
Tombo do petróleo e recado do BC esfarelam ganhos do Ibovespa na semana
Saldo do Dia: O mesmo petróleo que embalou o otimismo na véspera virou o vilão do pregão. Sem a força de exportadoras e sob a sombra de juros altos por mais tempo, a bolsa brasileira viu a euforia da semana escorrer pelas mãos
A semana que se encerra nesta sexta-feira (24) ofereceu aos investidores um retrato fiel da volatilidade que tem dado o tom nos mercados globais. Em uma verdadeira montanha-russa geopolítica, a bolsa brasileira viveu dois dias de dinâmicas opostas: a mesma commodity que impulsionou o índice na véspera foi responsável por puxar o freio de mão dos negócios antes do fim de semana.
Se até ontem o Ibovespa acumulava uma alta firme de 1,7% na semana, impulsionado pelas exportadoras com o petróleo acima dos US$ 100, o cenário virou radicalmente nesta sessão.
Com o tombo do barril e a sinalização dura do Banco Central, a pressão vendedora nesta sexta fez esses ganhos esfarelarem no acumulado semanal, mostrando o quão frágil tem sido a sustentação dos ativos no curto prazo.
- O principal índice da bolsa brasileira recuou 1,5%, para os 174.042 pontos, encolhendo o saldo positivo na semana para 0,2%. Em julho, avança 1,2%, e no ano o ganho acumulado é de 8%.
A virada no preço do petróleo retirou o principal amortecedor do índice brasileiro.
Notícias sobre articulações envolvendo China, Paquistão e autoridades do Oriente Médio para levar Estados Unidos e Irã de volta à mesa de negociações fizeram o barril do tipo Brent recuar quase 4%, negociado próximo da faixa de US$ 97.
Se por um lado a sinalização ajudou a aliviar os temores inflacionários globais, por outro acabou pesando diretamente sobre os pesos-pesados da bolsa brasileira, com destaque para as ações da Petrobras (PETR4), que caíram 1,7%.
Sem o suporte das exportadoras, o Ibovespa passou o dia no campo negativo, acelerando as perdas para 1,5% de queda e testando o limite da região dos 174 mil pontos.
O mercado observa essa possível trégua geopolítica com bastante cuidado, lembrando que esse vaivém diplomático já se arrasta há meses e a última tentativa de cessar-fogo durou pouco.
- Das 78 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 66 fecharam o dia no vermelho, com apenas 11 papéis no azul.
O alerta de Galípolo e o recado para a Selic
No cenário doméstico, a postura cautelosa dos investidores ganhou novo respaldo com as declarações do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante participação na Expert XP.
Em tom firme, Galípolo ressaltou que a recente desancoragem das expectativas de inflação traz uma "preocupação adicional" e enfatizou que o quadro atual exige manter a taxa de juros em patamar restritivo por um período mais prolongado.
Ao pontuar que o BC funciona mais como um "transatlântico do que como um jet-ski", reforçando que a instituição não reagirá a dados isolados, o presidente da autarquia consolidou o tom defensivo que já predominava no mercado desde a abertura.
Curiosamente, no mercado de juros futuros, o alívio com a queda do petróleo falou mais alto do que o tom duro de Galípolo.
Em meio à queda livre da commodity lá fora, o mercado de opções do Copom voltou a atribuir 80% de probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic na próxima reunião, que acontece no dia 5 de agosto.
As taxas dos contratos futuros de juros (DIs) caíram firme nesta tarde, na esteira do recuo nos rendimentos dos títulos públicos americanos (Treasuries), devolvendo o estresse da véspera.
- A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 14,025% no ajuste anterior para 13,96% no fim da sessão. Os prêmios nos contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas para a taxa Selic.
- No miolo da curva, o DI para janeiro de 2029 cedeu de 14,68% para 14,455% no encerramento dos negócios.
- Já o contrato de DI para janeiro de 2031 caiu de 14,82% para 14,625%. Vencimentos mais longos refletem uma maior preocupação com as incertezas fiscais e com o ambiente macro externo.
No câmbio, o dólar à vista chegou a ensaiar uma queda firme frente ao real pela manhã, embalado pelo alívio geopolítico externo, mas perdeu tração ao longo do dia e encerrou a sessão estável, em leve recuo de 0,06%, cotado a R$ 5,0809.
- Apesar do ritmo morno no fechamento, o saldo semanal permaneceu negativo em 0,6%, aprofundando as perdas no mês para 1,6% e no ano para 7,4%.
O recuo da moeda americana sinalizou uma descompressão da aversão ao risco, embalada pelos relatos de que o Paquistão tenta abrir um canal de diálogo entre Washington e Teerã para conter a escalada do conflito.
Na avaliação de especialistas, contudo, a divisa segue refém da volatilidade geopolítica, operando no modo vaivém até que decisões mais concretas definam os rumos do mercado.
Essa postura mais defensiva do investidor também deu a tônica aos negócios na B3.
- O Ibovespa movimentou R$ 12,1 bilhões no dia, 34,6% abaixo da média de R$ 18,5 bilhões dos últimos 12 meses.
Ações negociadas em 24/07/2026