
Colunista do Valor Investe e comentarista do CBN Dinheiro, é consultor financeiro registrado na CVM e economista formado pela UFRJ, com especialização pela Fipe
Expert XP: Os temas relevantes para o mundo e para o Brasil
Primeiro dia da feira de investimentos tem discussões sobre os cenários globais e doméstico
Dois temas dominaram as discussões no primeiro dia da Expert, a feira de investimentos promovida pela XP que reúne milhares de investidores e participantes do mercado financeiro em São Paulo.
Em relação à economia internacional, a maior preocupação é com os efeitos inflacionários na economia americana, provocados pelo aumento das tarifas de importação implementada pelo governo Trump; pelos efeitos do déficit fiscal americano, agravado agora pela guerra contra o Irã; e pelos maciços investimentos das empresas de tecnologia para manter os Estados Unidos na vanguarda do desenvolvimento da inteligência artificial.
No âmbito doméstico, o maior receio é com o equacionamento do déficit fiscal do governo, que aparentemente tem feito a economia brasileira crescer acima da capacidade e tem obrigado o Banco Central a manter os juros em patamar muito alto para combater os efeitos inflacionários. Uma eventual vitória da oposição nas eleições deste ano, que poderia, talvez, mudar a atual política econômica é considerada improvável pela maioria dos gestores de recursos.
Conceitualmente, as tarifas de importação podem ser absorvidas pelos países que exportam para os Estados Unidos. Por exemplo, os programas de auxílio do governo brasileiro para os setores afetados pelo tarifaço podem ajudar as empresas locais a manter os preços em dólares. Assim, o aumento dos custos não seria repassado aos consumidores americanos.
No entanto, sempre existe o risco de pelo menos uma parte dos custos serem repassados, o que provocaria um aumento da inflação nos Estados Unidos. A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã acabou colocando mais lenha na fogueira do aumento dos preços, com a disparada do preço do petróleo.
Já os investimentos em inteligência artificial, que poderiam aumentar a produtividade da economia e provocar um efeito deflacionário generalizado, ainda podem demorar algum tempo para provocar um resultado mais concreto e disseminado. Por enquanto as apostas são para antever as empresas que serão vencedoras nessa corrida.
Nessa linha, a economista Janet Yellen acredita que a situação atual é muito diferente da época em que Allan Greenspan, o poderoso presidente do Fed, o Banco Central americano, por quase duas décadas, enfrentou. Aquele período foi marcado por juros e inflação praticamente zerados, em função das transformações da produtividade da economia americana.
Atualmente, a chance maior é que o Fed precise aumentar as taxas de juros. As consequências seriam incertas para o financiamento da dívida dos países e das empresas.
O historiador britânico Niall Fergunson acredita que a disputa atual entre Estados Unidos e China sobre o domínio da tecnologia de inteligência artificial é semelhante à guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética após a segunda Guerra Mundial. E o centro das atenções, agora, é Taiwan.
O país, que é um território reivindicado pela China, é o maior produtor de chips de alta performance usados nos processadores dos computadores mais avançados. E um insumo fundamental para o desenvolvimento dos “data centers” relacionados com os programas de inteligência artificial.
Mas o especialista vê um lado positivo para a América Latina. Como a região está fora dos conflitos atuais, ao contrário do que acontecia nos anos 1960, os países podem negociar com as duas superpotências. O risco é um aumento dos juros que provoque uma crise para o financiamento da dívida desses países.
O financiamento da dívida pública brasileira é uma preocupação dos gestores de recursos locais. Em todos os painéis esse tema foi levantado.
O diagnóstico é que a relação entre o total da dívida e o tamanho da economia brasileira, medida pelo produto interno bruto (PIB), é muito alta. Portanto, um ajuste fiscal é necessário.
O problema é que o assunto não é abordado pelos candidatos à presidente nas próximas eleições. Portanto, o verdadeiro plano econômico do futuro governo só vai ser revelado após o resultado das urnas.
E, nesse meio tempo, os juros ficam muito altos e o preço dos ativos de renda variável muito baixos. Mas alguns gestores acreditam que as melhores apostas ainda são investimentos em boas companhias brasileiras.