
O futuro da contabilidade, tecnologia e sustentabilidade: destaques do congresso USP
Os painéis abordaram temas emergentes como o uso prático e a governança de Inteligência Artificial na função financeira, a reforma tributária sob a ótica contábil e societária, os reportes de sustentabilidade e IFRS, as estratégias de gestão no setor público e a apresentação de novas obras e metodologias aplicadas à rotina dos profissionais contábeis
Atualizado
A 26ª edição do USP International Conference in Accounting e o 23º Congresso USP de Iniciação Científica em Contabilidade, promovidos anualmente pelo Departamento de Contabilidade e Atuária da FEA/USP, reafirmam a posição do evento como o principal ecossistema de debate acadêmico e profissional da área contábil na América Latina.
Guiado pelo tema central "Accounting, Technology and Sustainability: shaping the future research and practice", o evento, do qual tenho a honra de atuar como Coordenador Geral, , reuniu mais de 800 congressistas inscritos para discutir as transformações globais na pesquisa, no mercado e na regulação entre os dias 22ª 24 de julho de 2026. Do ponto de vista da produção científica, foram submetidos 597 trabalhos, dos quais 302 foram selecionados e aprovados para apresentação (242 na conferência internacional e 60 no congresso de iniciação científica).
Em sua trajetória histórica acumulada ao longo de 26 edições, o Congresso já registra mais de 4.000 artigos submetidos e mais de 3.000 apresentados, consolidando-se como vitrine da vanguarda científica da área.
A programação científica e profissional do evento ofereceu um panorama rico e diversificado sobre as transformações, desafios e inovações que moldam a contabilidade contemporânea. Os debates uniram a profundidade acadêmica a discussões práticas essenciais para a evolução da profissão e das organizações.
Entre as quatro palestras internacionais programadas para o evento, vários são os pontos de destaque. Sob o título "Supporting Faculty and Practice in a Rapidly Changing, Global Environment", a Profa. Dra. Yvonne Hinson, Ph.D., CPA e CEO da American Accounting Association (AAA) apresentou palestra que abordou as transformações no ensino e na pesquisa contábil frente às demandas globais por sustentabilidade e tecnologia.
Hinson detalhou a atuação da AAA na promoção de um global mindset e apresentou os novos padrões de credenciamento da AACSB, com ênfase na medição do impacto real da pesquisa acadêmica sobre a prática profissional, governos e órgãos reguladores como IASB, FASB e PCAOB. Além disso, ressaltou estratégias para a integração da inteligência artificial e a formação das novas gerações de docentes e pesquisadores sob altos padrões éticos e de inovação.
No campo da Contabilidade Pública e da Governança Democrática, a conferência da Profa. Dra. Ileana Steccolini (Essex Business School e Universidade de Bolonha) provocou reflexões profundas sobre o papel das finanças frente ao recuo democrático (democratic backsliding) e à polarização social.
A Profa. Steccolini defendeu a transição da tradicional Accountability (centrada no governo que presta contas de forma unilateral e reativa a órgãos burocráticos) para o conceito de Accountee-ability. Essa abordagem foca na capacidade efetiva, nas condições e no empoderamento dos cidadãos e stakeholders para exigir justificativas e impactar decisões públicas.
Ressaltando a importância da contabilidade para fins gerenciais, o Prof. Dr. Utz Schäffer (WHU – Otto Beisheim School of Management) reforçou essa mudança de paradigma ao analisar o futuro do Controlling e da Gestão de Desempenho nas empresas privada no cenário VUCA/BANI.
Em ambientes voláteis, o orçamento rígido anual perde totalmente o sentido, abrindo espaço para a filosofia do Beyond Budgeting, a autonomia supervisionada e a aplicação da Teoria Y na liderança corporativa — na qual a coordenação por planos estáticos dá lugar ao autogerenciamento dinâmico e à transparência total de informações.
