Por que a menor inflação desde a pandemia nos EUA pode não derrubar os juros

Por que a menor inflação desde a pandemia nos EUA pode não derrubar os juros

Por que a menor inflação desde a pandemia nos EUA pode não derrubar os juros

A dobradinha de alívio no CPI e no PPI de junho trouxe o maior refresco nos preços em anos, mas o choque entre o discurso duro de Warsh e a geopolítica mostra que o caminho para o corte de juros está longe de ser consensual

A divulgação do Índice de Preços ao Produtor (PPI) de junho nos Estados Unidos, nesta quarta-feira (15), consolidou o cenário de trégua na inflação americana e deu tração ao alívio iniciado na véspera com o CPI. O indicador de inflação no atacado recuou 0,3% no mês, vindo bem abaixo da expectativa de estabilidade do mercado, enquanto o índice de preços ao consumidor (CPI) registrou ontem deflação de 0,4%, a maior queda mensal desde o auge da pandemia, em abril de 2020.

Juntos, os dados mostram que a pressão sobre os preços está cedendo na maior economia do mundo. No acumulado de 12 meses, a inflação cheia ao consumidor desacelerou de 4,2% para 3,5%, enquanto a inflação ao produtor avançou 5,5%.

Mais importante para as autoridades monetárias, os núcleos de ambos os índices também surpreenderam positivamente. O núcleo do CPI (que exclui alimentos e energia) ficou estável em junho, puxando a taxa anual de 2,9% para 2,6%.

Já o núcleo do PPI subiu apenas 0,1% no mês, abaixo do consenso de alta de 0,3%, acumulando 5,1% em 12 meses. A desaceleração no varejo também atingiu o setor de habitação, que subiu apenas 0,1%, a menor variação mensal desde janeiro de 2021.

Contudo, a pergunta que ecoa entre os agentes financeiros é se essa dobradinha de dados benignos será suficiente para fazer os juros caírem.

A resposta, diante dos fatos, envolve três grandes obstáculos:

1. A revolução de Kevin Warsh

O primeiro e mais imediato freio às expectativas de corte veio do próprio presidente do Fed, Kevin Warsh. Em depoimento prestado ao Congresso ontem, o mandatário adotou uma postura austera e rechaçou qualquer euforia antecipada dos investidores.

“Pode haver quem olhe para os dados desta manhã e diga: 'Ah, missão cumprida, está tudo ótimo'. Essa não é a minha visão”, afirmou Warsh.

Com apenas dois meses de mandato, o xerife do BC americano elevou o tom contra o histórico recente da instituição, classificando a inflação como um "imposto sobre o povo americano" e prometendo uma "mudança de regime" na política monetária.

Warsh criticou a estratégia de metas flexíveis adotada em 2020, que permitia a inflação rodar acima de 2%.

“Aquele banco central não foi o primeiro a pedir um pouco mais de inflação e acabar com muito mais. Foi um erro”, disparou, sinalizando tolerância zero com a persistência dos preços.

2. Um comitê dividido e inclinado a subir juros

O segundo ponto que joga contra um corte iminente é a própria divisão interna do comitê de política monetária (Fomc).

A ata da última reunião revelou que, embora a manutenção da taxa atual (entre 3,5% e 3,75%) tenha sido unânime, o gráfico de expectativas (dotplot) mostrou que metade do grupo ainda via espaço para pelo menos mais uma alta residual de juros ainda este ano.

A leitura benigna do CPI e do PPI serviu para afastar o risco de um aperto monetário imediato no encontro deste fim de mês.

As apostas para uma alta em julho despencaram de 40% para 17% no monitoramento do CME FedWatch. No entanto, o mercado financeiro continua projetando uma probabilidade de 63% de que o Fed aumente os juros na reunião de setembro.

Para Claudia Moreno, economista do C6 Bank, a solidez da economia real dá respaldo a essa postura mais dura.

"A atividade econômica continua sólida e a taxa de desemprego está em um nível baixo para os padrões históricos. Nesse contexto, acreditamos que o Fed vai voltar a subir os juros em setembro", projeta.

A visão de que a taxa deve continuar alta por mais tempo é compartilhada por Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, que mantém em seu cenário base a perspectiva de manutenção dos juros elevados até o final do ano, condicionada à confirmação de uma desinflação mais longa.

3. O fantasma do petróleo no Oriente Médio

O terceiro e mais imprevisível fator é a sustentabilidade desse alívio inflacionário.

O grande motor por trás da deflação de junho tanto no atacado quanto no varejo foi o grupo de energia, que desabou 5,7% no CPI, impulsionado pelo recuo de 9,7% da gasolina na bomba.

Esse recuo, contudo, foi reflexo direto de um memorando de entendimento temporário assinado entre EUA e Irã em meados de junho, que reduziu o prêmio de risco no Estreito de Ormuz.

O problema é que a trégua durou pouco.

Na semana passada, o presidente Donald Trump declarou o fim do cessar-fogo após os dois lados retomarem os ataques a petroleiros na região.

Com novos ataques entre EUA e Irã, o petróleo Brent voltou a subir nesta semana, flertando novamente com o patamar dos US$ 85 a US$ 90 o barril.

"Uma nova escalada reabriria o prêmio de risco, reverteria a recente queda do Brent, fortaleceria o dólar globalmente e dificultaria ainda mais o trabalho dos bancos centrais", alerta Sung.

O veredito

O alívio na inflação de junho deu fôlego aos mercados globais, mas funciona mais como um escudo contra novas altas do que como sinal verde para cortes de juros.

Diante de um comitê conservador, de um presidente mais rígido e disposto a mudar a forma de atuação do Fed e de um cenário geopolítico volátil, a resposta para a pergunta se os juros vão cair continua sendo: parece que não tão cedo, e o investidor precisará monitorar com lupa os próximos passos de Kevin Warsh e os desdobramentos no Oriente Médio.

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