O que Aristóteles, Francis Bacon e René Descartes têm a nos ensinar sobre investimentos

O que Aristóteles, Francis Bacon e René Descartes têm a nos ensinar sobre investimentos

O que Aristóteles, Francis Bacon e René Descartes têm a nos ensinar sobre investimentos

Talvez a maior lição que a filosofia ofereça aos investidores seja a da humildade intelectual

Atualizado

Desde jovem sou um apaixonado por Filosofia. Para mim, ela é a base de todo o pensamento. É nela que devemos mergulhar quando queremos compreender, de fato, o mundo e a nós mesmos em profundidade.

Ao longo da vida, deparei-me com nomes de verdadeiros gigantes do pensamento, parte deles conhecidos pelo público. Também aprendi muito sobre seus principais campos de estudo, como metafísica, lógica, epistemologia, política e ética. É justamente em dois desses campos — lógica e epistemologia — que encontramos os conceitos de indução e dedução.

Antes de avançarmos, porém, é importante nos situarmos na semântica desses conceitos para que não nos percamos na hermenêutica das reflexões que farei a seguir.

Em linhas gerais, podemos dizer que:

- A dedução parte de princípios gerais para chegar a uma conclusão específica. Sua estrutura clássica consiste em uma premissa geral, uma premissa particular e uma conclusão. Se as premissas forem verdadeiras e o raciocínio estiver corretamente estruturado, a conclusão será necessariamente verdadeira. Em outras palavras, a dedução preserva a verdade.

- A indução, por sua vez, percorre o caminho inverso: parte de observações particulares para formular uma regra geral. Diferentemente da dedução, sua conclusão jamais é garantida de forma absoluta. A indução produz conhecimento provável, e não uma certeza lógica. Ainda assim, é exatamente assim que grande parte da ciência evolui: observam-se inúmeros casos, formulam-se hipóteses e leis gerais, que permanecem válidas até que novas evidências indiquem o contrário.

Sob uma perspectiva histórica — e de forma simplificada — podemos dizer que Aristóteles (384 – 322 A.C.) procurou responder como devemos raciocinar corretamente. Para isso, sistematizou a lógica dedutiva e descreveu o raciocínio indutivo.

Séculos depois, Francis Bacon (1561 – 1626) voltou sua atenção para uma questão diferente: como devemos investigar a natureza? Sua resposta foi defender um método baseado na observação cuidadosa dos fatos e na experimentação, fortalecendo a indução como fundamento da investigação científica.

Já René Descartes (1596 - 1650) buscava responder a outra pergunta fundamental: como podemos alcançar a certeza? Sua proposta consistia em construir o conhecimento por meio da dedução, partindo de princípios claros, distintos e indubitáveis, à semelhança do raciocínio matemático.

Outros dois gigantes da filosofia, David Hume (1711 – 1776) e Immanuel Kant (1724 – 1804), ampliaram esse debate. Hume questionou se seria realmente possível justificar a indução. Sua conclusão foi desconfortável: não existe demonstração lógica capaz de provar que o futuro se comportará como o passado. Nossas expectativas decorrem do hábito do que de uma prova racional.

Kant, por sua vez, ficou tão impactado por essa crítica que afirmou ter sido despertado de seu "sono dogmático". Sua resposta consistiu em argumentar que a mente humana possui estruturas a priori — como espaço, tempo e causalidade — que tornam possível organizar a experiência e, consequentemente, produzir conhecimento científico.

Feita esta introdução, a esta altura, você provavelmente deve estar se perguntando: o que tudo isso tem a ver com investimentos?

Minha resposta é simples: tudo.

Na prática, todo investimento é construído a partir de algum tipo de raciocínio indutivo, dedutivo — ou, na maioria das vezes, de uma combinação entre ambos.

Imagine, por exemplo, um investidor que observa que determinada empresa aumentou seu lucro nos últimos cinco anos, expandiu sua participação de mercado e distribuiu dividendos crescentes. A partir dessas observações, conclui que ela continuará sendo um excelente investimento nos próximos anos.