Por fim, a Profa. Dra. Joanna Krasodomska (Krakow University of Economics) abordou a incerteza regulatória no reporte de sustentabilidade, analisando a implementação dos padrões europeus (ESRS/CSRD) e a recente proposta do Pacote Omnibus na Europa. A Profa. Krasodomska resgatou a lição do Prêmio Nobel Douglass North: "Empresas não temem a regulação, temem a incerteza".
As palestras nacionais também se destacaram ao abordar temas de extrema relevância no cenário brasileiro. A palestra "Tesouro Estratégico - construção da capacidade institucional dos governos diante da Reforma Tributária", ministrada por Carin Deda (Tesouro PR) e Sandra Machado (BID), com moderação da Profª Dra. Patrícia Siqueira Varela (USP), trouxe reflexões cruciais sobre a gestão financeira pública diante do novo cenário fiscal.
Complementando as discussões nacionais, a palestra "Inteligência artificial sob controle - Governança e Controles internos em um ambiente AI-First", apresentada por Andressa Regina Fabris e Claudemir Alexandre Silva (Votorantim), com moderação da Profª Dra. Mara Jane Contrera Malacrida (USP), discutiu os desafios de manter a governança contábil em tempos de automação ostensiva.
Os fóruns profissionais ofereceram um espaço vibrante para a troca de experiências práticas e discussão de cases do mercado. Os painéis abordaram temas emergentes como o uso prático e a governança de Inteligência Artificial na função financeira, a Reforma Tributária sob a ótica contábil e societária, os reportes de sustentabilidade e IFRS, as estratégias de gestão no setor público e a apresentação de novas obras e metodologias aplicadas à rotina dos profissionais contábeis.
Por fim, o Fórum Acadêmico promoveu discussões de alto nível científico distribuídas entre diversas áreas temáticas. Os participantes debateram desde os riscos emergentes e a auditoria do futuro até os desafios e lacunas de pesquisa em finanças, tributos, contabilidade governamental, diversidade nas organizações e sustentabilidade.
Também ganharam destaque as iniciativas voltadas às estratégias educacionais, tais como o uso de jogos na educação fiscal, os caminhos para o ingresso na pós-graduação e as redes de pesquisa focadas em empresas familiares.
Além dos tópicos já mencionados, a programação científica do Congresso trouxe para o centro do debate temas de profunda relevância para a profissão e para o mercado financeiro, dentre os quais:
- IFRS 18 (CPC 51): Debates aprofundados sobre os novos padrões de apresentação e divulgação da Demonstração do Resultado, conduzidos pelos Professores Bruno Salotti, Fernando Murcia e Raquel Sarquis (USP).
- Inteligência Artificial na Academia: Painéis sobre o uso transformador da IA generativa e de metodologias ativas no ensino e na produção científica contábil.
- Reforma Tributária e Gestão Pública: Discussões abrangentes sobre os impactos práticos das mudanças no sistema tributário brasileiro e os desafios contemporâneos da gestão pública, inclusive com o lançamento de obra do CRC/SP acerca da contabilização do IBS e da CBS.
- 50 Anos da Lei das Sociedades Anônimas: A palestra especial a ser ministrada pelos Professores Eliseu Martins e Ariovaldo dos Santos (USP) em celebração ao meio século da Lei nº 6.404/1976, marco histórico e regulatório que revolucionou a contabilidade e o mercado de capitais no Brasil.
O evento também celebrou a memória e a contribuição de grandes nomes da contabilidade brasileira com lançamentos editoriais de destaque: as biografias dedicadas aos Professores Eliseu Martins e Sergio de Iudicibus, além da obra coletiva de estudos em homenagem ao Professor Nelson Carvalho, coordenada pelo Professor Eduardo Flores.
Que os debates, os aprendizados e as redes de cooperação fortalecidos ao longo destes dias continuem a impulsionar o avanço do conhecimento e a transformar a nossa prática profissional.
Mais do que um ponto de encontro anual, este evento reafirma seu compromisso inabalável com o rigor científico, a ética e a inovação necessária para responder aos grandes desafios da nossa sociedade.
Alexandre Evaristo Pinto - Professor concursado da FEA/USP e da EAESP/FGV. Conselheiro do CRSFN. Advogado e Contador.