
Juros em nível de crise com expansão do crédito privado cria risco 'incontrolável', avaliam especialistas
Profissionais que atuam no crédito corporativo compararam o atual patamar de juros ao das crises de 2008 e 2015 e veem no futuro ciclo de queda a chance de destravar alocações mais longas
O atual patamar de juros no Brasil supera o das duas crises mais severas da última década e meia, tanto da crise imobiliária americana de 2008 e 2009 quanto da recessão de 2015 e 2016. Agora, porém, o tamanho do crédito privado como fonte de financiamento empresarial é inédito. A avaliação foi compartilhada por especialistas reunidos em um painel na Expert XP, evento que reúne os principais nomes do mercado financeiro em São Paulo nesta semana.
Para Gustavo Montezano, diretor-executivo da YvY Capital e ex-presidente do BNDES, esse é um "problema bom", mas representa um grande desafio para alocação de capital.
Questionado como controlar o risco da carteira nesse ambiente, o executivo foi taxativo. "Você não controla." Ele lembrou que várias empresas grandes já estão em recuperação judicial ou extrajudicial, situação ainda mais frequente entre companhias de menor porte.
"A cada dez anos passamos por isso", afirmou. Uma diferença, ponderou, é que os episódios anteriores tinham causas mais delimitadas: a crise de 2008 era externa, e a de 2015 e 2016 foi política, com forte presença de bancos públicos em linhas subsidiadas. Agora, o ambiente macroeconômico internacional se soma a um cenário fiscal e político doméstico turbulento, e o tamanho do crédito privado é inédito.
A leitura, porém, não é de pessimismo pleno. Assim como nos ciclos anteriores, o fechamento dos juros reais tende a desenvolver o mercado, para quem chegar até lá. Com juros reais na casa de IPCA + 8%, o desafio imediato é de sobrevivência. "Quem sobreviver vai tomar água limpa", resumiu.
Caio Megale, economista-chefe da XP, colocou o crédito no centro tanto do risco quanto da oportunidade. Depois de um forte crescimento do mercado de capitais, disse enxergar sinais de esgotamento, mas aposta que trata-se apenas de uma pausa.
Um gatilho que vem de fora
Para Glenn Mallett, sócio e chefe de renda variável da XP, o juro é o que trava ou destrava o restante. A bolsa subiu no início do ano puxada por fluxo estrangeiro, e o Brasil se apropriou dele de forma mais que proporcional. A expectativa, então, era de quantos degraus de corte de juros o país teria pela frente.
Essa conta se inverteu. O conflito no Irã trouxe pressão de inflação e mexeu com as projeções, apontou Mallett. Histórias locais deram lugar a petróleo e gás e, a partir de abril, a tese de inteligência artificial drenou fluxo do Brasil para outros emergentes. "O mercado ficou muito mais árido", disse. O gatilho, na sua leitura, é externo — e, por isso, o quadro atual seria mais uma pausa do que uma reversão.
Boom de emissões e o surgimento do mercado secundário
Fábio Fukuda, responsável pela área de crédito corporativo da XP, chamou atenção para a onda de emissões dos últimos anos. Incentivadas e não incentivadas cresceram, disse, e as debêntures ganharam relevância também como instrumento de crédito bancário.
O avanço dos fundos de crédito, acrescentou, deu dinamismo ao setor e criou um mercado secundário que praticamente não existia há poucos anos atrás. Nas incentivadas, o movimento se repetiu em agro, imobiliário e infraestrutura. E precisa continuar: houve muitos leilões, e o dinheiro captado ainda terá de ser aplicado. "Brasil está condenado a crescer", afirmou.
Fukuda destacou ainda as mudanças regulatórias conduzida pela CVM nos últimos oito anos, que classificou como uma revolução no arcabouço para emissões e fundos, que levou à criação de uma infraestrutura financeira ainda pouco testada por causa do próprio cenário macro. Mallett acrescentou que as ofertas ficaram mais ágeis, mas ponderou que a parcela da poupança nacional aplicada em ações é inferior a 10%, o que limita avanços estruturais enquanto o custo de capital não cair.
Onde estão as oportunidades
Mallett evitou apostas setoriais fechadas. As commodities vão bem, disse, mas de forma contingente, ligada ao petróleo e ao Irã, um quadro que muda rápido. Ele vê oportunidade em financeiras, infraestrutura, construção civil e varejo, ressalvando que existe uma "escada de apetite de risco", em que os setores mais defensivos vêm primeiro.
No agro, Fukuda notou um arrefecimento herdado do ciclo anterior, com queda no número de emissões. É um setor de capital intensivo que responde por 35% do PIB e precisará voltar a acessar o mercado. "Está dando uma pausa maior, mas vai voltar", afirmou.
Montezano, cuja YvY Capital é especializada como alocadora em infraestrutura, apontou o gargalo de operadores como o principal limite do setor. Na foto mais longa, disse ver oportunidade em aeroportos, portos, rodovias, biometano e armazenagem, desde que haja bons projetos com estabilidade de longo prazo. O apetite internacional, segundo ele, voltou a aparecer neste ano, com investidores da América do Norte e da Ásia, enquanto a demanda do Oriente Médio congelou com a guerra na região.
O Estado e a necessidade de aprimorar governança
Apesar do diagnóstico cético, Montezano defendeu que a origem da solução está no próprio Estado, com melhora de governança, redução da corrupção e disciplina fiscal para que o governo não concorra com o investidor na emissão de títulos. Ele avaliou que o ambiente de investimento em infraestrutura hoje é incomparavelmente melhor do que no período do governo Dilma, e que os avanços feitos na gestão Temer não foram revertidos.