados durante a madrugada contra a base militar de Bampur, no sudeste do país.
Retaliação iraniana
A Guarda Revolucionária Islâmica afirmou na quarta-feira que o Estreito de Ormuz permaneceria fechado até o que descreveu como “o fim dos males dos Estados Unidos”. Antes do início da guerra, em fevereiro, cerca de um quinto dos embarques globais de petróleo e gás passava por Ormuz diariamente.
A Guarda afirmou ter atacado o que descreveu como instalações de comando e controle, logística, combustível e equipamentos militares pertencentes à Quinta Frota dos EUA no Bahrein, em resposta aos últimos ataques norte-americanos no Estreito de Ormuz.
Teerã também afirmou ter incendiado e destruído o que descreveram como uma instalação logística dos EUA em Mina Abdullah, no Kuwait, e que sua força aérea havia atacado o que descreveram como uma base dos EUA em Azraq, na Jordânia, tendo como alvo hangares de aeronaves. Eles afirmaram que alguns dos ataques dos EUA haviam sido lançados a partir de bases em território jordaniano.
Na manhã desta quarta-feira, a agência de notícias estatal do Kuwait informou que um incêndio havia sido controlado em um local alvo de ataques iranianos. Não ficou claro imediatamente se o incêndio ocorreu no mesmo local mencionado no comunicado do IRGC.
A defesa aérea da Jordânia interceptou e abateu três mísseis balísticos que entraram no espaço aéreo do país a partir do território iraniano na madrugada desta quarta-feira.
As hostilidades entre o Irã e os EUA se reacenderam na semana passada, abalando uma trégua já frágil alcançada em junho, após vários meses de combates que mataram milhares de pessoas.
Trump faz novas ameaças
O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou na terça-feira atacar usinas de energia e pontes iranianas na próxima semana, a menos que Teerã retome as negociações. “Vou deixar os alvos do setor energético para o final, mas, no fim das contas, vamos atacá-los”, disse ele em entrevista à Fox News.
Trump acrescentou que negociadores americanos estavam em contato com os homólogos iranianos para dizer a eles que é melhor que Teerã “chegue a um acordo” caso queira interromper a nova onda de ataques dos EUA.
À medida que as tensões aumentavam, Trump sugeriu, na segunda-feira, a ideia de uma taxa de 20% sobre o transporte marítimo pelo estreito, o que gerou críticas contundentes da agência de navegação da ONU e de outros. Na terça-feira, ele descartou a ideia e disse, sem fornecer detalhes, que o pedágio seria substituído por acordos de investimento com os países do Golfo Pérsico.