
Não é a geopolítica: gestor da Kinea vê ‘superpoderes’ de Trump como maior risco para os mercados
Para Ruy Alves, polarização da política interna nos Estados Unidos concentrou poder nas mãos do presidente e tornou a maior economia do mundo menos previsível, elevando o prêmio de risco dos ativos
O principal risco para os mercados globais hoje não está na China, na Rússia ou nos conflitos armados internacionais, mas dentro dos próprios Estados Unidos. Essa foi a avaliação de Ruy Alves, sócio e co-gestor dos fundos multimercados da Kinea Investimentos, durante painel da Expert XP.
Na visão do gestor, a polarização política americana ampliou de forma desproporcional o poder do Executivo — hoje comandado por Donald Trump — e tornou as decisões da maior economia do mundo menos previsíveis. O resultado é um prêmio de risco maior sobre os ativos financeiros.
“O que a gente está sofrendo agora não é com a geopolítica, na minha visão, mas com o problema da política interna norte-americana”, afirmou Alves.
Segundo ele, os Estados Unidos ocupam uma posição única, por reunirem poder econômico, tecnológico, militar, agrícola, energético e uma extensa rede de alianças. Por isso, as decisões tomadas pelo país têm capacidade de afetar toda a economia global.
Alves argumentou que a estabilidade global construída após a Segunda Guerra Mundial dependia da capacidade dos Estados Unidos de coordenar alianças e administrar as relações com outras potências. Essa liderança, porém, foi sido enfraquecida pela divisão interna americana, acentuada sob o governo Trump.
Para o gestor, até mesmo conflitos como a guerra na Ucrânia devem ser analisados a partir dessa perda de coordenação internacional, e não apenas como resultado das ambições da Rússia ou da ascensão da China.
O problema central, em sua avaliação, é que a polarização levou os americanos a concentrarem mais poder na Presidência. Nas mãos de um Executivo mal dimensionado, essa força pode produzir erros com consequências para todo o mundo.
“Isso tem um prêmio de risco maior”, resumiu Alves.
A leitura de Alves encontra raízes na avaliação feita pelo prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, já em meados do ano passado, em meio à crise global provocada por Trump e seu tarifaço aplicado sobre praticamente todos os países do mundo.
Na época, em evento da Anbima, o economista norte-americano afirmou que Trump reverteu a dinâmica estabelecida no comércio global e isolaria o país do resto do mundo: 'nunca estivemos em um momento tão incerto como agora'.
Krugman afirmou que a estrutura política dos Estados Unidos funcionou até a eleição de Trump, mas que sua postura "personalista" e “disruptiva” distorceu a forma como o governo federal se relaciona institucionalmente.