Perceba que esse raciocínio é essencialmente indutivo. O investidor parte de fatos observados no passado para formular uma expectativa sobre o futuro. Trata-se de uma conclusão razoável, mas jamais de uma certeza. Afinal, mudanças tecnológicas, alterações regulatórias, novos concorrentes ou uma recessão podem modificar completamente esse cenário.

Outro exemplo bastante comum ocorre quando alguém afirma:

"Toda vez que a taxa Selic cai, a Bolsa sobe."

Se essa afirmação for construída apenas a partir da observação de alguns ciclos econômicos, ela também representa uma indução. Pode até ter funcionado diversas vezes, mas isso não significa que continuará funcionando em todas as situações futuras. A história dos mercados financeiros está repleta de exemplos em que relações aparentemente sólidas deixaram de existir quando o contexto econômico mudou.

Já a dedução aparece quando o investidor parte de princípios econômicos para chegar a uma conclusão específica.

Imagine o seguinte raciocínio:

- Empresas altamente endividadas tendem a sofrer quando o custo da dívida aumenta.

- A taxa de juros está em processo de elevação.

- Logo, empresas altamente alavancadas provavelmente enfrentarão maior pressão sobre seus resultados.

Observe que, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão decorre logicamente delas. Ainda assim, isso não garante que uma empresa específica terá um desempenho ruim. Ela pode, por exemplo, possuir contratos protegidos contra a alta dos juros, gerar caixa suficiente para reduzir seu endividamento ou até mesmo repassar esse aumento de custos aos clientes.

É justamente nesse ponto que muitos investidores se equivocam.

No mercado financeiro existe uma enorme quantidade de opiniões apresentadas como verdades absolutas. Todos os dias ouvimos frases como: "Essa ação vai dobrar de preço.", "O dólar certamente cairá.", "Agora é a hora de comprar." "O mercado sempre antecipa a economia."

Quase nunca essas afirmações vêm acompanhadas das premissas que as sustentam. E, quando vêm, raramente são submetidas ao rigor lógico ou à validação empírica necessários.

Mais preocupante ainda é que muitos dos chamados "especialistas" constroem narrativas extremamente convincentes a partir de poucas observações, confundindo correlação com causalidade*, utilizando exemplos selecionados (cherry picking) ou simplesmente extrapolando tendências recentes como se fossem leis universais.

Esse é exatamente o tipo de erro contra o qual Francis Bacon alertava há mais de quatro séculos. Antes de aceitar uma teoria, é preciso perguntar: quantas evidências realmente a sustentam? Existem exemplos que a contradizem? O método utilizado foi suficientemente rigoroso?

Da mesma forma, David Hume nos lembraria que o fato de algo ter acontecido repetidamente no passado não constitui prova de que continuará acontecendo no futuro. Os mercados financeiros são sistemas complexos, dinâmicos e adaptativos. As relações entre variáveis mudam ao longo do tempo justamente porque os agentes aprendem, ajustam seu comportamento e incorporam novas informações.

Talvez a maior lição que a filosofia ofereça aos investidores seja a da humildade intelectual.

Todo bom investidor deveria cultivar o hábito de perguntar: (1) Quais são as premissas dessa conclusão? (2) Essa conclusão foi obtida por dedução ou por indução? (3) As evidências são suficientes? (4) Existe alguma hipótese alternativa igualmente plausível?

Essas perguntas não eliminam o risco de errar. Nenhuma filosofia faz isso. Mas certamente reduzem a probabilidade de sermos convencidos por opiniões frágeis, narrativas sedutoras ou previsões feitas com excesso de confiança e pouca fundamentação.

No fim das contas, investir não é apenas escolher ativos. É, antes de tudo, aprender a pensar melhor.

* Quem me dera se todos aprendessem Econometria avançada e entendessem o conceito de causalidade de Granger.

Hugo Daniel Azevedo é gestor de patrimônio, consultor CVM, autor de 4 livros de finanças, professor e sócio da MFS Capital

Instagram: @dinheirodescomplica

← Finance & Crypto